Pergunta:
Já se falou aqui do uso do advérbio samicas, usado por Gil Vicente, com o sentido de «talvez», «porventura» ou «quiçá».
Agora encontrei em Sucessos de Portugal, Avisos do Céu, de Luís de Torres de Lima (1.ª ed. Lisboa, 1630, 2.ª ed. Coimbra, 1654), o seguinte trecho (ortografia actualizada):
«E com ouvirem estas lamentações acabaram de crer os que estavam fora que aquele era el-Rei ou a alma de Samicas em seu lugar.» (O contexto é o aparecimento na Ericeira de um falso rei D. Sebastião).
Samicas é aqui um nome cujo significado me escapa.
No Vocabulário de Bluteau (1638-1734), encontro, além do advérbio samicas, sinónimo arcaico de porventura, isto: «SAMICAS, chama o vulgo ao homem coitado, pobre de espírito, etc.»
Tenho dúvidas que tenha sido com este sentido que Torres de Lima usou o termo.
Resposta:
O advérbio samicas, que geralmente significa «talvez» e já no século XVI era tido por vulgar e rústico, foi também usado como nome, para designar um homem tido por insignificante, como, aliás, confirma o registo da palavra no Vocabulário Portuguez e Latino (publicado entre 1712 e 1728), que o consulente menciona. Mas dicionários muito mais recentes também acolhem este arcaísmo: o Dicionário Infopédia da Língua Portuguesa e o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa1 classificam samicas também como vocábulo arcaico e/ou popular equivalente a «maricas, homem fraco ou efeminado», registo que já reflete uma extensão semântica talvez mais tardia.
Do contexto em apreço, pertencente ao relato de um dos casos ocorridos no século XVII, em que vários impostores diziam ser D. Sebastião, pode supor-se que o sujeito do enunciado insinua que quem se lamentava não era o rei, mas outra pessoa. Não parecendo incompatível com o significado de «pobre de espírito» (nem com a de «maricas»2), esta ocorrência de samicas pode também entender-se como mais próxima da incerteza associada ao uso adverbial Sendo assim, a sequência «a alma de samicas» quererá dizer «a alma de não se sabe quem» ou «a alma de um desconhecido». Note-se, porém, que, nas fontes consultadas para elaboração desta resposta1, não foi possível achar outras atestações deste uso de samicas em sentido indefinido.
Sobre o nome samicas, convém registar as considerações que lhe dedicou Paul Teyssier (1915-2002) em