Carlos Rocha - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
Carlos Rocha
Carlos Rocha
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Licenciado em Estudos Portugueses pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, mestre em Linguística pela mesma faculdade e doutor em Linguística, na especialidade de Linguística Histórica, pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Professor do ensino secundário, coordenador executivo do Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, destacado para o efeito pelo Ministério da Educação português.

 
Textos publicados pelo autor

Pergunta:

Pretendo saber a origem da palavra "erbanços" usada em Trás-os-Montes/Galiza para nomear o grão-de-bico.

Resposta:

Também se diz e escreve ervanço e gravanço, entre outras variantes (erbanço, gravanço, grabanço, garbanço, esgrabanço)1.

A etimologia desta palavra é obscura, conforme se aponta no Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa2:

«esp. garbanzo, originalmente arvanço ou ervanço (tanto em espanhol quanto em português), alterados, segundo Joan Corominas [e José Antonio Pascual, Diccionario Critico Etimológico Castellano e Hispánico], por influência do g- de vários nomes de legumes: garroba/algarroba 'alfarroba', gálbano 'idem', português grão; de origem incerta, provavelmente de uma língua indo-europeia., talvez pré-romana [...].»

 

1 Vocabulário da Língua Portuguesa (1966), de Rebelo Gonçalves (1907-1982), só regista ervanço e gravanço, mas, numa perspetiva não normativa, de recolha de toda a variação regional, o Tesouro do Léxico Patrimonial Galego e P...

Pergunta:

Gostaria de perguntar se a palavra geniturinário se escreve como acabo de o fazer, ou genito-urinário.

Pergunto porque julgava que, segundo as regras do hífen na composição, esta palavra se deveria escrever sem hífen (já que me parece que o elemento genito não conserva a sua integridade e, portanto, não sendo "geniturinário" uma palavra composta por justaposição, não deveria escrever-se com hífen).

No entanto, vejo que a Sociedade Portuguesa de Urologia escreve a palavra com hífen.

Agradeço desde já a atenção e a incrível ajuda que sempre representam.

Resposta:

Os termos da linguagem médica levantam problemas que a codificação ortográfica nem sempre consegue resolver. Será este um caso.

Muitos termos são compostos morfológicos, isto é, formados por radicais geralmente de origem grega, e escrevem-se habitualmente sem hífen, constituindo uma única palavra gráfica. A palavra em questão tem a forma geniturinário há já bastante tempo (pelo menos, desde 1940, no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa da Academia das Ciências de Lisboa), uma grafia que o acordo ortográfico vigente não abrange nem altera.

Quanto a genito-urinário não é uma forma impossível, porque representa a coordenação de dois adjetivos: genital e urinário. Contudo, também são antigos outros termos em que genito- aparece agregado ao elemento seguinte, sem hífen – genitocrural, genitofemoral –, e sendo assim, parece não haver razão para rejeitar geniturinário nem para favorecer genito-urinário.

Pergunta:

Não encontro no dicionário uma definição para a palavra "subtrama".

Penso que poderá ser qualquer coisa como «uma trama dentro da trama», isto é, «um enredo dentro do enredo», «um episódio dentro da história». Mas sendo esse o sentido, a pergunta é: existe essa palavra?

Obrigado.

Resposta:

As fontes dicionarísticas consultadas1 não registam a palavra subtrama, mas esta está bem formada e, portanto, correta, à semelhança de outras prefixadas do mesmo modo2, que estão já dicionarizadas: subcontrato, subsecretário, subtema, subtratamento, subunidade, subzona.

Da sua formação, e independentemente da dupla significação da palavra («espécie de teia» e «enredo»), infere-se que significa «parte da trama» ou «trama que se desenvolve dentro de uma trama mais alargada». Da consulta de páginas de Internet, nota-se que subtrama ainda não é muito frequente nem tem uso estável nos textos em português, mas ocorre de maneira mais corrente em espanhol (ou castelhano, como se preferir). 

1 Cf. Dicionário Infopédia da Língua Portuguesa (Porto Editora), Dicionário Priberam da ...

Pergunta:

Certa vez, Napoleão Mendes de Almeida, creio eu que no seu Dicionário de Questões Vernáculas, disse, do seu jeito prescritivista, que deveríamos ter bem clara a distinção entre «tenho que» e «tenho de». Segundo ele, frases como «ela afirmou que eu tinha que tomar mais cuidado» seriam mais bem formadas com o uso de «tenho de», ou seja, de forma correta escreveríamos e diríamos: «ela afirmou que eu tinha de tomar mais cuidado».

«Ter que» seria usado no sentido aqui discutido: «tenho mais que fazer».

Contudo, é fato que no Brasil quase todos dizem «tenho que fazer X» e, no caso de «tenho mais que fazer», — é o que me parece — dizem «tenho mais o que fazer».

No primeiro caso, acabamos, por coincidência ou não, convergindo no uso com o espanhol, idioma em que se diz «tengo que».

No entanto, no segundo, acabamos por criar algo próprio, ou seja, em vez de manter o «tenho mais que fazer», pusemos um o antes do que. (“Criando” porque me parece mais natural que a novidade seja nossa, já que em tanto no português europeu quanto no espanhol há a mesma forma, e a divergente é a construção brasileira.)

A pergunta é: como é que houve essa inovação no Brasil? Conseguem dar hipóteses? Terá sido uma questão fonética?

Resposta:

Sobre a história dos juízos normativos à volta de «ter que», com valor modal, poderá consultar a resposta "Ter de vs. ter que".

Quanto a «ter mais o que fazer», que tradicionalmente não é aceite1, as fontes consultadas para elaboração desta resposta são omissas quanto à sua origem2.

No entanto, não é de excluir que a génese da construção em apreço se deva à analogia com orações interrogativas indiretas em que o pronome interrogativo que pode ser substituído por o que:

(1) Não sei mais que fazer.

(2) Não sei mais o que fazer.

Em (2), observa-se que é possível ocorrer o que ocorra em lugar de que interrogativo.

Sugere-se aqui, portanto, que «ter mais o que fazer», em vez de «ter mais que fazer», seja resultado da transposição da relação entre (1) e (2), levando a permutar que com «o que». Na origem da construção brasileira, estarão, portanto, factores de interpretação sintática e semântica.

 

1 Maria Helena de Moura Neves, no Guia de Uso do Português (São Paulo, Editora UNESP, 2003, p. 745), observa o seguinte: «Considera-se tradicionalmente que é injustificável o uso de um pronome demonstrativo o após o

Pergunta:

O termo “Euromaidan”, em rigor, significa “europraça”. Assim se chama porque no fim de 2013 surgiram protestos antigoverno e pró-União Europeia, e eles tiveram como centro a praça da Independência, na capital do país. Ou seja, sendo os protestos pró-União Europeia e centrados numa praça, a palavra “Euromaidan” surgiu, e passou a ser amplamente usada pela mídia.

Após algum tempo, a palavra passou a representar não somente a praça, mas também o movimento inteiro que levou à derrubada do governo naquela época. Na mídia e na escrita acadêmica anglófona, não se fala dos protestos da Ucrânia em si, mas sim do (movimento da) “Euromaidan”. A Real Academia Española, atenta à movimentação, adaptou a grafia ao castelhano: “Euromaidán”. Ela passou a ser usada na hispanosfera normalmente.

A meu ver, a forma natural de se traduzir o termo para o português seria grafando-o como “Euromaidã”. Entretanto, ninguém da mídia portuguesa nem da mídia brasileira o fez. Não encontrei um texto na Internet que o empregasse.

Pergunto:

1. Uma palavra nova aportuguesada só entra nos dicionários caso seja utilizada pelas pessoas? Como isso se define? Qual é o critério?

2. Caso alguém a utilize num texto acadêmico sem que ela esteja registrada num dicionário, poderá esse uso ser criticado?

Resposta:

Por enquanto, não existe um sistema de transliteração do alfabeto cirílico para o alfabeto português que seja aceite universalmente entre falantes de língua portuguesa. Há várias propostas – entre elas, a da Folha de S. Paulo1 –, e até se emprega a norma internacional ISO 92.

Mesmo assim, embora a adaptação proposta pelo consulente seja possível, em princípio, ainda não encontra ela a força necessária para se consagrar, porque o nome que representa não tem tradição ou grande circulação no português oral e escrito. É verdade que, com final, em lugar de -an, se regista Astracã e que o elemento -stan tem o aportuguesamento (i)stão: Cazaquistão, Usbequistão.  Contudo, trata-se de formas que, por razões históricas, foram sendo alteradas por um uso mais frequente ou mais presente em certas práticas discursivas, como sejam, as do jornalismo, as das relações diplomáticas e as da divulgação historiográfica.

Respondendo às perguntas:

– Um aportuguesamento pode ser criado de propósito, de forma planeada, para um registo dicionarístico, mas é corrente este concretizar-se já depois da criação de tal forma, muitas vezes sem se poder atribuir a falantes identificados.

– Quanto a escrever "Euromaidã", trata-se de forma possível, de acordo com o modelo de Amã, adaptação da rom...