Carlos Rocha - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
Carlos Rocha
Carlos Rocha
1M

Licenciado em Estudos Portugueses pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, mestre em Linguística pela mesma faculdade e doutor em Linguística, na especialidade de Linguística Histórica, pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Professor do ensino secundário, coordenador executivo do Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, destacado para o efeito pelo Ministério da Educação português.

 
Textos publicados pelo autor

Pergunta:

Deparo-me que a palavra "súper" começa a aparecer com acento, mas que em algumas ocasiões não tem. Qual é a regra?

Sozinha, a palavra tem sempre acento?

Há alguma ocasião em que não tenha?

Quando aparece em palavra composta, nunca tem acento?

Gostaria da vossa ajuda, por favor. Obrigada

Resposta:

Quando se usa sozinha, a forma súper é nome e adquire acento gráfico: «Vou ao súper» (= supermercado).

Não exibe acento em compostos, mesmo quando separado por hífen: super-homem. Este preceito, que se aplica ao uso prefixal de super- e não foi alterado pelo Acordo Ortográfico de 1990,  encontra-se descrito no Tratado de Ortografia da Língua Portuguesa (1947, p. 151), de Rebelo Gonçalves:

«OBS. — Os prefixos hiper-, inter- e super-, quando ligados por hífen ao elemento imediato, dispensam, apesar de normalmente paroxítonos, o acento agudo na penúltima sílaba: hiper-hedonismo, inter-resistente, super-homem

Pergunta:

Como deve ser escrito o topônimo italiano Cagliari em língua portuguesa e qual seria o seu gentílico?

Pesquisando na Internet me apareceram as seguintes formas: "Cálari", "Cálhari" e "Cálher". Caso exista mais de uma forma correta, qual seria a mais usual?

Resposta:

Geralmente, o nome da capital da Sardenha mantém a forma italiana em português: Cagliari, Cagliari1.

É difícil achar uma forma portuguesa de Cagliari que possa ser considerada usual. Na verdade, este topónimo não é dos mais correntes na comunicação social em português, a não ser em páginas turísticas sobre a Sardenha ou quando se refere um clube de futebol, o Cagliari Calcio ou, simplesmente, Cagliari (cf. Corpus do Português, de Mark Davies).

Apesar disso, regista-se Cálher, que não se deteta atualmente e cuja configuração sugere empréstimo do castelhano Cáller, por sua vez, adaptação do catalão Càller. Cálari é outra possibilidade, de uso muito raro, que parece provir do latim Calăris, variante de Carălis. Conta-se ainda Cálhari, um aportuguesamento fonético e ortográfico do italiano Cagliari. Estas três formas ocorrem no artigo da Wikipédia sobre a cidade italiana em apreço, mas, como foi dito, ocorrem muito raramente.

Quanto ao adjetivo, sugere-se aqui transpor-se para português a forma italiana sem alterações: cagliaritano.

Fontes: Dictionnaire Gaffiot latin-français, 1934; Ivo Xavier Fernandes, Topónimos e Gentílicos, ...

Pergunta:

A pergunta é se há estudos sobre a hipótese de Sande e Sendim serem topónimos celtas?

Leigamente, parece haver indícios de serem parte do substrato. Estes são topónimos foneticamente próximos extremamente comuns nos territórios da Galécia, como Sande em Lamego, ou mesmo o vizinho de Sendim da Serra, Sendim da Ribeira. Um pouco mais a sul, encontramos Sinde em Tábua. Encontram-se desde as Beiras até ao extremo norte da península. Para Sande especificamente, é comum serem atribuídos à antroponímia (que não poderá vir ela mesma de toponímia)?

Num rápido estudo leigo; no celta insular galês, encontramos dinas para «cidade» e din para «castro» / «forte» (Pierre-Yves Lambert, La Langue gauloise). Sena é nome celta/túrdulo de Seia, mas sem sabermos significado original. Noto que no protocelta sindos seria «isto» – cf. https://en.wiktionary.org/wiki/Reconstruction:Proto-Celtic/sindos e https://en.wiktionary.org/wiki/san. Algo simploriamente, ficaria algo como "sindodin" ou "sandodin", «esta cidade».

Adicionalmente:

Diz-nos Pinho Leal, no seu Portugal Antigo e Moderno: Diccionario, «a todas as freguesias a que hoje se dá o nome de Sendim e Sindim se chamava antigamente Sandim».

presúrias autorizadas por reis e notáveis do reino alto-medieval galego-asturo-leonês. Esta é a hipótese mais provável que Piel defende e documenta solidamente e que Almeida Fernandes não parece contestar globalmente (pode é criticar no pormenor).

Quanto a Pinho Leal, sem rejeitar a importância da sua obra Portugal Antigo e Moderno, sobretudo pelo registo de lendas à volta da toponímia, é, no entanto, um autor ultrapassado pelo trabalho científico de Leite de Vasconcelos, Joaquim da Silveira, Ferraz de Carvalho, José Joaquim Loureo, entre outros investigadores, muitos deles com trabalhos publicados na Revista Lusitana e em O Instituto. Mais tarde, os trabalhos dos já mencionados Piel e de Almeida Fernandes, aos quais se junta Pedro Cunha Serra, são marcantes, sobretudo os do primeiro, no que toca a toponímia de origem germânica. Mais recentemente, para os estudos da toponímia mais arcaica, das épocas pré-romana e romana, destacam-se os trabalhos de Amílcar Guerra e de Jorge de Alarcão.

Quanto aos topónimos em questão, segue-se a cada uma breve atribuição etimológica:

– 

Pergunta:

As palavras cultura e solidário devem ser consideradas palavras complexas ou simples?

Resposta:

Cultura e solidário são palavras complexas.

A palavra cultura formou-se em latim, e, apesar de -ura ser sufixo ativo no português atual, é preciso considerar que, na língua portuguesa, cultura não se formou de culto, ao contrário de amargura, que se aceita como formado e derivado de amargo em português. Quanto a solidário, parece derivar de sólido, mas a verdade é que a palavra não preserva a ideia de sólido que tem em português, muito pela razão de ser adaptação do francês solidaire, vocábulo formado com elementos de origem latina (o francês é uma língua latina).

Não são estas palavras, portanto, os melhores exemplos para o estudo da diferença entre palavras simples e palavras complexas. Com efeito, é verdade que cultura se relaciona com culto e solidário, com sólido, mas tem de se dar atenção à história destas palavras.

Pergunta:

Apesar de estar no Priberam, tenho dúvidas se é correto usar este verbo em Portugal.

Podem confirmar?

Obrigada.

Resposta:

É um uso discutível, que deve ocorrer em contextos muito limitados, por exemplo, na linguagem da economia.

É a adaptação do inglês to productize (ou productise), que significa «transformar qualquer coisa em produto comercial».

Há quem traduza productize pela perífrase «transformar alguma coisa em produto»:

(i) «Just because you can invent something doesn't mean you should "productize"» = «Só porque você pode inventar alguma coisa, isso não significa que você deva transformá-la em um produto» (tradução brasileira; fonte: Reverso).