Carla Marques - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
Carla Marques
Carla Marques
32K

Doutorada em Língua Portuguesa (com uma dissertação na área do  estudo do texto argumentativo oral); investigadora do CELGA-ILTEC (grupo de trabalho "Discurso Académico e Práticas Discursivas"); autora de manuais escolares e de gramáticas escolares; formadora de professores; professora do ensino básico e secundário. Consultora permanente do Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, destacada para o efeito pelo Ministério da Educação português.

 
Textos publicados pela autora
<i>Saramago</i>
Nome de homem e de planta

O apelido do nobel português da Literatura, Saramago, dá matéria à crónica da professora Carla Marques, que explora a origem silvestre da palavra e os sentidos que Saramago lhe acrescentou, no programa Páginas de Português, da Antena 2, do dia 28 de novembro de 2021

Avião tem como palavras da sua família1: aviação, aviador, aviãozinho, aviatório, aviacionismo, avioneta, aviónica hidroavião.

 

1 Uma família de palavras é o «conjunto de vocábulos cognatos, ou formados por composição ou derivação, partindo de um radical ou de uma palavra primitiva» (Dicionário Terminológico).

Para vários autores, eclodir, «tornar-se visível subitamente; surgir» (Dicionário Hoauiss), é um verbo defetivo, que só se conjuga nas formas cujo acento tónico se coloca depois do radical (formas arrizotónicas; cf. Rebelo Gonçalves, Vocabulário da Língua Portuguesa, 1966). Nesta perspetiva, o verbo eclodir só terá, no presente do conjuntivo, as seguintes formas: eclodamos e eclodais. Contudo, noutras fontes, encontra-se este mesmo verbo completamente conjugado. É o caso do dicionário da Infopédia (Porto Editora) e do Dicionário Houaiss: ecloda, eclodas, ecloda, eclodamos, eclodais, eclodam.

Uma consulta do Corpus do Português (de Mark Davies) permite observar que as formas flexionadas mais frequentes são as da 3.ª pessoa do singular e do plural, recebam elas o acento tónico no radical (eclod-) ou na terminação: eclodiu (24 ocorrências), eclodem (17), eclode (12), eclodiram ( 10). Frequente é também o infinitivo eclodir (22). Sendo assim, a ideia de este verbo ser defetivo não terá tanto que ver com a colocação do acento, mas mais com as condições de ocorrência das referidas formas, que se associam a nomes que denotam eventos súbitos (guerra, revolução, revolta ou até ovo, em alusão à c...

O documento das Aprendizagens Essenciais (AE) para a disciplina de Português não apresenta os conceitos de conotação e denotação como conteúdos explícitos do domínio da gramática em nenhum dos anos de escolaridade. Não obstante, no 4.º ano de escolaridade, prevê a mobilização destes conceitos no âmbito da compreensão do oral, de acordo com a seguinte redação: «Distinguir entre factos e opiniões, informação implícita e explícita, essencial e acessório, denotação e conotação» (p. 6). Já no ensino secundário (AE para 10.º e 11.º anos) prevê-se como ação estratégica a «explicitação de valores semânticos das palavras, tendo em conta os seus contextos de ocorrência no plano diacrónico». Estas aprendizagens / ações estratégicas convocam direta ou indiretamente os conceitos de denotação e conotação. Refira-se ainda que o desenvolvimento das capacidades de leitura no sentido da identificação de sentidos figurados e contextuais é um domínio sempre presente ao longo dos diferentes anos de escolaridade no documento em apreço. Ora, neste âmbito, os conceitos de denotação e conotação poderão revelar-se úteis no sentido da exploração dos valores das palavras.

Pelo exposto, é natural que, ao longo do percurso de aprendizagem, os conceitos de denotação e conotação sejam mobilizados em diferentes domínios do estudo do português. Refira-se ainda que o Dicionário Terminológico, documento que apresenta o referencial terminológico a utilizar na disciplina de português em contexto não universitário inclui os termos em apreço no domínio da semântica lexical.   

Disponha sempre!

Ambas as construções são possíveis, embora possam veicular sentidos ligeiramente distintos.

De acordo com Celso Luft, a diferença entre «ir a» e «ir para» assenta no seguinte: «ir a um lugar traduz “a idéia de lá não se demorar, de não assentar lá a sua residência, ou de voltar breve” (Aulete); ir para um lugar, quando há ‘‘intuito de lá estabelecer residência ou de lá permanecer mais ou menos tempo” (id.)»1.

Não obstante, no Dicionário Houaiss, as duas construções surgem a par com os seguintes sentidos: «deslocar-se a um lugar sem o propósito de ficar ou de demorar-se no local de destino, ou fazê-lo exatamente com esse propósito». Este segundo registo parece apontar para o facto de os usos terem tendência a esbater a diferença entre o recurso às preposições a e para com o verbo ir.

Refira-se ainda que nas frases apresentadas a seleção da preposição também pode ficar a dever-se a razões fonéticas, uma vez que a opção pela preposição para oferece menores dificuldades articulatórias do que a sequência «aà praia». Assim, a economia articulatória também pode ditar a escolha do falante.

Disponha sempre!

 

1. Cf. Celso Luft, Dicionário prático de regência verbal. Ática , p. 342.