Carla Marques - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
Carla Marques
Carla Marques
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Doutorada em Língua Portuguesa (com uma dissertação na área do  estudo do texto argumentativo oral); investigadora do CELGA-ILTEC (grupo de trabalho "Discurso Académico e Práticas Discursivas"); autora de manuais escolares e de gramáticas escolares; formadora de professores; professora do ensino básico e secundário. Consultora permanente do Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, destacada para o efeito pelo Ministério da Educação português.

 
Textos publicados pela autora

Pergunta:

Qual a formulação correta: «dar o nome de x», ou «dar o nome x»?

Se, no caso do verbo chamar, é importação do Brasil a utilização da preposição de, será que na designação «dar o nome» se deve apor a preposição de, ou ela também está a mais?

Resposta:

A construção «dar o nome de» está prevista no dicionário1 como sendo equivalente a nomear, designar.

Para obtermos uma construção equilibrada, nome deve ligar-se ao constituinte que indica a designação adotada por meio da preposição de: «o nome de x»

Assim, na construção com o verbo suporte dar, usa-se a preposição de após nome: «dar a alguém/algo o nome de x».

Disponha sempre!

 

1. Foram consultados o Dicionário Houaiss e o Dicionário da Língua Portuguesa.

A grafia de <i>supramencionado</i>
Regras para o uso do hífen

A grafia da palavra supramencionado permite uma revisão de algumas regras do uso do hífen, segundo o Acordo Ortográfico de 90, pela professora Carla Marques.

(Apontamento divulgado no programa Páginas de Português, da Antena 2)

Pergunta:

É de conhecimento do Ciberdúvidas alguma doutrina que aponte a locução «logo que» como conjunção condicional?

Pergunto isso porque sempre vejo em manuais de gramática que a referida locução pertence às conjunções temporais.

Porém vi em um livro de português o seguinte exemplo no rol do exemplário condicional: «Irei, logo que me permitam.»

Obrigado.

Resposta:

Há, com efeito, alguns registos de usos da locução de base adverbial «logo que» com valor condicional.

Destacamos aqui a proposta da investigadora Ana Cristina Macário Lopes, que tem analisado de forma profunda o funcionamento e valor de diversas conjunções / conectores / marcadores discursivos no português. No seu artigo «Contributos para uma análise dos valores temporais e discursivos de 'logo'»1, analisa o funcionamento de logo em diferentes contextos e deixa uma nota a propósito de «logo que», que aqui se transcreve:

«Refira-se de passagem que no corpus em apreço surgem também algumas construções de subordinação em que o conector logo introduz uma oração cujo verbo se encontra no conjuntivo. Veja-se o exemplo «Logo que a mecânica esteja boa, […] isso vai-se arranjando» […] Nestes contextos, logo que comuta com desde que, no caso de, se. Ao interagir com o modo conjuntivo, a locução "logo que" activa uma leitura condicional.»

Em síntese, ocorrências da locução «logo que» com o verbo no modo conjuntivo podem gerar uma leitura de conexão de valor condicional.

Disponha sempre!

 

1. Ana Cristina Macário Lopes, «Contributos para uma análise dos valores temporais e discursivos de 'logo'». in Faria, I. H. (ed.) Lindley Cintra. Homenagem ao Homem, ao Mestre e ao Cidadão. Ed. Cosmos, 1999, pp. 433-443. 

Pergunta:

No verso «e quase que sobre ele ando dobrado» do poema «Julga-me toda a gente por perdido», de Camões, que recurso expressivo é utilizado?

Obrigada.

Resposta:

No verso em questão podemos identificar uma metáfora.

A metáfora é um recurso expressivo que «possibilita a expressão de sentimentos, emoções e ideias de modo imaginativo e inovador por meio de uma associação de semelhança implícita entre dois elementos.»1 A metáfora assenta, de forma clara, no conceito de transposição, segundo o qual um termo aponta para outro termo/conceito figurado.

Neste caso, a associação parte da construção «ando dobrado» por meio da qual o sujeito lírico remete, de forma quase visual, para a ideia de que conhece muito bem o mundo, uma ideia que completa o verso anterior do soneto («Mas eu, que tenho o mundo conhecido»), que já dava início a este tópico.

Disponha sempre!

 

1. Cf. E-dicionário de Termos Literários, de Carlos Ceia.

Pergunta:

Como se deve dizer: «até que era engraçado!», ou «até era engraçado!»?

Qual a função do que aqui?

Obrigada.

Resposta:

As duas construções são possíveis.

A diferença entre elas encontra-se no uso da partícula expletiva que, a qual desempenha a função de realce, tal como acontece nas frases abaixo:

(1) «Isto é que é vida!»

(2) «É que eu tenho de estudar.»

(3) «Olha que eu vou.»

Em construções desta natureza, a partícula que pode ser eliminada da frase sem alterar a sua gramaticalidade. Ela não desempenha uma função sintática, mas contribui para realçar elementos das frases, atribuindo-lhes ênfase.

Disponha sempre!