Carla Marques - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
Carla Marques
Carla Marques
10K

Doutorada em Língua Portuguesa (com uma dissertação na área do  estudo do texto argumentativo oral); investigadora do CELGA-ILTEC (grupo de trabalho "Discurso Académico e Práticas Discursivas"); autora de manuais escolares e de gramáticas escolares; formadora de professores; professora do ensino básico e secundário. Consultora permanente do Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, destacada para o efeito pelo Ministério da Educação português.

 
Textos publicados pela autora

Na frase apresentada pelo consulente, conforme é usado como uma preposição1 que marca uma relação semântica de correlação ou de correspondência2. Note-se que conforme pode ser usado como conjunção nas situações em que introduz uma oração subordinada adverbial conformativa:

(1) «Farei conforme tu me ordenaste.»

O constituinte «conforme a receita» tem a função sintática de complemento oblíquo ou de adjunto adverbial, comportando-se como um constituinte de natureza adverbial.

Disponha sempre.  

 

1. Raposo e Xavier consideram conforme uma preposição atípica, «que se afasta de algum modo do comportamento canónico dos restantes membros da classe» (Raposo et al., Gramática do Português. Fundação Calouste Gulbenkian, p. 1562). Bechara, por seu turno, considera que se trata de uma preposição acidental, pois integra o grupo de palavras «que, perdendo seu valor e emprego primitivos, passaram a funcionar como preposições» (Moderna Gramática Portuguesa. Ed. Nova Fronteira, p. 254).

2. Raposo et al., Ibidem.

Das linhas de trincheira ao olho do furacão
As metáforas da pandemia (I)

«A pandemia que se vive atualmente apresentou-se como um fenómeno ímpar e misterioso, o que fez dela um caminho fértil para o desenho de metáforas.» Tomando como ponto de partida este conceito, a professora Carla Marques explora um conjunto de metáforas do campo da guerra e das catástrofes naturais, que têm sido mobilizadas para falar da pandemia que se vive. 

A reforma ortográfica e os afetos
O lado humano da ortografia

Embora constitua um domínio técnico, a língua é fonte de afetos e a relação do homem com a sua língua pode ser entendida à luz desta realidade, como nos explicava Carla Marques num artigo de opinião  publicado no Correio da Educação, revista digital das Edições ASA, de 25 de novembro de 2011.

A frase imperativa só pode ser enunciada na forma ativa, o que se compreende pelo facto de este modo estar associado à expressão de uma ordem (que corresponde a um ato ilocutório diretivo). Acresce que «em contextos particulares pode[m], no entanto, ter significados aparentados com informações, instruções, convites, súplicas, etc., para os quais contribui também a prosódia da frase»1.

O imperativo pode surgir na afirmativa:

(1) «Come o bolo!»

ou na negativa, situações em que se fala de imperativo negativo:

(2) «Não comas o bolo!»

No caso do imperativo negativo, as formas usadas são as equivalentes do presente do conjuntivo2

O caso apresentado pelo consulente não é uma forma passiva, até porque o auxiliar da passiva é tipicamente o verbo ser e não o verbo ficar, mas, antes, uma construção composta por verbo acompanhado de predicativo do sujeito. Esta situação é semelhante a frases imperativas como:

(3) «Sê discreto!»

(4) «Continua calado!»

(5) «Fica em casa.»

Disponha sempre!

 

1. Oliveira in Mira Mateus et al., Gramática da Língua portuguesa. Caminho, pp. 254.255.

2. Cunha e Cintra,

A conjunção e é, do ponto de vista da pertença a uma classe gramatical, uma conjunção coordenativa copulativa. Quando coordena dois constituintes, esta conjunção atribui ao nexo criado um determinado valor. Esta é uma perspetiva semântico-pragmática que tem sido descrita por diferentes trabalhos na área da linguística e foi também tratada por diferentes gramáticos.  

A título de exemplo, Inês Duarte aborda esta questão no âmbito do tratamento dos processos de coesão interfrásica, enumerando vários valores da conexão assegurada por e: listagem enumerativa, listagem aditiva, confirmação, sequência temporal, contraste concessivo, contraste antitético, disjunção e inferência (cf. in Mira Mateus et al., Gramática da Língua Portuguesa. Caminho, pp. 97-98).  

Já Matos e Raposo apresentam os seguintes valores semânticos da coordenação copulativa: aditivo, adversativo, conclusivo, condicional e de sequencialidade temporal (cf. Gramática do Português. Fundação Calouste Gulbenkian, pp. 1787-1794).

Em síntese, e respondendo às questões colocadas, fica claro que os valores semânticos são considerados pelos gramáticos. Existem diversos valores que poderão ser identificados, como se confirma pelas propostas enunciadas atrás1.

Relativamente ao valor condicional, é um facto que as orações copulativas com a conjunção e podem expressar um valor de condição, como se exemplifica em (1):

(1) «Não trabalhas, e fico zangado!»