Carla Marques - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
Carla Marques
Carla Marques
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Doutorada em Língua Portuguesa (com uma dissertação na área do  estudo do texto argumentativo oral); investigadora do CELGA-ILTEC (grupo de trabalho "Discurso Académico e Práticas Discursivas"); autora de manuais escolares e de gramáticas escolares; formadora de professores; professora do ensino básico e secundário. Consultora permanente do Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, destacada para o efeito pelo Ministério da Educação português.

 
Textos publicados pela autora

Pergunta:

Na Internet leio muitas vezes que a regra de uso dos substantivos biformes e uniformes é simples:

Os substantivos biformes possuem uma forma para o masculino e outra para o feminino:

Ele é um menino muito educado/Ela é uma menina que canta bem.

Ele é um ator famoso/Ela é uma atriz fantástica.

Já os substantivos uniformes têm uma só forma para ambos os géneros:

Ele é um estudante da FLUL/Ela é uma estudante da FLUL.

O João é o nosso principal cliente/A Joana é a nossa principal cliente.

Porém, já há muito tempo que reparei que nem sempre tal é o caso. Talvez esteja enganado, mas parece-me que com alguns substantivos biformes que possam ser referência tal como ao sexo masculino quer ao feminino, pode-se usar a forma masculina para representar ambos. Não sei bem porquê, mas as seguintes frases não soam tão estranho. Aliás, até me parece ser mais sofisticado que se usasse a regra acima descrita:

Ela é um deputado do Partido Socialista.

A Joana continua a ser um dos melhores alunos da nossa escola.

A minha mãe foi sempre um cidadão exemplar para a nossa sociedade.

A Paula Mendes exercerá temporariamente as funções de diretor da escola.

Quando crescer, ela diz que gostaria de ser um professor na escola onde estuda agora.

Marta Braga foi o último ministro da saúde competente que Portugal teve.

Resposta:

A maioria das frases apresentadas têm uma justificação gramatical que analisaremos de seguida.

As construções apresentadas caracterizam-se por serem frases copulativas nas quais o predicativo do sujeito é um nome.

Nas frases copulativas que têm como predicativo do sujeito um adjetivo, normalmente tem lugar concordância entre o predicativo e o sujeito:

(1) «A Maria é simpática.»

(2) «A Rita é esperta.»

No entanto, nas construções que têm um nome como predicativo do sujeito, essa concordância não é considerada obrigatória. Neste âmbito, poderemos perspetivar duas situações, ambas entendidas como tendências gramaticais e não como regras normativas. Seguimos aqui a análise proposta na Gramática do Português1:

(i) «Quando o nome predicativo é um classificador ou um nome que define o tipo de entidade a que pertence o referente do sujeito – entre os quais se incluem os nomes que denotam uma profissão, um cargo, uma relação pessoal ou de família – existe uma forte tendência para se concordar o sujeito com o nome predicativo, sobretudo quando este tem duas versões em género bem estabelecidas»2;

(ii) «sobretudo como nomes de profissões ou de ocupações, a concordância não é de forma alguma obrigatória»3.

Assim sendo, fica clara a oscilação verificada sobretudo com os nomes de profissões ou ocupações, o que poderá justificar o uso do masculino no predicativo nas seguintes frases apresentadas pelo consulente:

(3) «Ela é um deputado do Partido Socialista.»

(4) «A Joana continua a ser um dos melhores alunos da nossa escola.»

(5) «A Paula Mendes exerc...

Pergunta:

Em computação existem os deterministic finite automata, que costumam ser traduzidos como «autómatos finitos deterministas» ou como «autómatos finitos determinísticos». Pesquisando as expressões no Google, a primeira expressão aparece em 612 resultados e a segunda em 2770, mas se restringir a sites .pt, então tenho a primeira com 141 resultados e a segunda com 102.

Nas minhas aulas comecei por adoptar a primeira forma (determinista) ao invés da segunda, que foi a que aprendi enquanto aluno, por ser aquela a forma que o livro que existia em português adotava. De forma resumida, um autómato é determinista/determinístico se, para um determinado par (estado, símbolo), transita, no máximo, para um único estado. Será não determinista ou não determinístico se puder transitar para mais do que um estado.

Assim, perante todos estes dados, a pergunta será qual a forma mais correta?

Obrigado.

P.S. Vi esta explicação – "Determinista e determinístico" –, mas continuei com dúvidas, dado que aqui o contexto é diferente.

Resposta:

Ambos os adjetivos poderão ser usados no contexto pretendido.

Com efeito, de acordo com o Dicionário Houaiss, tanto determinista como determinístico, quando adjetivos, são usados com o sentido de «relativo ao determinismo». Por esta razão, não poderemos considerar que exista uma forma mais correta do que outra. Poderemos apenas acrescentar que determinístico é usado apenas como adjetivo. Já determinista pode também ser usado como nome com o sentido de «que ou quem é partidário ou adepto do determinismo». Trata-se de uma significação que se associa à conceção do determinismo enquanto corrente filosófica. Numa análise muito fina, poderíamos afirmar que determinístico não ativa este sentido ligado a um conjunto de princípios, pelo que poderá ser sentido como uma forma mais objetiva de designar os referidos autómatos finitos.

No entanto, apesar do que ficou dito, a pesquisa feita aos usos das palavras mostra que se verifica uma oscilação na escolha dos falantes, que aponta para a aceitabilidade de ambas as formas.

Disponha sempre!

Pergunta:

Quero remontar ao ano de 2012, quando foi respondida a dúvida de Daniel Dimas Pelição, em 12 de março.

A questão tratava especificamente de predicativo do sujeito, mas, ao examinar a nota da consultora Eunice Marta, ao final da resposta, ficou-me uma dúvida quanto à concordância verbal e a classificação sintática de sujeito/predicado, quando se inverte a posição dos termos na frase.

Se não, vejamos:

«Amigos é o que não lhe falta» – sujeito: «amigos»; verbo no singular.

«O que não lhe falta são amigos» – sujeito (?): «o que não lhe falta»; verbo no plural.

Pergunto: alterando-se a ordem dos termos, alteram-se-lhes as funções sintáticas, ou seja, o que era sujeito torna-se predicativo, e vice-versa? E assim também a concordância verbal?

Obrigado.

Resposta:

Comecemos por recordar que a posição dos constituintes numa frase copulativa identificadora1 pode ser canónica (sujeito + verbo ser + predicativo) ou inversa (predicativo + verbo ser + sujeito), pelo que a colocação de um constituinte na frase não é sinal de função.

Se atentarmos na frase em análise, verificamos que se trata de uma construção clivada, ou seja, uma construção que permite colocar em destaque um elemento da frase. A frase (1) é, portanto, uma construção clivada equivalente à frase simples (2):

(1) «O que não lhe falta são amigos.»

(2) «Amigos não lhe faltam.»

Na frase (1), o constituinte clivado é o sujeito da frase original, o constituinte «amigos».

Em construções clivadas como a que se apresenta em (1), considera-se que a oração relativa ocupa a posição de sujeito. Assim, o constituinte «o que não lhe falta» é o sujeito da frase, enquanto «amigos» desempenha a função de predicativo do sujeito. Tal como ficou dito no parágrafo inicial, esta frase admite duas ordens, a canónica, na qual se considera que estamos perante uma construção pseudoclivada e que corresponde à frase (1), ou a inversa, que corresponde à construção pseudoclivada invertida2, presente na frase (3):

(3) «Amigos são o que não lhe falta.»

Relativamente, por fim, à questão da concordância, tal como afirmam Martins e Lobo, «quando o constituinte clivado é o sujeito, o verbo ser concorda em pessoa e número com esse constituinte»3. As autoras ilustram este fenómeno com exemplos como os seguintes:

(4) «Quem partiu o vaso foram os rapazes.»

(5) «Quem partiu o vaso foste tu.»

Não obstante, sobretudo no caso da frase (3), muitos falantes aceitam a oscilação entre o singular e o plural,...

Pergunta:

Estou a fazer uma tradução e, com base na máxima «com ferro se mata, com ferro se morre», surgiu-me a seguinte dúvida: posso dizer «matou uma a ferro e outra à fome», ou terei mesmo de dizer «matou uma com o ferro e outra à fome»?

Matar pede a preposição a apenas em frases como «matou à fome», «matou à pancada», «matou à paulada», ou pode ser extensível a outros casos que não encontro na net nem em livros?

Reconhecido pela atenção dispensada, despeço-me com respeitosos cumprimentos.

Resposta:

De acordo com o Dicionário Houaiss,  o verbo matar usa-se como intransitivo (1) ou como transitivo direto (2):

(1) «A fome mata.»

(2) «Ele matou os inimigos.»

Por essa razão também em frases como (3), o constituinte «com ferros» é um modificador do verbo, não sendo a preposição com regida/pedida pelo verbo matar:

(3) «Os homens mataram com ferros.»

Podemos igualmente identificar frases nas quais o modificador do verbo matar é introduzido pela preposição de:

(4) «O trabalho matava-os de tédio.»

Assim, no provérbio «Quem com ferros mata com ferros morre», o constituinte «com ferros» desempenho igualmente a função de modificador, não sendo a preposição com pedida pelo verbo. 

Para além destas construções, podemos também assinalar algumas expressões fixas nas quais o verbo matar é acompanhado por um constituinte introduzido pela preposição a:

(5) «matar à fome»

(6) «matar à paulada/à pancada»

Nas frases (5) e (6) também, não estamos perante um caso de regência. Aqui estamos perante frases feitas, de natureza idiomática, que têm um uso fixo.

Perante o que ficou exposto, é preferível manter a estrutura sintática associada no provérbio e dizer /escrever «matou com ferro» e no outro caso «matar à fome».

Disponha sempre!

Pergunta:

O adjetivo esbulhado pode selecionar a preposição com, reger a preposição com?

«Sentiu-se esbulhado com o que houve.»

E nesta frase:

«O Imperador viu-se esbulhado de reinar com este ato.»

Nesse caso, a preposição com refere-se a que constituinte frasal? Não será igualmente regida por esbulhado como se dá à preposição de?

Muito obrigado ao vosso excelente trabalho!

Resposta:

O adjetivo esbulhado forma-se a partir do verbo esbulhar, pelo que recupera a sintaxe deste verbo.

Esbulhar pode construir-se como verbo transitivo direto e indireto: «esbulhar alguma coisa a alguém», usado com o sentido de «tirar a posse de algum a coisa; privar; espoliar (i. é, privar por fraude ou violência)»1, como em (1):

(1) «Ele esbulhou os proprietários dos seus terrenos.»

Com o sentido de “roubar”, também pode ser usado como verbo transitivo direto (e indireto), como em (2) e (3):

(2) «Ele esbulhou os familiares.»

(3) «Ele esbulhou os terrenos aos proprietários.»

Estas construções permitem usos como:

(4) «Os proprietários viram-se esbulhados dos seus terrenos (por ele).»

(5) «Os familiares sentiram-se esbulhados (por ele).»

Por esta razão, qualquer das frases apresentadas pelo consulente pode ser considerada correta. Percebe-se ainda que o adjetivo esbulhado não rege nas frases apresentadas a preposição com. Na frase transcrita em (6), esbulhado rege a preposição de:

(6) «O Imperador viu-se esbulhado de reinar com este ato.»

O constituinte «com este ato» não está dependente do adjetivo esbulhado, pois relaciona-se antes com o verbo ver. A comprová-lo está a possibilidade de o constituinte pode ser colocado em início de frase, o que não é possível com o complemento de adjetivo («de reinar», neste caso):

(7) «Com este ato, o Imperador viu-se esbulhado de reinar.»

(8) «*De reinar, o Imperador viu-se esbulhado com este ato.»