Carla Marques - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
Carla Marques
Carla Marques
6K

Doutorada em Língua Portuguesa (com uma dissertação na área do  estudo do texto argumentativo oral); investigadora do CELGA-ILTEC (grupo de trabalho "Discurso Académico e Práticas Discursivas"); autora de manuais escolares e de gramáticas escolares; formadora de professores; professora do ensino básico e secundário. Consultora permanente do Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, destacada para o efeito pelo Ministério da Educação português.

 
Textos publicados pela autora

O verbo desunhar correntemente usado com pronome reflexo, desunhar-se1 («fazer grande esforço para executar um tarefa difícil») – deriva por sufixação de unhar.

Note-se, porém, que, em Portugal, o verbo unhar parece usar-se pouco, o que pode sugerir que desunhar é formado por parassíntese, isto é, que são simultâneas a prefixação de des- e a sufixação de -ar. Não é de facto o que acontece, porque se trata de um verbo derivado por prefixação. De qualquer forma, importa sublinhar que, no contexto do estudo da gramática em Portugal, nos ensinos básico e secundário, trata-se de um caso de análise menos consensual, que só muito pontualmente será explorado.

 

1 Ao verbo desunhar associam-se várias aceções: «arrancar as unhas», «fazer rachar os cascos dos equídeos devido a percorrerem longas distâncias», «desprender do fundo a unha de uma âncora» (ver dicionário da Academia das Ciências de Lisboa). Conjugado pronominalmente, desunhar-se pode significar «empenhar-se por atingir um objetivo», «trabalhar com rapidez», «agir sofregamente» e «fugir» (cf. idem, ibidem; ver também o Dicionário Houaiss).

O constituinte «para a céu» desempenha, na frase apresentada, a função sintática de modificador do grupo verbal.

De acordo com o Dicionário Houaiss, o verbo erguer é transitivo direto ou pronominal. No caso particular da expressão «erguer os olhos», com o sentido de “voltar para cima o olhar”, o verbo tem uma construção transitiva direta. Deste modo, o grupo preposicional «para o céu» não é um argumento do verbo, ou seja, não é pedido por este para completar o seu sentido, pelo que pode ser omitido da frase sem comprometer a semântica do verbo ou a gramaticalidade da frase. 

Desempenha, portanto, a função de modificador do grupo verbal.

Disponha sempre!

A frase apresentada inclui três orações:

(1) «A Internet é, a meu ver, uma fada»

(2) «que, com um clic, nos faz»

(3) «girar pelo vasto mundo»

As orações «que, com um clique, nos faz girar pelo vasto mundo» incluem o verbo fazer, um verbo causativo1 que pode ser construído com uma oração subordinada completiva de infinitivo, que denota a situação causada. Por essa razão, na frase em análise, fazer é um verbo principal transitivo direto e girar um verbo principal intransitivo, funcionando, cada um, no interior da sua oração.

Sem outro contexto, que poderia determinar uma interpretação distinta das frases apresentadas, procuraremos indicar algumas diferenças basilares entre os usos dois tempos verbais, pretérito imperfeito do indicativo e pretérito perfeito do indicativo, em frases simples.

O pretérito perfeito do indicativo é um tempo usado sobretudo para localizar a situação descrita pelo verbo no passado, ou seja, num tempo anterior ao momento da fala. Para além desta localização temporal, o pretérito perfeito apresenta a situação como concluída, terminada. Assim, a frase (1)

(1) «Tu nunca tiveste fome.»

pode ser interpretada como afirmando que, num momento passado, o interlocutor não teve em nenhuma ocasião fome, sendo a situação descrita como concluída, pelo que se poderia acrescentar à frase o sintagma «até ao momento».

O pretérito imperfeito do indicativo é normalmente um tempo que se associa a uma referência temporal ou a uma outra oração. Sendo utilizado de forma independente, o imperfeito pode traduzir um valor habitual, ou seja, descrever uma dada situação como repetida num momento anterior ao da enunciação. Assim, a frase (2)

(2) «Tu nunca tinhas fome.»

pode estar associada à descrição do tu como sendo alguém que, no passado, nunca viveu a situação de ter fome, o que se repetiu em diversas ocasiões.

Deste modo, a frase (1) perspetiva a situação como um todo já concluído e localizado no passado. A frase (2) perspetiva a situação como um conjunto de situações que se repetiram de igual forma num tempo passado.  

Relativamente à diferença entre estes dois tempos, ver também «

A citação apresentada pela consulente pertence ao Sermão de Santo António, de Padre António Vieira.

Neste excerto, o autor faz uso de uma enumeração, através da qual apresenta os bens nos quais os homens do Maranhão não gastam o seu dinheiro (preferindo endividar-se comprando os retalhos de pano que vestem). A enumeração consiste na apresentação de um inventário de coisas relacionadas entre si1. Neste caso, o autor enumera todos os bens nos quais os homens poderiam gastar o seu dinheiro, para, por contraste, mostrar como o dinheiro é desperdiçado nos panos que por vaidade compram.

Não se trata de uma gradação, uma vez que este recurso expressivo, que é um tipo específico de enumeração, se caracteriza por apresentar uma série de elementos numa ordem ascendente ou descente, o que neste caso não se verifica2. Podemos assinalar um uso de gradação no mesmo texto de Padre António Vieira, quando, no capítulo 5, se faz a descrição do polvo:

(1) «[…] um monstro tão dissimulado, tão fingido, tão astuto, tão enganoso e tão conhecidamente traidor!»

Disponha sempre!

 

1. Cf. E-dicionário de Ter...