Carla Marques - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Carla Marques
Carla Marques
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Doutorada em Língua Portuguesa (com uma dissertação na área do  estudo do texto argumentativo oral); investigadora do CELGA-ILTEC (grupo de trabalho "Discurso Académico e Práticas Discursivas"); autora de manuais escolares e de gramáticas escolares; formadora de professores; professora do ensino básico e secundário. Consultora permanente do Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, destacada para o efeito pelo Ministério da Educação português.

 
Textos publicados pela autora

Nos casos em apreço, o verbo fazer é usado como transitivo-predicativo, ou seja, um verbo que seleciona um complemento direto e um predicativo do complemento direto, como se observa em (1):

(1) «O presidente fez o João diretor de secção.» («o João» – complemento direto; «diretor de secção» – predicativo do complemento direto)

Assim, nas frases apresentadas, os constituintes «de bobo» e «linda» desempenham ambos a função sintática de predicativo do complemento direto. Refira-se ainda que o verbo fazer também pode funcionar

(i) como verbo transitivo: «Eu faço os trabalhos de casa.»

(ii) como verbo leve1 ou de suporte: «Ele fez um juramento.» (= «Ele jurou.»)

Disponha sempre!

 

1. A noção de verbo leve pode ser consultada aqui.

 Existe, de facto, uma proximidade semântica entre coordenadas conclusivas e subordinadas consecutivas e, por vezes, a distinção entre ambas é difícil de determinar. De modo a procurarmos caracterizar claramente os aspetos basilares das duas realidades, vamos considerar apenas casos prototípicos que permitam identificar traços distintivos.

Sobre as orações subordinadas consecutivas1:

(i)  expressam uma consequência associada a um grau, sendo que o seu objetivo comunicativo se centra na quantificação a que se associa uma consequência/efeito, ou seja, a consequência/efeito expressa na oração subordinada visa marcar a quantificação expressa na subordinante:

(1) «Ele trabalhou tanto que já concluiu o projeto.» (A quantidade de trabalho é sublinhada pelo facto o projeto já estar concluído)

(ii) são tipicamente introduzidas por um operador consecutivo como tão, tanto, tamanho, de tal forma, de tal modo:

A frase apresentada é composta pelas seguintes orações:

− «Havia belas árvores simétricas, de troncos eretos como os das palmeiras»: oração subordinante;

− «que a um exame mais atento se via»: oração subordinada adjetiva relativa com valor explicativo;

− «serem simples groselheiras1»: oração subordinada substantiva infinitiva.

A palavra que é um pronome relativo que introduz a oração relativa e que tem como antecedente o grupo nominal «belas árvores simétricas, de troncos eretos como os das palmeiras». Do ponto de vista da semântica da frase, que tem o papel temático de sujeito de serem, numa construção com o sentido de:

 A identificação da classe a que pertence a locução «graças a Deus» está dependente da intenção do falante, que a pode utilizar quer como locução adverbial quer como locução interjetiva. Note-se, em resposta a uma das dúvidas do consulente, que a indicação de que uma palavra / expressão é uma locução adverbial ou, noutros casos, uma locução interjetiva é uma classificação que visa indicar a classe e a subclasse de pertença. A expressão «graças a Deus», por um lado, é uma locução adverbial com um sentido equivalente a felizmente (cf., por exemplo, Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea). De acordo com esta interpretação, na frase apresentada, a expressão «graças e Deus» desempenha a função sintática de modificador de frase, a mesma função sintática que desempenharia felizmente, se tivesse sido selecionado em lugar da locução:

(1) «Graças a Deus / Felizmente, estou vivo.»

Trata-se de um modificador de frase, pois é um constituinte não selecionado por nenhum elemento da frase e que incide sobre toda a frase, expressando, neste caso, a opinião do locutor sobre o conteúdo da frase («estou vivo»). Como afirma Paiva Raposo, estes advérbios «exprimem um juízo do falante sobre o conteúdo proposicional do resto da frase ou sobre as circunstâncias da sua produção» (Gramática do Português.Fundação Calouste Gulbenkian, p. 1603).

Por outro lado, «graças a Deus» pode ser uma locução interjetiva se corresponder não à opinião do locutor sobre o conteúdo da frase, mas à emoção que este pretende traduzir. Nas palavras...

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Sobre os verbos gastos

Embora os falantes tenham à sua disposição muitas palavras, estes optam frequentemente pelas mesmas palavras, que lhes permitem dizer muito com muito pouco. É o caso do verbo fazer.