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Subterfúgios da nominalização

«(...) As nominalizações são muito usadas no discurso formal – discurso científico, técnico, judicial, etc. – , onde é necessário elaborar abstrações e ser sintético. (...)»

 

Toda a gente sabe que há várias formas de dizer a mesma coisa. Formas mais simples e formas mais complexas, elaboradas ou formais.

Por exemplo, posso dizer:

Os espanhóis dominaram Portugal entre 1580 e 1640.

Ou posso dizer:

Portugal esteve sob o domínio espanhol de 1580 a 1640.

O facto histórico é o mesmo numa e noutra frase, mas na primeira frase temos alguém que faz alguma coisa – os espanhóis - e na segunda frase esse alguém desapareceu e passou a ser referido através de um adjetivo mais ou menos inócuo.

Outro exemplo. Posso dizer:

A indústria e os automóveis emitem gases para a atmosfera e isso é nefasto para o ambiente.

Ou posso dizer:

A emissão de gases para a atmosfera é nefasta para o ambiente.

A situação reportada é a mesma numa e noutra frase. O que é que mudou? O agente desapareceu. Como? Transformei o verbo emitem num nome, emissão. Tal como na frase dos espanhóis, em vez de usar dominaram usei domínio. Chama-se a isto nominalizações, que é, basicamente, recorrer a um nome em vez de usar o verbo ou adjetivo que lhe dá origem. Em vez de construir digo construção; em vez de arquivar digo arquivamento, em vez de brusco digo brusquidão, etc.

As nominalizações são muito usadas no discurso formal – discurso científico, técnico, judicial, etc. – , onde é necessário elaborar abstrações e ser sintético.

Só que, as nominalizações ao transformarem o processo (verbo) numa coisa (nome), sugam as pessoas para fora da frase.  O que, por vezes, dá muito jeito. Não admira por isso, que de cada vez que ligamos os telejornais, frase sim frase não, damos com uma nominalização
Por exemplo, as expressões «lavagem de dinheiro»; «branqueamento de capitais»: quem lava? Quem branqueia? O agente evaporou-se.
A mesma coisa quando se anuncia o combate à corrupção. Quem combate? Quem corrompe? Quem é corrompido?

Uma frase sem nominalizações seria, por exemplo:  O ministério público estará munido dos meios X, Y Z para combater políticos e dirigentes corruptos.

É a isto que o povo chama não ter papas na língua. As papas aqui são as nominalizações.

Fonte

Texto da autora lido na rubrica "Cronigramas" do programa Páginas de Português, emitido no dia 20 de janeiro de 2019.

Sobre a autora

Mestra e doutora em Linguística Portuguesa, desenvolveu projeto de pós-doutoramento em aquisição de L2 dedicado ao estudo de processos de retextualização para fins de produção de materiais de ensino em PL2 – tais como  A Textualização da Viagem: Relato vs. Enunciação, Uma Abordagem Enunciativa (2010), Gramática Aplicada - Língua Portuguesa – 3.º Ciclo do Ensino Básico (2011) e de versões adaptadas de clássicos da literatura portuguesa para aprendentes de Português-Língua Estrangeira.Também é autora de adaptações de obras literárias portuguesas para estrangeiros: Amor de Perdição, PeregrinaçãoA Cidade e as SerrasContos com Nível é o seu último livro. Consultora do Ciberdúvidas da Língua Portuguesa e responsável da Ciberescola da Língua Portuguesa