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Remontada e espanholismos do futebol

A propósito de uma vitória do Sporting

O francês, no século XIX, e o inglês com crescente intensidade sobretudo a partir do século XX, são as línguas que mais pressão têm exercido na história dos últimos dois séculos da língua portuguesa. Contudo, muita gente esquece o impacto do castelhano ou espanhol que se fez sentir sobretudo nos séculos XVI e XVII. Esta influência, que se dissimula em palavras como cavalheiro, quadrilha ou cabisbaixo, foi explorada pelo escritor e linguista Fernando Venâncio (1944-2025), que, ao assunto, dedicou estudos e várias páginas do seu famoso livro Assim Nasceu uma Língua (2019), nos quais revelou como o castelhano (ou espanhol) foi língua de prestígio em Portugal, ao ponto de ter funcionado como veículo de numerosos latinismos.

Dir-se-ia, não obstante, que os castelhanismos foram perdendo força e presença no léxico do português e que hoje poucos empréstimos vêm de Espanha ou de qualquer outro país da chamada hispanidade. Descobre-se, mesmo assim, uma área de atividade cujo discurso tem absorvido e posto a circular vocábulos com essa origem: o futebol.

Em 17/03/2026, a surpreendente e retumbante vitória do Sporting sobre o Bodø/Glimt, por 5-0, permitindo a apuração do clube português  para os "quartos" da Liga dos Campeões, chamou também a atenção por causa do uso recorrente do nome remontada, com o significado de «superação de um resultado ou de uma posição adversos» (tradução literal da definição da entrada remontada do Dicionário da Real Academia de Espanha)1. Na lexicografia do português, o termo poderia parecer desconhecido, não fora o registo no Priberam: «Recuperação de um estado ou resultado desfavorável, em geral em relação a um evento desportivo». Nas redes sociais, houve quem observasse (bem) que o significado do empréstimo remontada pode bem ser expresso por bem por termos vernáculos como reviravolta, viravolta, cambalhota ou virada. Mas o gosto pelo castelhanismo foi mais longe, levando a que o extraordinário acontecimento, o resultado 5-0, fosse também referido por manita, ou seja, «mãozinha», com o significado de «vitória por cinco golos» (cf. Wiktionary).

Seja como for, é plausível que este caso se junte a muitos outros castelhanismos que, com maior ou menor fortuna, encontram algum lugar no discurso sobre futebol, situação que terá muito a ver com a presença de jogadores de Espanha e da América do Sul, para não falar da importância do campeonato espanhol. Assim se explicará a atestação, no discurso desportivo em português, de palavra e expressões como «muitas ganas», «a afición», «a cantera» (entratento, em desuso, preterida por academia) ou «ter a ilusão» (cf. "Com muita ilusão, por supuesto").

Os empréstimos do espanhol não são, afinal, um fenómeno apenas do passado. Basta existir uma área da atualidade com certa dinâmica, que encontre especial projeção mediática noutra língua, e produzem-se situações em que é difícil escapar ao contacto linguístico e ao empréstimo. No caso da adoção de novas palavras provindas do espanhol, trata-se de reatar um gosto bastante antigo, a que nem Camões resistiu.

1 Agradece-se ao consultor Paulo J. S. Barata a chamada de atenção para este uso e as observações que partilhou sobre este assunto, bem como os exemplos aqui incluídos no segujndo parágrafo.

ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-Instituto Universitário de LisboaISCTE-Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa