Quem inventou o nosso alfabeto? - O nosso idioma - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
Início Português na 1.ª pessoa O nosso idioma Artigo
Quem inventou o nosso alfabeto?
Quem inventou o nosso alfabeto?
As origens das letras com que escrevemos o português

«(...) Ninguém inventou as nossas letras, mas muitos dos que as usaram ao longo dos milénios afinaram-nas gradualmente. Assim, recebemos dessa cadeia de escribas e tipógrafos a extraordinária tecnologia que é a escrita

 

Todos dizemos que o nosso alfabeto é o latino. No entanto, as letras romanas não foram inventadas do nada — e um romano que acordasse nos dias de hoje ficaria surpreendido com muitos dos nossos símbolos, a começar pela cedilha, passando pelo til, terminando em letras como o J. Façamos uma viagem pela história do nosso alfabeto.

1.   A invenção da escrita

Ninguém acordou um lindo dia e inventou a escrita. O que aconteceu terá sido algo mais parecido com esta história…

Um contabilista sumério começa a usar um pequeno desenho de um cavalo para assinalar logo a seguir o número de cavalos que estavam nos estábulos do seu patrão.

Anos depois, lembra-se de apontar as várias localizações dos cavalos nos estábulos do patrão.

Passam gerações. Um outro escriba decide usar o mesmo símbolo para representar o nome de uma terra que tinha os mesmos sons (ou aproximados) da palavra para «cavalo».

Agora, o desenho já não representava um cavalo, mas o som da palavra cavalo naquela língua em particular.

Com o tempo, os escribas começaram a adaptar os símbolos que foram criando pelos séculos fora para escrever frases inteiras, como «Abgal comprou cinco cavalos a Sham.» – com uma ou outra adaptação, os símbolos usados para os animais e produtos agrícolas começaram a ser usados para representar nomes próprios, verbos, preposições…

Em suma: o grande truque – um truque descoberto lentamente, ao longo de gerações – foi a ligação entre a língua usada da boca para fora e os símbolos na pedra, na argila, no tecido… Passámos a criar frases com a magnífica máquina que temos na cabeça – a linguagem humana, concretizada numa das muitas línguas — mas agora de maneira um pouco mais permanente. O material em que escrevíamos era argila – e, assim, as formas dos símbolos reflectem os instrumentos com que marcávamos a argila. Estamos perante a escrita cuneiforme, ou seja, em forma de cunha.

As invenções – mesmo estas invenções graduais – são filhas da necessidade. Com a invenção da agricultura e das cidades, tornou-se necessário contar animais, fazer contas, organizar a administração de um Estado. Ora, depressa se percebeu que, com a escrita, podíamos gravar na pedra as histórias e a História, mais ou menos inventadas, dos reinos e dos povos – tornando tais histórias e tal História bem mais duráveis e poderosas.

A escrita terá sido inventada na Suméria, pois então – foi essa a origem de todos os sistemas de escrita ou apenas uma de muitas invenções independentes desta tecnologia utilíssima? Não sabemos bem – a história da escrita também se faz de zonas obscuras. Por exemplo: não é certo que os hieróglifos egípcios tenham relação directa com a escrita cuneiforme da Suméria. O que sabemos é que os hieróglifos são um sistema de escrita avançado, completo, pensado para uma língua em particular – o egípcio1.

Os egípcios gravavam os famosos hieróglifos na pedra, mas, com o tempo, surgiu uma escrita mais rápida, para escrever em tudo o que não fosse pedra, chamada demótico 2. O demótico é já uma simplificação da escrita hieroglífica, um passo em direcção à limitação do número de símbolos que deu origem aos alfabetos.

2.   A invenção das letras

Se a invenção da escrita foi um golpe de génio (ou melhor, uma genial evolução gradual), os primeiros sistemas eram bastante difíceis de aprender e usar. Para representar todas as palavras da língua, eram necessários milhares e milhares de símbolos. Vista da perspectiva do futuro, a solução parece simples: escolhemos um número limitado de símbolos e combinamo-los para criar palavras3. Estamos perante a invenção das letras, ou seja, de um sistema de escrita combinatório.

Este sistema melhorado surgiu entre o Egipto e a área que hoje é a Síria e o Líbano – a origem remota terá sido o Demótico egípcio. Ora, como este teve origem nos hieróglifos, podemos bem dizer que escrevemos símbolos que descendem remotamente da escrita dos faraós.

É difícil desemaranhar o caminho percorrido por estes primeiros conjuntos de letras, mas o certo é que por volta do ano 1000 a. C., já existiam as letras fenícias – que se espalharam por todo o Mediterrâneo e chegaram mesmo às costas do Atlântico, como prova uma inscrição encontrada em Lisboa em 20144.

Os Fenícios, um povo com tendência para a navegação e para o comércio, não nos deixaram muitos registos. Os Egípcios e os Gregos foram bem mais prolixos a escrever a sua História e as suas histórias. Talvez tenha havido um Camões fenício a cantar a ocidental praia libanesa (perdoe-se-me o anacronismo da referência ao Líbano, mas convém indicar onde ficava a tal Fenícia) — mas o certo é que esse Camões não deixou vestígio.

Os Fenícios navegavam, compravam, vendiam e escreviam – práticos como eram, usavam um sistema de apenas 22 símbolos. Com 22 letrinhas apenas se escreviam as palavras fenícias. É este é o alfabeto fenício:

Muitas das nossas letras já ali estão a dar os primeiros passos. O A está ali, no início, virado de lado, o M aparece com uma perna alongada… Encontramos ainda o K, o Q entre muitas outras das nossas letras.

Note-se que o pequeno touro que veio a dar origem ao nosso A não representava uma vogal, mas sim uma consoante. O sistema fenício não representava vogais, apenas consoantes5. É por isso que, de forma estrita, há quem prefira não usar o termo alfabeto no caso da escrita fenícia. No dia-a-dia, usamos a palavra alfabeto para este conjunto de letras, mas um alfabeto completo, no sentido que hoje lhe damos, implica o uso de vogais.

É estranho não haver vogais? Talvez: mas é uma questão de hábito. Por exemplo, se disser que estou a falar dum cargo político português e escrever «PRSDNT D RPBLC», julgo que é fácil perceber de que cargo falo. As vogais facilitam? Sim: mas também demoram tempo a gravar na pedra…

3.   A invenção das vogais

As letras fenícias foram usadas durante mais de 1000 anos – e deram origem a muitos dos sistemas de escrita actuais. Desde as letras árabes às letras latinas, passando pelas gregas e pelas hebraicas, a invenção fenícia deu esplendorosos frutos.

Digo «invenção fenícia». Também aqui não houve nenhuma invenção espontânea. Os símbolos anteriores foram sendo adaptados, até chegarmos aos 22 símbolos conhecidos, que também não ficariam propriamente parados.

Os Gregos pegaram nestes símbolos para escrever a sua língua. Esta passagem não se fez sem sobressaltos – e o maior sobressalto de todos foi a necessidade que os nossos amigos Gregos tiveram de representar as vogais.

Não que alguém se tenha sentado um dia a inventar vogais. Terá sido uma invenção muito gradual. Os Fenícios, por exemplo, usavam um símbolo vagamente parecido com uma cabeça de touro para assinalar aquilo a que podemos chamar uma oclusiva glotal – trata-se de uma interrupção do fluxo sonoro que se faz na glote, um som que não usamos em português, excepto no meio da expressão «oh-oh», que usamos quando alguma coisa corre mal.

Ora, os Gregos não precisavam de representar esse som, pois não o tinham na sua língua. Talvez nem o ouvissem bem. Afinal, quando não temos um som na língua, ignoramo-lo com facilidade. Muitos portugueses ouvem um inglês a dizer ship e pensam ouvir ali no meio o nosso som /i/, por interferência gráfica e porque não temos o fonema inglês /ɪ/ (bem distinto do /i/ aos ouvidos de um inglês)… Pois bem: os primeiros gregos a aprender o sistema ouviam os Fenícios e é possível que tenham ouvido a tal paragem glotal como se fosse um /a/. Talvez  não sabemos bem. O certo é que o símbolo fenício passou a representar, no alfabeto grego, o fonema /a/. A forma também mudou um pouco: a cabeça de touro ficou com os cornos virados para baixo.

Já temos as consoantes, já temos as vogais – a Humanidade conhecia o primeiro alfabeto completo: o alfabeto grego. Foi uma invenção duradoura: ainda hoje é usado sem grandes alterações6.

4.   A invenção do alfabeto latino

Por esses dias, um sistema de escrita mudava de região para região, um pouco [como] a língua falada7. Os Gregos não tinham apenas um sistema de escrita: o grego moderno usa o sistema jónico, mas na Antiguidade havia outras variantes.

Uma dessas variantes foi transplantada para a Península Itálica, onde começou a ser usada pelos Etruscos. Ora, os Etruscos usaram as letras gregas, mas usaram-nas para escrever uma língua que não conhecemos. Se sabemos ler textos em grego antigo, se sabemos ler textos em fenício, se até sabemos ler textos em egípcio – não sabemos o significado das palavras etruscas.

O certo é que as letras etruscas  aprendidas dos gregos que habitavam em certas zonas de Itália  acabaram nas mãos dos Romanos, que as adaptaram à sua língua, o latim, ou seja, a forma que o itálico assumia no Lácio, a região de Roma.

Esta viagem do alfabeto grego até ao alfabeto latino fez-se com alguns solavancos8. Por exemplo, a letra grega <Γ>, que representa o som /g/, passou pelos Etruscos, que a usaram para representar o som /k/, e chegou aos Romanos na forma <C> com o valor de /k/. Ora, os Romanos, ao contrário dos Etruscos, tinham o som /g/. Assim, precisaram de inventar uma nova letra para representar o som. Com um traço, transformaram o <C> num <G>: problema resolvido.

Com mais ou menos adaptações, chegámos às letras que vemos nas velhas inscrições latinas, onde encontramos com poucas diferenças grande parte das nossas maiúsculas (as minúsculas demoraram mais uns séculos a ganhar as formas actuais).

Já se olharmos para a mais antiga inscrição em latim, encontrada nas escavações de Lapis Niger [na imagem, à esquerda], em Roma, notamos como algumas letras parecem mais próximas das letras fenícias do que das nossas letras.

5.   A invenção da cedilha (e companhia)

Cada alfabeto tenta representar os sons da língua – ou melhor, tenta representar os fonemas da língua9. Pois bem, como a língua está em constante mudança, rapidamente a relação entre letras e fonemas se torna muito complexa, com regras complexas e muitas excepções. Ainda por cima, se pegarmos num conjunto de símbolos e o aplicarmos a uma língua para a qual não foram pensados, a complicação do sistema aumenta.

Quando começámos a usar o alfabeto latino para representar o português, os fonemas da língua já não eram os mesmos que os fonemas latinos. Havia sons que não existiam no latim  como os representados pelos dígrafos <nh> e <lh>. O alfabeto teve de ser adaptado. Estas afinações foram sendo feitas ao longo do tempo, adaptando o alfabeto às línguas que descendiam do latim10. Pelos séculos fora, começou a distinguir-se o <V> do <U>. O <I> também serviu de base para a nova letra <J>. Começaram a cristalizar-se as formas maiúsculas e minúsculas das letras, com muitas variantes. Surgiram símbolos adicionais, como a nossa famosa cedilha.

A história do surgimento da cedilha é curiosa. A escrita variava pelo território europeu. Na Península Ibérica, tínhamos a chamada escrita visigótica, um alfabeto latino com formas particulares, já com maiúsculas e minúsculas11. Tinha não só formas particulares para as letras, como uma série de ligaturas, ou seja, maneiras de escrever letras em conjunto. Aqui está a base deste alfabeto latino à ibérica:

 

Repare naquela letra final, que na forma maiúscula reconhecemos como o nosso Z. Quando se começou a escrever nas várias línguas vulgares da Península, a pequena letra minúscula correspondente ao <z> acabou por se transformar no famoso c de cedilha. Se olhar com atenção para a letra <Ꝣ>, verá como a parte de cima da letra parece um <c> e a parte de baixo parece uma cedilha ampliada. O nosso «c de cedilha» mais não é que a mesma letra com proporções diferentes. Séculos depois, o castelhano deixou cair a letra, usando em sua substituição o Z, mas o português e o catalão mantiveram a forma baseada na escrita visigótica  forma que, aliás, também existe em francês e em mais umas quantas línguas. Assim, os castelhanos – que usaram durante séculos o símbolo – acham estranho aquele penduricalho em palavras catalãs como «Barça», que um castelhano escreve «Barza».

Foram surgindo outros símbolos, como o til, que mais não é do que um pequeno n em cima de outra letra – no caso do castelhano, os dois nn (um em cima do outro) representam o som que em português é grafado como <nh>. Assim apareceu um dos símbolos do castelhano: a letra Ñ. Sim: letra. O alfabeto castelhano inclui a letra Ñ a seguir à letra N. Nós não damos a honra de letra ao c de cedilha, que é tratado como uma variação da letra C.

6.   A invenção da imprensa

Hoje sabemos que Gutenberg [c. 1400-1468] não inventou a imprensa, que já tinha aparecido, pelo menos, na China. Cá pela Europa, um sem-número de pequeníssimas evoluções foram pavimentando o caminho para chegarmos à máquina de Gutenberg – que, não tendo sido a primeira, foi a origem do uso da imprensa na Europa. A partir da famosa máquina, foram sendo feitas muitas outras pequenas adaptações e invenções pelos séculos fora.

Na imprensa, cada letra não é recriada de raiz por um escriba, mas antes impressa no papel por uma peça de metal com a forma da letra12.

O sistema de caracteres móveis permite compor uma folha para reproduzi-la quantas vezes quisermos. O primeiro livro impresso em Portugal foi o Pentateuco, impresso em Faro, em 1487 – estava escrito em hebraico, um alfabeto que também teve origem nas velhinhas letras fenícias. Já o primeiro livro em português foi o Sacramental, impresso em Chaves em 1488.

As primeiras letras foram esculpidas com base nos estilos de escrita mais habituais na época. A criação de conjuntos de letras levou à criação de diferentes tipos de letra. Hoje, as letras são feitas de píxeis, mas ainda seguem os vários tipos, alguns dos quais com origem em tipos antigos, outros criados para o uso digital. Há, aliás, artistas ou artesãos que criam novos tipos de letra – e há mesmo empresas que têm tipos de letra particulares, parte da sua identidade gráfica.

Os particulares tipos de letra que vemos nas placas da estrada ou nas inscrições públicas são parte visível das paisagens por onde passamos. De certa maneira, a forma das letras no espaço público também faz parte da identidade de cada povo. Quando passamos a fronteira de Espanha para Portugal, notamos de imediato como as placas são placas "à portuguesa".

7.    Violinos e outras invenções

O alfabeto latino, com todas as alterações que conhecemos, é hoje o alfabeto mais usado no mundo13. E, no entanto, um romano que viajasse no tempo e pegasse num livro português ficaria um pouco baralhado, não só com a forma peculiar do objecto que tinha nas mãos, mas com os próprios símbolos usados para escrever o texto. Embora usemos o alfabeto latino, na verdade usamo-lo à portuguesa  é um alfabeto latino particular, parecido com o alfabeto usado por muitos outros povos do mundo e já bastante distante do alfabeto usado pelos Romanos. Ou seja, também a escrita muda, tal como os sons que usamos na oralidade mudam ao longo dos tempos. A diferença é a velocidade  a escrita muda, mas em câmara lenta. Se as mudanças na oralidade são processos inconscientes, as mudanças na escrita são uma série de pequenas afinações, quase imperceptíveis – e, de certa forma, também inconscientes.

A letras que usamos não foram inventadas por ninguém em particular. O processo foi gradual, feito de pequenas adaptações imperceptíveis, numa evolução que não é assim tão diferente da evolução biológica: as letras adaptaram-se às necessidades e preferências de quem as usava – e aos materiais ao nosso dispor. As tecnologias humanas desenvolvem-se, em muitos casos, desta forma gradual. Como Matt Ridley explica no livro The Evolution of Everything, aspectos concretos dos objectos que usamos, como os efes dos violinos, têm formas particulares não porque alguém tenha decidido de forma consciente dar-lhes aquela forma, mas como resultado de um processo evolutivo com a duração de séculos, em que a selecção, não sendo natural, é feita pelas preferências dos artesãos e utilizadores. Quem comprava violinos preferia aquela forma à outra  e as formas mais escolhidas foram ficando, sujeitas a mais uma ronda de escolhas, numa afinação sem fim pelos séculos fora.

Da mesma forma, um livro tem a forma que conhecemos depois de outro processo evolutivo do mesmo tipo. Esta evolução lenta não se vê, porque ocorre em escalas temporais maiores do que uma só vida humana (tal como acontece na evolução das espécies). A evolução dos objectos e das tecnologias não pára: as nossas letras continuam a mudar gradualmente – dentro de 200 anos, as letras com que uma nova edição d’Os Maias será impressa serão ligeiramente diferentes das nossas.

Em suma: ninguém inventou as nossas letras, mas muitos dos que as usaram ao longo dos milénios afinaram-nas gradualmente. Assim, recebemos dessa cadeia de escribas e tipógrafos a extraordinária tecnologia que é a escrita.

Repare numa criança a ler. De dedo a seguir a linha, língua entre os lábios, reconstrói na cabeça o enredo da história – tem a imaginação a trabalhar.

Repare também num adulto a ler um artigo sobre biologia: também a sua imaginação está a trabalhar para compreender o mundo um pouco melhor.

Repare agora no seu caso: está a ler um texto sobre o sistema de escrita português e a imaginar aquilo que lhe vou dizendo… Olhe para a última palavra da frase anterior: «dizendo». É uma metáfora, pois não lhe estou a dizer nada. E, no entanto, quase nem notamos a metáfora, pois os sistemas cerebrais que está a usar para decifrar estas manchas estão intimamente ligados à linguagem. Estou a bater numas teclas, que fazem aparecer umas manchas no ecrã do computador  quem me lê está a olhar para as mesmas manchas no seu computador ou telemóvel e, na sua cabeça, está a reconstruir as palavras. Assim, usando uns rabiscos que descendem da escrita dos Fenícios, consigo mexer na imaginação de quem me lê, como se estivéssemos juntos a conversar.

É uma invenção e tanto!

Notas e referências

1 O egípcio – a língua dos faraós – não está na génese da língua que a maioria dos egípcios fala hoje em dia, pois o que se ouve nas ruas do Cairo é o árabe egípcio. Mas há ainda uma minoria de egípcios – os coptas – que falam qualquer coisa que descende dessa língua dos faraós.

2 A escrita egípcia é o que hoje chamamos escrita logográfica – o sistema é semelhante ao sistema usado para o chinês: os símbolos representam palavras da língua, mas também a forma como essa palavra soa, podendo ser reutilizados para representar outras palavras, com diferente significado, mas som semelhante.

3 Apesar de o uso de letras – um sistema de escrita baseado na fonologia – ser bastante mais prático que o uso de logogramas – um sistema baseado na morfologia , a verdade é que várias línguas ainda usam os sistemas mais complexos e estão longe de querer mudar: falo do sistema de escrita chinês, por exemplo, e do sistema de escrita japonês, uma mistura de dois silabários e milhares de caracteres de origem chinesa. Uma boa descrição destes sistemas para quem não os conhece está no livro Babel, de Gaston Dorren.

4 Leia-se o artigo que relata a descoberta: Nuno M. Neto et al.,  “Uma inscrição lapidar fenícia em Lisboa”, Revista Portuguesa de Arqueologia, volume 19, 2016, pp. 123-128 (http://www.patrimoniocultural.gov.pt/static/data/publicacoes/rpa/rpa19/10_123-128.pdf).

5 Não é muito diferente do que acontece, ainda hoje, no árabe, por exemplo – embora o árabe só dispense algumas vogais, não todas.

6 Já a língua grega mudou muito, como discuti no artigo "Que aconteceu ao latim e ao grego antigo?".

7 Como, aliás, ainda acontece na Índia, onde os sistemas de escrita aparecem como cogumelos Sugiro de novo o livro Babel, de Gaston Dorren, para um passeio pela paisagem linguística da Índia.

8 Estou a seguir a viagem que deu origem às nossas letras, mas, a partir das letras fenícias, há muitos outros alfabetos que foram aparecendo e desaparecendo. Uma descrição mais desenvolvida (e muito visual) do processo encontra-se no livro The Story of Writing, de Andrew Robinson.

9 Cada alfabeto tenta representar as diferenças significativas entre sons. Os sons que ouvimos a sair da boca dos falantes são em muito maior quantidade do que as letras de um qualquer sistema  ainda por cima, quando falamos, não estamos a emitir sons isolados, mas sim um contínuo sonoro difícil de dividir em unidades. No entanto, o nosso cérebro interpreta esse contínuo como um conjunto de sinais sonoros capazes de distinguir significados: os fonemas. Na prática, isto significa que os falantes de português dizem um /p/ de formas muito diferentes, mas todas essas formas estão ligadas a um mesmo fonema /p/, uma unidade capaz de distinguir o significado de bata e pata. Noutras línguas, o som [p] e o som [b] estão ligados ao mesmo fonema e não distinguem significados. (Em linguística, é costume representar os grafemas  a que chamamos habitualmente “letras”  desta forma: <p>; os fones  a que chamamos “sons” – são representados assim: [p]; e os fonemas desta forma: /p/. Em geral, os linguistas usam o Alfabeto Fonético Internacional para a representação de fones e fonemas.)

10 Há ainda a considerar distinções que se faziam em fases anteriores da língua e que já não existem  mas que se mantêm na escrita. Dou um exemplo. Os ingleses fazem a distinção entre o som /ch/ e o som /tch/. O primeiro é grafado, habitualmente, como <sh> e o segundo como <ch>. Desta forma, a palavra ship é diferente de chip. Em português esta diferença entre /ch/ e /tch/ não distingue significados. Portanto, a nossa escrita não tem de representar a diferença. No entanto, em fases anteriores da língua, essa diferença era significativa. Por isso, temos símbolos para representar a diferença: <x> e <ch>. Da mesma forma, <ss> e <ç> (e ainda <s> no início de palavra ou após consoante) representam o mesmo som  mas nem sempre assim foi. Já o castelhano ainda diferencia o <b> do <v> na escrita, mas na oralidade as duas letras representam o mesmo fonema /b/ (um fenómeno que também acontece em áreas significativas do português europeu).

12  Se estiver interessado em saber mais sobre esta escrita, pode encontrar mais informações em: http://tipografos.net/fonts/Visigotica-Detalhada.pdf

13 Algumas das peças incluíam várias letras. Tal como antes da imprensa algumas letras se ligavam umas às outras naturalmente, depois da invenção da imprensa há alguns conjuntos de letras que existem na mesma peça  as chamadas ligaturas. Assim, por exemplo, é habitual que houvesse, nas tipografias, peças com a ligatura do f e do i. Ainda hoje, encontramos essas ligaturas em muitos livros impressos, embora sejam raras nos textos do dia-a-dia. Em alemão, há ainda uma ligatura usada habitualmente: o <ß>, a junção do velho <s> longo  <ſ>  com um <s> normal. Em francês, a ligatura <œ> representa um som particular. Há muitos outros exemplos. A letra espanhola <ñ> surgiu de uma ligatura entre dois n. Essa ligatura chegou a ser usada em Portugal, sendo possível encontrar inscrições onde a palavra anno, em que a repetição do <n> era apenas uma particularidade ortográfica e não representava um som diferente do <n> simples, era escrita como «año», assemelhando-se a uma palavra espanhola, embora lida de maneira diferente (por outras palavras, o <ñ> era uma ligatura em português, mas uma letra em castelhano).

13 Há outros dois alfabetos europeus que partilham muitas letras de aspecto semelhante: o grego e o cirílico. Encontramos os três alfabetos nas notas de euro. Depois, temos alfabetos bem diferentes: o georgiano, o arménio e o coreano. Apresentei os seis alfabetos do mundo (limitei-me ao sistemas estritamente alfabéticos) neste artigo: "Viagem pelos seis alfabetos do mundo". Note-se que, embora possamos considerá-los alfabetos de forma genérica, sistemas de escrita como o árabe não são estritamente alfabetos, por não representarem todas as vogais. Aproximam-se, assim, do sistema fenício.

Fonte

Texto do tradutor e professor universitário Marco Neves, que o publicou no seu blogue Certas Palavras em 13 de setembro de 2019. Manteve-se a ortografia do original, anterior à do Acordo Ortográfico de 1990. Todas as imagens provêm do original aqui transcrito.

Sobre o autor