Bilinguismo luso-brasileiro - O nosso idioma - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Bilinguismo luso-brasileiro
Bilinguismo luso-brasileiro

A escritora brasileira Ruth Manus dá conta da sua perceção do português de Portugal num texto publicado em 21/08/2016, no Estadão, portal do jornal brasileiro O Estado de S. Paulo.

 

 

 

Há quem diga que é a mesma língua. Há quem chegue a Portugal esperando «ora pois» e um pouquinho daquele sotaque fofo. Pobrezinhos. Mal sabem o que os espera. Depois de um ano e meio «a viver cá», sinto-me orgulhosamente bilíngue.

Na semana em que cheguei, ouvi que era «muita’gira a minha mala encarnada». Não sabia se era para agradecer, para me ofender ou para xingar de volta. Depois, fui descobrir que a mala era a bolsa, encarnada era vermelha, e gira era bonita. Já não dava tempo de agradecer à moça.

Pouco tempo depois, procurava um supermercado e pedi ajuda a uma senhora que me mandou ir para os "curraios". Não entendi, mas achei que mandar alguém para os "curraios" não era algo admissível, por uma simples razão de divisão de sílabas. Saí chocada, segui andando e encontrei o mercado, ao lado dos correios. Correios. "Curraios". Saquei.1

Depois, foi a vez de um professor narrar um caso de um país que proibiu a venda de "maltadagas". Eu, quieta, pensei: «Maltadaga. Deve ser uma adaga, arma branca, da ilha de Malta.» Ele falou outra vez, e eu entendi “maltad’água”. Pensei “água da ilha de Malta?”. Na terceira ouvi “mota d’água”. OK. «“Mota" deve ser moto. Moto de água. Jet ski!! É jet ski!!» E pronto, o professor já tinha mudado de assunto, e eu até hoje não sei nem onde nem por que o jet ski foi proibido.2

Fui achando que já entendia melhor. Tinha aprendido a não pedir sorvete de creme, mas «gelado de nata». E pedi, no restaurante, torta com uma bola de gelado de nata. O garçom disse “bolinha?”. Eu sorri e disse, “sim, uma bola de gelado de nata”. Ele disse “uma bola de bolinha?”. E eu já pensei “ai, Deus, começou”. Ele insistiu “não temus gelado d’nata. Temos chuculát, murang e bónilha. Pod’ser uma bola de bónilha?”. Enfim. Bola de bolinha, bola de "bónilha", vamos levando.3

Descobri que jogar na privada é «deitar na sanita». Que pisar no freio é «carregar nos travões». Que banheiro é «casa de banho», e salva-vidas é "banheiro". Que dar a descarga é «puxar o autoclismo». Que eu uso cuecas, por mais que eu use calcinhas. E que os homens também usam cuecas por mais que eles não usem calcinhas.

Não satisfeita, inventei de namorar um lisboeta. Fomos dormir outro dia, e ele disse «q’rida, podes colocar o despertador para o Tim Maia?». Pausa. Oi? «O despertador. Colocas para Oi Tim Maia?» Tim Maia? «Sim, para Oi Tim Maia.» E, então, eu percebi que já era bilíngue. Coloquei o despertador para 8h30 e apaguei a luz.4

1 N. E. – A sequência gráfica ei é geralmente pronunciada como "âi" (com a fechado) no português de Portugal. Este facto faz com que maneira soe "manâira", e meio, como "mâio", o que explica que correios se pronuncie como "currâios" (também com o passando a [u], por ser átono).

2 N. E. – Neste passo, a autora dá conta do processo de reconhecimento da expressão «mota de água», que equivale a jet-ski. Não consta que a palavra mota se confunda com malta no português de Portugal, mas, dado que a pronúncia lusitana causa alguma estranheza aos brasileiros menos expostos a ela, é natural que muitos, na procura de perceber as palavras que ouvem, as confundam com outras.

3 N. E. – Trata-se de uma situação semelhante à descrita na nota 2. Nos registos mais populares do português europeu popular, é possível que alguns falantes pronunciem "bònilha" em lugar de "baunilha", muito embora o ditongo "au" seja pronunciado geralmente ou quando se requer maior cuidado na dicção.

4 N. E. – Nova situação semelhante às descritas nas notas 2 e 3. A autora reanalisa – com efeito cómico – o que ouve com base noutras palavras. Na verdade, o que os falantes portugueses dizem geralmente é «ôitimâia», sem nasalidade vocálica apreciável.

Fonte

Estadão, portal do O Estado de São Paulo, 21/08/2016.

Sobre o autor

Professora de Direito do Trabalho e Direito Internacional, mestre pela PUC-SP. Blogueira do Estadão e autora do livro Pega lá uma chave de fenda – e outras divagações sobre o amor, da Editora Saraiva/Benvirá.