Acordo Ortográfico em pleno no Brasil desde 1 de janeiro de 2016 - Acordo Ortográfico - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Acordo Ortográfico em pleno no Brasil desde 1 de janeiro de 2016
Acordo Ortográfico em pleno no Brasil
desde 1 de janeiro de 2016

Peça emitida pela TV Globo – que se pode ver aqui –, sobre a entrada em vigor, em pleno, do Acordo Ortográfico, no Brasil, a partir do primeiro dia de 2016. Com a devida vénia, transcreve-se a seguir a síntese, em texto, que inclui algumas mudanças com as novas regras, com vozes favoráveis e críticas da sua aplicação. Título e subtítulos da responsabilidade do Ciberdúvidas.

 

 

Um capítulo da história da língua portuguesa está terminando na virada do ano. Depois de um período de seis anos de transição, passam a ser obrigatórias, no Brasil, as regras do Acordo Ortográfico assinado com Portugal e mais seis países. Só que as regras ainda provocam dúvidas e críticas.

«Ora, viva! Muito boa noite! Estamos de volta com o nosso e vosso programa Arte e Vista!», diz a apresentadora Jaira. No estúdio, todos vieram da África para estudar ou trabalhar no Brasil.

O Jornal Nacional [da TV Globo]  foi a uma rádio angolana que fala para milhares de ouvintes no mundo todo. Lá, eles falam português. Mas será que é a mesma língua falada no Brasil?

O caso angolano, as consoantes mudas...

Adalberto Lourenço [diretor de Informação da Rádio Nacional de Angola] explica que em Angola o português se mistura a línguas nativas.

«Não é. Todos nós temos um avô, um tio em casa que fala quimbundo, ou fala umbundo, então isso se introduz no português, no nosso dia a dia», conta.

Para a Jaira, apesar das diferenças, é a mesma língua.

«O que acontece muitas vezes é encontrar o brasileiro, o brasileiro diz: ‘não, mas você fala português direitinho, né?’ Eu só sei falar português, tal como você», diz Jaira Graziel, estudante de Economia.

Mas... e as diferenças?

«Eu fiz uma prova de comunicação na faculdade, e a professora deu errado. Porque eu punha objetivo com c, punha atividade com c antes, e a professora disse ‘isso já está errado’», conta Jaira.

Certo, ou errado? Para unificar a grafia de palavras como essa, o Brasil e outros sete países onde se fala português assinaram o Acordo Ortográfico.

«O Acordo é uma declaratória de que os países vão cooperar, vão trabalhar conjuntamente pela língua e através da língua. Em torno de 1% das palavras da língua portuguesa foram modificadas», afirma Gilvan Müller de Oliveira, ex-diretor executivo do Instituto Internacional da Língua Portuguesa.

... e as novas regras do hífen

Objetivo com c, à moda portuguesa, não existe no Vocabulário Comum criado a partir do Acordo. Mas ainda está no Vocabulário da Academia Brasileira de Letras: com c ou sem ele, tanto faz.

Quem resolve a dúvida? No Brasil, o Governo brasileiro. A lei que criou o Acordo Ortográfico, em vigor desde 2009, não definiu qual vocabulário vale no país. Mas mudou algumas coisas: o alfabeto passou a ter 26 letras. Entraram o k, o w e o y; acentos e o uso do hífen foram uniformizados.

Minissaia é tudo junto. Aliás, sempre foi. Outras polêmicas é que transformaram o Acordo numa saia justa.

Palavras com três ou mais elementos só levam hífen se forem nomes de bichos e plantas. Exceção: casos consagrados pelo uso como cor-de-rosa e pé-de-meia. Pé de moleque não entrou na lista, por isso não tem hífen.

As vozes (mais) críticas...

São as exceções que incomodam tanto os críticos do Acordo. Linguistas, políticos e juristas da Ordem dos Advogados do Brasil. Eles queriam regras mais claras.

«As pessoas podem confundir pôde com pode, não pode? Pôde e pode podem ser confundidos. Se ele pôde, pode, bem, é claro que o contexto não vai retirar essa ambiguidade», questionou Carlos André Nunes, conselheiro da OAB.

O acento diferencial entre pode e pôde foi mantido. O mesmo não aconteceu com o verbo e a preposição “para”. Nenhum tem acento. Quem critica o Acordo não entende esse critério.

O hífen também virou motivo de discórdia. Um exemplo? Palavras que começam com o prefixo pre.

«Quando for pré, sempre vai vir com acento e com hífen. Quando for prê, é sem acento e sem hífen. A base é a pronúncia dessas palavras», explica Carlos André Nunes, conselheiro da OAB.

Só que nem sempre a pronúncia resolve a dúvida.

«Você conhece alguém que tenha doença ‘prêexistente’? Na Bahia, as pessoas dizem pré-conceito. E a grafia oficial não é pré-conceito. A grafia é ‘preconceito’ é tudo junto. A parte que diz respeito ao hífen é um desastre. Ele torna a coisa ‘inensinável’ ou impossível de ensinar aquilo», opina o professor Pasquale Cipro Neto.

... e as (mais) favoráveis

O gramático Evanildo Bechara diz que a intenção foi unificar a escrita nos diferentes países. Não necessariamente simplificar. E explica que a tradição justifica certas exceções.

«Eu sou professor há 70 anos, eu nunca tive uma turma que escrevesse preconceito separado e com hífen. As palavras que puderem ser unificadas, a língua agradece, porque essas palavras unificadas terão maior possibilidade de difusão no território lusófono», opinou Evanildo Bechara, gramático da Academia Brasileira de Letras.

Outra crítica é que o Acordo já nasceu velho.

«A Internet mudou o mundo. Esse acordo é pré-Internet», aponta Ernani Pimentel, professor de português.

O professor Sérgio Nogueira explica que expressões novas ou estrangeiras entram aos poucos no idioma.

«Réveillon ficou em francês, o abajur foi aportuguesado. O espaguete foi aportuguesado, a pizza não foi. Não há uma norma para isso. Isso só o tempo é que vai dizer», diz Sérgio Nogueira.

Algumas palavras ainda não chegaram ao vocabulário oficial, mas quem consegue viver sem elas?

Estrangeirismos ainda por aportuguesar

Jornal Nacional  – Professor Bechara, como é que se escreve selfie, em português?

Evanildo Bechara – Por enquanto, é à moda inglesa. Agora, a dúvida é saber se é masculino ou feminino. Porque as duas formas se usam.

Jornal Nacional –  O senhor poderia soletrar selfie?

Evanildo Bechara – S-e-l-f-i-e.

Jornal Nacional – Exatamente como inglês. Isso é português?

Evanildo Bechara – É português.

«A língua que eu falo não é a língua dos meus avós. Nem da época de Machado [de Assis], muito menos de Camões. E eu não sei como será o português daqui a 50 anos, mas uma certeza eu tenho: vai ser diferente», opinou Sérgio Nogueira.