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Controvérsias // Pluricentrismo vs. monocentrismo

O nome de uma língua de muitos mundos

A história, os conflitos e o potencial de união do português no debate contemporâneo

Recentemente, o escritor angolano José Eduardo Agualusa, num festival literário no Rio de Janeiro, sugeriu que a língua portuguesa, por já não traduzir plenamente a sua realidade plural, deveria passar a chamar-se “língua geral”. Embora a intervenção de Agualusa tenha sido, ao que tudo indica, uma simples provocação literária, como sublinhou o professor universitário Marcos Neves, foi suficiente para desencadear uma polémica significativa, sobretudo no Brasil.

De um momento para o outro, ergueram-se trincheiras entre duas posições. Por um lado, os que defendem uma crescente autonomização dos sistemas linguísticos, reconhecendo e acentuando as diferenças entre o português europeu e o português do Brasil, a ponto de propor a designação de “brasileiro” para este último. Por outro lado, os que defendem a unidade essencial da língua, sustentando que, apesar das suas variações e pluralidade, o português falado em Portugal, no Brasil, em Angola ou noutros espaços continua a ser, fundamentalmente, a mesma língua.

Nas últimas semanas, muito se tem escrito e dito sobre esta polémica. Importa, contudo, recuar ao essencial e esclarecer uma questão de base: por que razão a língua portuguesa se chama “português”? A resposta é simples e desprovida de qualquer carga ideológica. Tal como assinala Aline Hall de Beuvink, no Diário de Notícias, o português tem este nome porque nasceu em Portugal. Trata-se de um facto histórico, não de uma reivindicação identitária ou nacionalista. Do mesmo modo, o inglês se chama inglês por ter origem em Inglaterra, e o francês se designa assim por ter nascido em França.

O facto de o português ser hoje uma língua global, falada no Brasil, em Angola, em Moçambique, em Cabo Verde, na Guiné-Bissau, em Timor-Leste e noutros contextos, não anula nem apaga o seu lugar de origem. Pelo contrário, essa história faz parte da sua própria identidade e da sua evolução enquanto língua pluricêntrica, enriquecida pelo contributo de múltiplos povos e culturas.

É precisamente essa pluralidade que deve ser preservada e valorizada. O português é, simultaneamente, diverso e uno, incorporando variações lexicais, fonéticas e sintáticas, mas mantendo uma matriz comum que permite a intercompreensão e o diálogo. Nesse sentido, deve ser encarado como um fator de aproximação entre povos, e não como um instrumento de divisão.

É aqui que algumas propostas mais revisionistas levantam problemas. Ao procurar redefinir a designação da língua ou fragmentá-la em sistemas autónomos, raramente se promove uma maior aproximação entre as comunidades que a falam. Pelo contrário, corre-se o risco de acentuar clivagens simbólicas e culturais, fragilizando um espaço linguístico que, apesar das suas tensões e assimetrias, constitui uma importante plataforma de comunicação e entendimento.

Para além disto, a sugestão de retomar a expressão “língua geral” é particularmente sensível do ponto de vista histórico. Trata-se de uma designação carregada de significado, que remete para as línguas francas de origem indígena utilizadas no Brasil colonial. Recuperá-la hoje para substituir “português” não é, por isso, um mero exercício terminológico neutro. Representa, antes, uma tentativa de deslocação simbólica da matriz histórica da língua, com implicações que não podem ser ignoradas.

Naturalmente, a história do português está longe de ser linear ou pacífica. É uma língua marcada por processos de expansão, dominação e resistência. Foi, em diferentes momentos, a língua do senhor e do escravo, do colono e do colonizado. Mas é também, hoje, uma língua partilhada, apropriada e reinventada por milhões de falantes em contextos diversos. E é precisamente por isso que não deve deixar de ser um motivo de aproximação entre povos.

Portanto, mais do que renomear ou fragmentar, importa reconhecer essa complexidade e trabalhar no sentido de uma convivência linguística assente no respeito pela diversidade e na valorização do que une. O português, com toda a sua riqueza plural, não é apenas um legado histórico, mas também um instrumento vivo de comunicação, de criação e de encontro. E é nessa dimensão que reside a sua maior força.

ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-Instituto Universitário de LisboaISCTE-Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa