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Controvérsias // História da língua

A dialética da "vingancinha"

A propósito do Dia Mundial da Língua Portuguesa

«Sabe aquela prosa que quer parecer profunda, humana, crítica, sensível, sofisticada, mas frequentemente impressiona mais pela afetação e pela retórica passivo-agressiva?»

O título acima também poderia ser "A estética do ressentimento" ou "O revanchismo de gabinete" ou "O rancor estetizado" ou, numa versão mais dura, "Uma ofensa aos portugueses, que devem ouvir quem agora manda".

A lógica conciliadora do «há mais o que nos une do que aquilo que nos separa» não é o expediente.

Sabe aquele texto que revela uma espécie de ressentimento difuso, que não explode em agressividade aberta, mas escorre melifluamente em ironias calculadas, em pequenas alfinetadas travestidas de inteligência espirituosa e sensibilidade performática? Sabe aquela prosa que quer parecer profunda, humana, crítica, sensível, sofisticada, mas frequentemente impressiona mais pela afetação e pela retórica passivo-agressiva?
Então... Foi essa a sensação que tive ao ler o texto "Presente de português", de Caetano Galindo. Está lá na Folha de S. Paulo do dia 5 de maio – Dia Mundial da Língua Portuguesa.
O texto integral do escritor/tradutor/linguista sofre de modalização excessiva, de oralidade forçada, de ironia defensiva, de grandiloquência identitária, de ressentimento estetizado, de uma segregadora alegria revolucionária que não cabe em si.

Segue um trecho (a caixa alta é por minha conta):

«Se Fernando Pessoa (que, entre tantas identidades, soube ser brasileiro também) disse lá na terrinha que "a minha pátria é a língua portuguesa", aqui deste lado do Atlântico essa ligação pode até ser mais forte.

Porque esse legado do sistema colonial, essa imposição que apagou e silenciou tanto da nossa identidade (das nossas identidades), essa estrutura que marcou o nosso povo em formação com uma espécie de ferro em brasa linguístico… essa língua é também o nosso maior presente. E o fato de que nós fazemos com ela coisas que os próprios portugueses mal poderiam imaginar e, ao sermos tantos e tão presentes, fazemos com que nossas marcas se tornem majoritárias, definidoras da tal da língua que hoje celebra seu dia "mundial", ora, ESSA É UMA DAS NOSSAS MAIORES VINGANCINHAS.

Já se disse, e com muita razão, que o maior motor da expansão e do enraizamento do português no Brasil foram não necessariamente os portugueses, mas os africanos que aprenderam aqui esse idioma. A VINGANÇA DO ESCRAVIZADO: impor sua versão do idioma ao escravizador.

Agora, num mundo mais e mais interconectado, acabamos ainda fazendo a antiga metrópole enxergar sua posição em tantos sentidos "secundária" dentro da tão decantada "lusofonia". A VINGANÇA DO COLONIZADO.»

Vingança. Vingança. Vingança.

Três vezes vingança.

Bem... Há uma diferença entre compreender historicamente a transformação do português no Brasil e transformar isso numa narrativa de revanche civilizacional. Uma coisa é descrever a autonomia histórica do português brasileiro; outra, muito diferente, é celebrar isso como "vingancinha".

E a escolha lexical não é inocente.

Vingancinha aparece aí como diminutivo afetivo, quase maroto, quase simpático, tentando converter ressentimento em charme discursivo. Percebe?

Entretanto, ao fim e ao cabo, continua sendo... vingança – ainda que embalada num papel de presente feito de ironia doce, com pose de sofisticação moral.

O curioso é que o texto parece desejar simultaneamente duas coisas: denunciar estruturas de dominação e experimentar o prazer psicológico de ocupar simbolicamente o lugar do dominador, num misto de identificação com o agressor e gratificação narcísica.

Não há superação de uma parte da história, mas uma inversão a seu favor; ou seja, o antigo colonizado se torna grande porque o antigo colonizador teria se tornado "secundário". 
E a construção do texto se tensiona num permanente esforço de jogo soltinho para parecer ao mesmo tempo descolado e moralmente iluminado.

Apesar de problematizar o Dia Mundial da Língua Portuguesa, o texto não celebra propriamente o idioma. Celebra a sensação de ter vencido alguém por meio dela.
Não há doçura nisso, mas amargor. Gera um travo na língua.

Mais do que isso... Há algo profundamente contraditório em denunciar a violência simbólica da colonização enquanto se reproduz, em chave invertida, a mesma lógica hierárquica: ontem, a superioridade vinha da metrópole; agora, ela vem do número de falantes, da metrópole invertida, da influência cultural brasileira, da riqueza linguística como ferramenta de disputa e revanche.

Isso não é liberdade, não é superação, é prisão recalcada, é o «mal secreto» do Raimundo Correia [1859-1911], porque se continua preso à mesma obsessão comparativa.

Paradoxalmente, eles se tornaram o sistema que almejavam combater. E é curioso que a frase atribuída a Paulo Freire se encaixa à perfeição: «Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor.»

E talvez seja este o aspecto mais cansativo desse tipo de discurso: a incapacidade de abandonar o ressentimento como motor interpretativo. Tudo precisa terminar numa pequena compensação moral, numa revanche simbólica contra Portugal.

No fim, o texto mira na consciência histórica e legitimidade linguística, mas acerta na vaidade ressentida que agora brada «Volta pra tua terra!».

Fonte

Texto que o gramático Fernando Pestana publicou no seu mural do Facebook em 10/05/2026.

ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-Instituto Universitário de LisboaISCTE-Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa