A Natureza da Linguagem
Alexandra Soares Rodrigues lançou A Natureza da Linguagem, da editora Livros Zigurate. Trata-se de uma publicação que aborda questões diversas de natureza linguística sob uma perspetiva diferenciadora: a autora adota um tom dialógico por meio do qual convoca um leitor não especializado, para o conduzir numa viagem à descoberta do que é a linguagem, a língua, a linguística e outros tantos temas relacionados com esta área.
A obra espanta, desde o seu início, o leitor desprevenido porque Alexandra Soares Rodrigues consegue retirar o tratamento de assuntos da linguística do escopo de uma textualidade séria, técnica e rigorosa, mas fria e distante, trazendo-o para um registo feito de pequenas narrativas, de perguntas e respostas e de incipits totalmente inesperados para uma publicação desta natureza.
Deliciemo-nos com o início do Capítulo 2, intitulado «Linguagem não é…»:
«Falemos de ovos.
Um homem vai a um mercado e compra ovos. Chega a casa e bate os ovos com açúcar, adiciona farinha e leva ao forno. Pergunta 1: O homem terá comprado mesmo ovos? Pergunta 2: Mas afinal este livro é sobre linguagem ou sobre ovos? Comecemos por responder à segunda pergunta: O livro é sobre linguagem; contudo, para que esta seja compreendida, é necessário esclarecermos o próprio uso da palavra linguagem e para isso vamos usar ovos.» (p. 32)
Como sabiamente sintetiza Maria da Graça Lisboa Castro Pinto, no Prefácio à obra, «a autora de A Natureza da Linguagem evidencia um conhecimento científico de tal modo sólido que sem dificuldade se distancia da temática e joga artisticamente com a palavra escrita, como se de malabares se tratasse, convertendo dessa forma um texto científico num sábio convite à leitura. Concorrem igualmente para esse sábio convite à leitura estratégias de aproximação à matéria como, por exemplo, a abordagem à definição da linguagem e de outros conceitos pela negativa, o uso de relatos de situações do quotidiano, sempre bem-vindos, e cenas respigadas da sua ampla cultura e compacta erudição. Porque da pena de Alexandra Soares Rodrigues a escrita se solta com a arte própria de poetas, a aludida erudição resulta sempre leve e de agradável leitura, o mesmo se podendo dizer da cultura que compartilha.» (p. 15)
É neste tom e com este enquadramento que a obra se organiza em diferentes capítulos (10 no total), explorando temas como a definição de linguagem, o conceito de língua, a arquitetura da linguagem, os processos de aquisição linguística, a ontogénese e a biologia da linguagem, problemas de linguagem de ordem neurológica, o surgimento da linguagem, terminado com um tema bem atual: a linguagem dos modelos de Inteligência Artificial.
O derradeiro capítulo oferece-nos reflexões importantes, clarificações e inquietações. Deixo-vos com o seu parágrafo final, um hino ao humano:
«Uma máquina não fala sozinha nem espontaneamente a não ser que seja construída para tal. O ser humano passa o tempo a falar consigo de modo espontâneo, sem que tenha recebido instruções para isso. Nenhum adulto ensina a criança que as construções linguísticas que ouve dos adultos podem ser usadas não apenas para comunicar com outras pessoas, mas também para se relacionar com a sua própria mente, entendendo-se, desentendendo-se, interpretando-se, planeando-se, questionando-se, mentindo a si próprio, mimando-se, iludindo-se, desiludindo-se, irritando-se, repreendendo-se a si próprio, zangando-se e ralhando consigo próprio, sem que mais ninguém ouça. A máquina produz textos para o humano, não para dentro de si mesma, e com esses textos não se entende, desentende, interpreta, planeia, questiona, mente, mima, ilude, desilude, irrita, repreende a si própria. Essas ações, a serem feitas, sê-lo-ão sob a instrução do humano que programou a máquina e, portanto, não mostram uma "mente" da máquina, mas a mente do próprio humano que a programou […]. A máquina não pode superar-se a si própria, conquanto está dependente de instruções externas produzidas pelos humanos. O indivíduo humano pode superar-se a si mesmo e a linguagem tem nesse processo um papel essencial» (pp. 477-478).
