Da Roménia, do romeno e da força da poesia - Diversidades - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Da Roménia, do romeno e da força da poesia
Da Roménia, do romeno e da força da poesia
A situação linguística romena

«O romeno escreve-se com o alfabeto latino, com cinco carateres suplementares. Foneticamente é mais próximo do sardo e do italiano e mais distante do francês e do português.»

Da Roménia pouco se se fala nos noticiários, mas algum conhecimento sobre a sua História e situação linguística ajuda a compreender a Europa, o mundo e a profunda reorganização geoestratégica em curso.

A Roménia é o mais extenso dos países balcânicos (incluindo também Albânia, Bósnia-Herzegovina, Bulgária, Croácia, Kosovo, Macedónia do Norte, MoldáviaMontenegro e Sérvia), com extensão correspondente a c. duas vezes e meia a de Portugal. O território é delimitado a sudeste pelo Mar Negro e, no sentido horário, por Bulgária, Sérvia, Hungria, Ucrânia, Moldávia e novamente Ucrânia. A população romena cifra-se em 18,9 milhões de habitantes (dados de 2022, ONU). Após a violenta Revolução Romena de 1989, o país tornou-se membro do Conselho da Europa em 1993, da NATO em 2004 e da União Europeia em 2007.

Como os demais países balcânicos, a Roménia, independente desde 1878, tem uma História atribulada. Poderão assinalar-se os seguintes períodos: 1) Império Romano (de onde procedem a língua, o seu nome e o do país); 2) principados romenos da Moldávia, Valáquia e Transilvânia; 3) suserania do Império Otomano (1541-1878); 4) Reino da Roménia e II Guerra Mundial (1978-1947); 5) Roménia socialista (1947-1989). Em dezembro de 1989, a deposição de Nicolau Ceausescu e a sua execução, com a mulher, por um pelotão de fuzilamento (com exibição mediática dos cadáveres), abriu ao país as portas da ocidentalização.

romeno ou daco-romeno é a língua mais falada e de maior vitalidade das línguas românicas orientais – que incluem o istrorromeno (aldeias da Ístria, Croácia), o arromeno (grupos isolados em países balcânicos) e o romeno meglenita (aldeias da Macedónia, região grega e do norte); regiões de difícil acesso são propícias à constituição de "enclaves linguísticos". O mais antigo registo conhecido do romeno, escrito em alfabeto cirílico, é de 1521 e a primeira gramática foi publicada em 1780, em Viena. O romeno escreve-se com o alfabeto latino, com cinco carateres suplementares. Foneticamente é mais próximo do sardo e do italiano e mais distante do francês e do português; o seu léxico incorporou muito vocabulário de origem eslava e também alemã, francesa, italiana, grega, húngara e turca.

Além de língua oficial e maioritária da Roménia e da Moldávia, o romeno é cooficial na Província Autónoma da Voivodina, falado no vale Timoc (Sérvia) e tem estatuto de língua regional na Ucrânia ocidental; a sua extensa diáspora espalhada pelo mundo mantém a língua e transmite-a às novas gerações. Na Roménia encontram-se algumas minorias, com destaque para a húngara e a roma; o nacionalismo, muito arreigado na sociedade e na política desde a independência, explica que os seus direitos linguísticos não tenham sido sempre respeitados – e.g. em 1990, o Estado reagiu violentamente às reivindicações da minoria húngara da Transilvânia. A Constituição de 1991 garante às minorias o direito a preservar, desenvolver e expressar a sua identidade, nomeadamente linguística, mas, apenas em 2003, emendas constitucionais garantiram o direito a usar a sua língua no contacto com a administração pública e tribunais. Estudiosos da questão atribuem este progressivo respeito pelo multilinguismo e a multiculturalidade à aproximação da Roménia ao Ocidente, desde 1990.

Por uma feliz e inexplicável coincidência, os Poeme lusitane, antologia de Miguel Torga traduzida pela minha amiga Mariana Ploae Hanganu, saíram em dezembro de 1989. O poema "Liberdade"/"Libertate" calou fundo na alma dos leitores romenos.

Fonte

Artigo publicado no Diário de Notícias de 25 de julho de 2022

Sobre a autora

Margarita Correia, professora  auxiliar da Faculdade de Letras de Lisboa e investigadora do ILTEC-CELGA. Coordenadora do Portal da Língua Portuguesa. Entre outras obras, publicou Os Dicionários Portugueses (Lisboa, Caminho, 2009) e, em coautoria, Inovação Lexical em Português (Lisboa, Colibri, 2005) e Neologia do Português (São Paulo, 2010). Mais informação aqui. Presidente do Conselho Científico do Instituto Internacional da Língua Portuguesa (IILP) desde 10 de maio de 2018.