DÚVIDAS

Vírgula antes de que consecutivo

Tenho encontrado informação um pouco contraditória em relação a esta questão de virgulação (na construção «tão […] que»).

«Foi um barulho tão forte que tive de tapar os ouvidos.»

ou

«Foi um barulho tão forte, que tive de tapar os ouvidos.»

A vírgula é obrigatória, opcional ou não deverá ter vírgula sequer?

Existem fontes que abordem este assunto em particular?

Muito obrigado por toda a ajuda e por todo o vosso excelente trabalho.

Resposta

Nas construções consecutivas introduzidas por que, associadas a intensificadores como tãotanto, tal ou tamanho, a tradição gramatical não é totalmente consensual quanto ao uso da vírgula, coexistindo diferentes critérios de análise.

Por um lado, há autores que defendem ou admitem a vírgula. Rodrigo de Sá Nogueira (Guia Alfabética de Pontuação, 1973) considera que que, enquanto conjunção consecutiva, deve ser precedido de vírgula por introduzir uma nova oração. Também a tradição refletida em interpretações como a referida em «Ainda a vírgula antes da conjunção subordinativa consecutiva que» admite essa pontuação em certos contextos, sobretudo quando há pausa ou destaque da consequência. Além disso, Cunha e Cintra (Nova Gramática do Português Contemporâneo, pág. 583) e  Evanildo Bechara (Moderna Gramática Portuguesa), apresentam exemplos com vírgula, o que mostra que o uso é efetivamente atestado.

Por outro lado, há posições que restringem ou rejeitam essa vírgula em contextos neutros. Jaime Rebelo (Pontuação e Análise Sintática, pág. 10) defende que não se usa vírgula quando os elementos da locução consecutiva («tanto que», «de tal maneira que», etc.) se mantêm coesos, sem separação por outros constituintes, o que corresponde a uma leitura em que a subordinada está fortemente integrada na principal. Esta perspetiva é reforçada pela Gramática do Português (pág. 2168 - 2173) da Fundação Calouste Gulbenkian, que apresenta sistematicamente exemplos sem vírgula e analisa estas estruturas como construções de grau, próximas das comparativas («mais… do que»), nas quais não há separação entre os dois termos.

Acresce ainda um critério geral de pontuação, referido por Bergström e Neves Reis (Prontuário Ortográfico e Guia da Língua Portuguesa), segundo o qual as orações subordinadas adverbiais tendem a ser separadas por vírgula, sobretudo quando surgem em posição inicial, o que pode favorecer a presença de vírgula em certos casos, mas não impõe o seu uso nas consecutivas integradas.

Assim, a síntese destas perspetivas é que a vírgula antes de que consecutivo não é obrigatória. 

ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-Instituto Universitário de LisboaISCTE-Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa