Sobre o aportuguesamento de Fukushima - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Sobre o aportuguesamento de Fukushima

Lendo uma notícia de jornal (Diário de Notícias, 8/02), a propósito do primeiro aniversário do sismo no Japão (que originou o gigantesco tsunami que se sabe), vejo escrito Fucoxima, num presumível aportuguesamento do nome original Fukushima.

Está certo?

João Carlos Amorim Reformado Lisboa, Portugal 5K

Ainda não há registo nos vocabulários ortográficos da forma aportuguesada do topónimo japonês Fukushima [Fukushima-shi, [ɸu͍̥ku͍ꜜɕima]. No entanto, e tendo por base a indicação formulada na Base I [Do alfabeto e dos nomes próprios estrangeiros e seus derivados] do Acordo Ortográfico de 1990 — «Recomenda-se que os topónimos/topônimos de línguas estrangeiras se substituam, tanto quanto possível, por formas vernáculas, quando estas sejam antigas e ainda vivas em português ou quando entrem, ou possam entrar, no uso corrente» — que, por sua vez, respeita o proposto, desde 1947, por Rebelo Gonçalves, no seu Tratado de Ortografia da Língua Portuguesa (Coimbra, Atlântida, 1947, p. 3) — «é anormal o uso de k, w ou y, que, quer em palavras portuguesas, quer em palavras aportuguesadas, devem ser substituídas pelas correspondentes representações vernáculas: c ou qu, e não k; u ou v, e não w; i e não y» —, é legítimo substituir-se o k por c, assim como a combinação gráfica sh ser alterada para x (uma vez que este sh não corresponde ao som tch, o que implicaria o uso de ch)1.

Assim, e tendo como referência o aportuguesamento dos topónimos japoneses Hiroxima (de Hiroshima), Nagasáqui (de Nagasaki), Ósaca (de Osaka) registados no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (1966), de Rebelo Gonçalves (que respeita a reforma ortográfica de 1945), em que o k é substituído por c, e o ch por x, a forma aportuguesada de Fukushima é Fucuxima.

Pensa-se que a grafia utilizada no Diário de Notícias, Fucoxima, em que ocorre um o átono na antepenúltima sílaba em vez de u (da palavra original), deve ter sido fruto de uma possível analogia a Hiroxima. Sem deixarmos de manifestar o nosso apreço pela atitude louvável desse jornal em prol de formas portuguesas dos topónimos estrangeiros, não podemos, no entanto, deixar de assinalar que o aportuguesamento desta palavra não altera as vogais do nome estrangeiro Hiroshima. Por isso, se o nome da província e da cidade japonesa é transcrito como Fukushima, com as vogais u nas duas primeiras sílabas, é natural que as mesmas se mantenham na forma aportuguesada. E, decerto, que a transliteração do japonês para a palavra inglesa Fukushima, procura representar os sons da palavra original. Se o nome Hiroshima ocorre com o na 2.ª sílaba e Fukushima com u na 1.ª e 2.ª sílabas, isso significa que o som produzido pela sílaba da primeira palavra é diferente do das duas sílabas do segundo nome, conforme se pode verificar pela transcrição fonética. Portanto, a grafia portuguesa deverá respeitar essa realidade. Portanto, Fucuxima, e não "Fucoxima". 

[Nota final: no Brasil, a avaliar pelas ocorrências na Internet, mantém-se a forma estrangeira Fukushima.]

1 Rebelo Gonçalves, no seu Tratado de Ortografia da Língua Portuguesa (op. cit.), explica que «dada a homofonia existente entre certas consoantes, torna-se necessário diferençar os seus empregos gráficos, que fundamentalmente se regulam pela etimologia e pela história das palavras.

a) Distinção entre c, representante da gutural surda antes de a, o, u, ditongo iniciado por uma dessas vogais, ou qualquer consoante, e o digrama qu, representante da mesma gutural antes de e, i ou ditongo por e ou i: Carnaque é o aportuguesamento da forma nacional estrangeira Karnak.; Quioto, a substituir Kioto.

b) Distinção entre ch e x:

A forma aportuguesada Camchaca foi recomendada por Gonçalves Viana, em Ortografia Nacional (p. 230), evitando-se a estrangeira Kamtchatka. Chade como substituto de Tchad, proposta por Fortunato Almeida em Nomenclatura Geográfica, e adotada pelo Vocabulário da Academia das Ciências de Lisboa, constitui, pela adição do e final, mais completo aportuguesamento do que a forma Chad, proposta por Gonçalves Viana. Checoslováquia, forma fixada pelo Vocabulário da ACL e que se deve preferir a Tchecoslováquia. Caxemira ou Caxemir para substituir a forma estrangeirada Kachmir.

Eunice Marta
Tema: Topónimos Classe de Palavras: nome próprio
Áreas Linguísticas: Léxico; Ortografia/Pontuação