O verbo dever pode ser usado com dois valores distintos, entre outros que não são pertinentes para esta situação:
(i) «probabilidade da ação, do processo ou do estado referido pelo verbo no infinitivo»
(ii) «obrigação, necessidade de praticar, de acontecer ou de se verificar a ação, o processo ou o estado referido pelo verbo no infinitivo» (Dicionário da Língua Portuguesa)
Ora, será a determinação do valor que está associado ao verbo dever que nos permitirá identificar a modalidade que veicula.
Assim, na frase (1), o locutor produz um enunciado em torno da situação «ler a Farsa de Inês Pereira», querendo indicar que não tem a certeza de que esta se tenha concretizado efetivamente. Por esta razão, modaliza o seu enunciado com um valor de possibilidade associado à modalidade epistémica:
(1) «O Miguel deve ter lido a Farsa de Inês Pereira.»
Já na frase (2), partimos do princípio que o locutor, com o seu enunciado, pretende agir sobre os outros e sobre si próprio, expressando um valor de obrigação relativamente à situação descrita como ««ler a Farsa de Inês Pereira». Por esta razão, modaliza a sua frase com um valor de obrigação associado à modalidade deôntica:
(2) «Devemos ler a Farsa de Inês Pereira até amanhã»
De forma acessória, note-se que a frase (1) é compatível com o uso do advérbio de dúvida talvez, dado expressar um valor de probabilidade. Já a frase (2) não é compatível com o uso deste advérbio, mas sê-lo-á com o auxiliar «ter de», que expressa um valor de obrigação.
Em síntese, para identificar a modalidade presente numa frase e o seu valor há que atender ao contexto e às intenções do locutor e, relativamente, ao caso particular do verbo dever ter em atenção que este poderá estar ao serviço da expressão de diferentes modalidades. Note-se ainda que a mesma oscilação entre modalidade poderá ter lugar com o verbo poder.
Disponha sempre!