O aportuguesamento de "twitter" - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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O aportuguesamento de "twitter"

Questões sobre aportuguesamento são recorrentes aqui, mas este caso específico me chamou a atenção. Recentemente, o maior portal de comunicação do Brasil perguntou aos seus leitores qual seria a melhor grafia a ser utilizada no site: “twittar” ou “tuitar”, para o verbo correspondente ao ato de postar mensagens no serviço de microblogue Twitter. Quase 80% das pessoas optaram por “twittar”. Podemos aportuguesar as palavras estrangeiras dessa maneira? O termo eleito me pareceu um tanto Frankenstein: nem português, nem inglês. Para mim, melhor seria traduzir o termo para piar, e a única opção aceitável das apresentadas pelo site seria “tuitar”, completamente aportuguesada. O que vocês pensam?

Obrigado.

André Gomes Analista de sistemas Belo Horizonte, Brasil 7K

Apesar de o Acordo Ortográfico de 1990 ter passado a incluir as letras k, w e y no alfabeto português, recomenda-se que elas surjam só em derivados de nomes próprios estrangeiros. Ora, neste caso, o que acontece é que se trata de aportuguesar termos estrangeiros.

Deste modo, há duas possibilidades:

a) Twitter é nome próprio; então, não é obrigatório aportuguesar como nome que é, mas é possível criar um verbo neológico, twittar, que pressupõe um radical "twitt-";1

b) twitter é forma de verbo e nome em inglês (significa «chilrear» e «chilreio»), e, então, é preciso aportuguesar.

No caso de aportuguesamento (fonético e ortográfico) de twitter, podem propor-se os neologismos "tuíter", para o nome, e "tuitar", para o verbo.

1 Leia-se o n.º 3 da Base I do Acordo Ortográfico de 1990: 

«[...] mantém-se nos vocábulos derivados eruditamente de nomes próprios estrangeiros quaisquer combinações gráficas ou sinais diacríticos não peculiares à nossa escrita que figurem nesses nomes: comtista, de Comte; garrettiano, de Garrett; jeffersónia/jeffersônia, de Jefferson; mülleriano, de Müller; shakesperiano, de Shakespeare.

«Os vocábulos autorizados registarão grafias alternativas admissíveis, em casos de divulgação de certas palavras de tal tipo de origem (a exemplo de fúcsia/fúchsia e derivados, bungavília/bunganvílea/bougainvíllea).»

A aplicação deste critério é discutível, porque neste momento o contacto do português com o inglês, em todos os registos sociais, torna a derivação de Twitter tudo menos uma questão de erudição. Note-se ainda que estamos a falar da consideração de radicais para a formação de verbos, o que constitui uma novidade à luz da norma citada.

 

Cf.  “Tuíte” e “tuitar”: aportuguesamento ou derivação?

Carlos Rocha
Tema: Uso e norma Classe de Palavras: substantivo
Áreas Linguísticas: Léxico; Ortografia/Pontuação