O uso do adjetivo compreensivo no título do artigo de opinião «O fim do modelo binário do ensino superior: por uma universidade compreensiva» levanta uma questão pertinente.
Em português, compreensivo é um vocábulo antigo e bem atestado, mas o seu uso mais frequente e corrente hoje é o de «que demonstra compreensão» (no sentido de empatia ou tolerância). Existe, porém, também na tradição lexicográfica portuguesa a aceção de «que compreende, abrange ou contém», ainda que esta seja menos habitual no uso contemporâneo (veja-se o que se diz aqui e aqui).
É justamente este segundo valor semântico que parece estar em jogo no artigo, aproximando-se do inglês comprehensive, usado em expressões como comprehensive university, isto é, «uma universidade abrangente».
Neste sentido, não se trata de um neologismo puro nem de um erro lexical, uma vez que o português já admite historicamente essa extensão semântica. Contudo, o uso atual pode ser visto como pouco transparente, porque entra em tensão com o significado mais comum de compreensivo na língua contemporânea.
Por isso, mais do que um anglicismo direto, estamos perante um caso de reativação de um sentido marginal do português sob influência do inglês, fenómeno frequente em contextos académicos e institucionais.
Fora dos círculos académicos, o termo pode provocar estranheza, e, portanto, alternativas como «universidade abrangente» ou «universidade polivalente» serão interpretáveis de forma mais imediata e inequívoca