DÚVIDAS

Nomes geográficos com classificadores: Vale de San Joaquín

A regra bem sabida de que os acidentes geográficos se escrevem atualmente com minúscula esbarra com o sentido comum de considerar que esses mesmos termos podem fazer parte do nome.

Estou a ler um texto no qual surge «Vale de San Joaquín» e «Cabo Mendocino», por exemplo: deveria ser «vale de San Joaquín» e «cabo Mendocino»?

Obrigado.

Resposta

Nos nomes que apresenta, recomenda-se a maiúscula inicial em ambos os termos que compõem os topónimos (nos exemplos em itálico):

(1) Visitei o Vale de San Joaquín.

(2) Conheço o Cabo Mendocino.

Mas convém observar que os nomes comuns que designam genericamente acidentes geográficos fazem parte, com frequência, de nomes próprios de lugar, os topónimos. Esses nomes comuns são o que se chama «classificadores do nome próprio» (cf. Gramática do Português, da Fundação Calouste Gulbenkian 2013-2020, pp. 1037-1039).

Sobre a grafia destes classificadores, os acordos de 19451990 não parecem claros quanto à obrigatoriedade de exibirem maiúscula inicial ou minúscula incial quando integram topónimos compostos, como é o caso de Vale de San Joaquín ou Cabo Mendocino.

É verdade que o uso dos classificadores se assemelha ao de construções que envolvem nomes próprios como «o rei D. Manuel I» ou «o senhor Luís», em que o classificador se escreve geralmente com minúscula inicial. Mesmo assim, existe um critério que se afigura aplicável a várias classes de topónimos e que é o da Gramática do Português (p. 1020), a qual propõe que, para os chamados hidrotopónimos, isto é, nomes que designam massas de água como «rio Tejo», «lago Baical» ou «mar Negro», o termo genérico (rio, lago, mar), só terá maiúscula nas seguintes condições:

«Não havendo uma regra fixa neste domínio, propomos aqui [...] as seguintes convenções (aliás também aplicáveis aos outros nomes próprios de base descritiva): (i) quando o classificador (toponímico) é obrigatório, escrever-se-á com letra maiúscula, como em (o) Lago Léman (esse lago não pode ser designado apenas como (o) Léma); (ii) quando o classificador (toponímico) é opcional, escrever-se-á com letra minúscula, como em (o) rio Tejo (esse rio pode ser designado apenas como (o) Tejo).»1

O critério acima transcrito pode, não obstante, revelar-se subjetivo e, portanto, suscetível de contestação, pelo que não é de rejeitar a escrita dos classificadores com maiúscula inicial.

Em suma, pelo menos, nos casos em questão, em que é implausível ocorrer «San Joaquín» ou «Mendocino» como reduções de Vale de San Joaquín e Cabo Mendocino, respetivamente (ainda que exista o topónimo Mendocino, relativo à cidade que dá o nome ao cabo), justifica-se a maiúscula inicial nos termos genéricos vale e cabo.

1 Por «nomes próprios de base descritiva», entenda-se um nome próprio constituído por um nome comum descritivo e um nome próprio semanticamente arbitrário, isto é, em «Lago Léman» ou «Mar de Azov», lago e mar são nomes comuns descritivos e Léman e Azov são nomes próprios canónicos, isto é, semanticamente arbitrários (idem, p. 1002).

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