«Um picasso», «um ferrári»... - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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«Um picasso», «um ferrári»...

Tanto quanto sei, deve escrever-se «ele tem um Ferrari e um picasso». E se, além disso, o ricaço em questão possuir um violino feito por Stradivarius? O correcto será acrescentar «e ainda um Stradivarius» (equivalente a marca), ou «e ainda um stradivarius» (obra)?

[...] [Recordo] uma [...] resposta dada, por Rui Gouveia, no [...] Ciberdúvidas, e que me parece absolutamente lógica: «Há uma figura de retórica chamada metonímia, que consiste, “grosso modo”, em substituir uma palavra (ou um conjunto delas) por outra com a qual tenha qualquer relação por dependência de ideia. É o que acontece, por exemplo, na frase "Quem me dera ter um picasso na parede da sala!", em que "picasso" está por "quadro da autoria do pintor espanhol Pablo Picasso".»

Relativamente ao violino construído por Stradivarius:

Julgo que deve escrever-se «um Bösendorfer», à semelhança de «um Ferrari», porque esta em causa uma marca (de pianos). E, por extensão, também «um Stradivarius», embora, neste caso, não se trate exactamente de uma marca. Mas isto é apenas um «palpite», motivo pelo qual vos coloquei a minha pergunta.

Mais uma vez, obrigado pela vossa atenção.

Álvaro Faria Actor Lisboa, Portugal 1K

É legítima a minúscula inicial de picasso, usado como nome comum em «um picasso», mas legítima também parece a grafia ferrari (em itálico, mantendo a grafia italiana; ferrári, aportuguesando-a), igualmente com minúscula inicial, para referir um carro da marca Ferrari.

Eis as razões:

1. Os acordos ortográficos que têm vigorado em Portugal (tanto o de 1945 como o de 1990) não se referem diretamente aos casos em questão, os quais consistem na reutilização de nomes próprios de pintores e de marcas como nomes comuns. No entanto, o acordo de 1945 (Base XXXIX) observa que «[..] [r]elativamente a[os nomes de raças, povos ou populações, qualquer que seja a sua modalidade, os nomes pertencentes ao calendário, com excepção das designações dos dias da semana, escritas sempre com minúscula, e os nomes de festas públicas tradicionais], [...] é importante distinguir deles as formas que podem corresponder-lhes como nomes comuns e que, como tais, exigem o emprego da minúscula inicial: "muitos americanos", "quaisquer portugueses", "todos os brasileiros"; "fevereiro" (nome de uma ave), "outonos" (cereais que se semeiam no Outono), "primavera" (nome de plantas)». É verdade que parte do que se diz nesta passagem não é mantida pelo acordo ortográfico de 1990 (AO 1990), o qual determina a minúscula inicial para os «nomes pertencentes ao calendário»; no entanto, interessa é realçar que o texto de 1945 estabelece o princípio da minúscula inicial nas formas correspondentes à transposição de nomes próprios como nomes comuns.

2. O princípio acima enunciado é generalizável a todos os nomes comuns, tendo em conta o que Rebelo Gonçalves, no seu Tratado de Ortografia da Língua Portuguesa (1947, p. 336, n. 2), escreveu: «[deve-se] advertir que todo o nome comum que reproduz nome próprio [...] postula, salvo caso particular (p. ex., colocação em início de período), a minúscula inicial: áfrica, "façanha"; calvário, "martírio"; falperra, "lugar infestado de salteadores"; gólgota, "lugar de suplício" ou "suplício"; luís, "moeda francesa"; madeira, "vinho da Madeira"; penates, "casa paterna" ou "lar"; porto, "vinho do Porto"; xerez, "vinho de Xerez", etc.» À luz deste preceito, «um quadro de Picasso» é «um picasso», com minúscula inicial em picasso; e «um carro da marca Ferrari» é um «um ferrari», também com minúscula inicial. O que se acaba de expor leva em conta os preceitos do acordo de 1945 e os textos que, de alguma forma, o completavam, como é o caso do Tratado... de R. Gonçalves. Será conveniente que as entidades que monitorizam a aplicação do AO de 90 confirmem o uso da minúscula inicial nestes casos.

3. Note-se ainda que, se, por um lado, a minúscula inicial parece recomendável, por outro lado, ressalta o problema de, entre os nomes de pintores e os das marcas, haver muitos de configuração estrangeira (Rembrandt, Kandinsky, Ford) que não têm enquadramento nos princípios da nossa ortografia. Poderia argumentar-se que a sua transposição como nomes comuns é um fenómeno de derivação imprópria (também chamada conversão, em propostas mais recentes), e, portanto, tais nomes comuns têm enquadramento na ortografia do português; no entanto, há estudos que contrariam a visão de serem estes casos de derivação (ver M. Correia e L. San Payo de Lemos, Inovação Lexical em Português – esta autoras classificam a conversão de nomes próprios em nomes comuns como reutilização de palavras já existentes). Neste contexto, se a reutilização de nomes próprios como nomes comuns não é um tipo de derivação, então, os nomes comuns com grafias estrangeiras violam o disposto no acordo de 1945 (Base I e II) e no AO 90 (Base II e III). A solução para os nomes que mantêm a ortografia original será usá-los em itálico, mas esta via pode suscitar outro tipo de problemas (por exemplo, do ponto de vista tipográfico, a sobrecarga visual da página).

4. Se a forma italiana Ferrari, que em italiano é palavra grave (isto é, acentuada na penúltima sílaba), ocorrer como nome comum e se de facto não é este um caso de derivação (ver discussão em 3), deverá ela, como é prática corrente, ser assinalada na escrita como estrangeirismo, entre aspas ou em itálico: ferrari. Note-se que, em português, não é possível aceitar esta grafia dado a leitura correspondente ser a de uma palavra aguda (como percebi – as palavras sem acento gráfico terminadas em -i são agudas), e não a de uma palavra grave, como exige a sua pronunciação correta ("ferrári"). Na verdade, para um aportuguesamento gráfico adequado, mantendo a acentuação grave, este substantivo terá de apresentar um acento agudo na penúltima sílaba: ferrári. Trata-se, porém, de uma grafia inusitada, o que torna esta palavra mais um caso problemático que, afinal, se soma aos mencionados em 3, todos eles relativos ao uso, como nomes comuns, dos nomes próprios escritos com letras e arranjos gráficos estranhos à ortografia do português. 

Mais haveria, portanto, a considerar sobre a ortografia dos nomes comuns em apreço. Mesmo assim, retomando o que foi dito antes, recomenda-se a minúscula inicial de ferrari (ou ferrári) e picasso em referência a, respetivamente, um carro da marca Ferrari e um quadro concebido por Picasso.

N. E. (atualização 3/05/2016): As considerações sobre ferrari/ferrári, foram corrigidas, na sequência de observações que recebemos.

Carlos Rocha
Tema: Acordo Ortográfico Classe de Palavras: substantivo