Coordenadas conclusivas e subordinadas consecutivas - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Coordenadas conclusivas e subordinadas consecutivas

Qual é a real diferença entre as orações coordenadas conclusivas e as orações subordinadas consecutivas? Tenho algumas construções através das quais gostaria de ser auxiliada.

1- Ela foi muito atenciosa com os alunos, por isso será contratada novamente.

2- Marcos estava muito doente, de modo que não foi à escola durante toda a semana.

3- Eu e a minha esposa vamos mudar de cidade, por isso teremos que pedir demissão da empresa.

4- Pedimos demissão da empresa... (como seria uma oração conclusiva e como seria uma oração consecutiva?)

Algo que para mim é muito confuso é que identifico as orações coordenadas por causa da locução "por isso", assim como identifico a consecutiva por sua locução "de modo que", mas não consigo identificar o nível de dependência da oração subordinada consecutiva. Tenho a impressão de que pode ser tão independente quando as coordenadas conclusivas. Imagino que deve haver alguma falha na minha interpretação.

Obrigada.

Daniele Monteiro Estudante Pomerode, Brasil 43

 Existe, de facto, uma proximidade semântica entre coordenadas conclusivas e subordinadas consecutivas e, por vezes, a distinção entre ambas é difícil de determinar. De modo a procurarmos caracterizar claramente os aspetos basilares das duas realidades, vamos considerar apenas casos prototípicos que permitam identificar traços distintivos.

Sobre as orações subordinadas consecutivas1:

(i)  expressam uma consequência associada a um grau, sendo que o seu objetivo comunicativo se centra na quantificação a que se associa uma consequência/efeito, ou seja, a consequência/efeito expressa na oração subordinada visa marcar a quantificação expressa na subordinante:

(1) «Ele trabalhou tanto que já concluiu o projeto.» (A quantidade de trabalho é sublinhada pelo facto o projeto já estar concluído)

(ii) são tipicamente introduzidas por um operador consecutivo como tão, tanto, tamanho, de tal forma, de tal modo:

(2) «Ele é tão trabalhador que conseguiu logo emprego.»

(3) «Ele trabalha tanto / de tal modo / de tal forma que conseguiu logo emprego.»

Estes operadores não podem ser eliminados da frase, o que comprova a dependência da expressão do grau referida em (i):

(2a) «*Ele é trabalhador que conseguiu logo emprego.»

(3a) «*Ele trabalha que conseguiu logo emprego.»

(iii) associam-se tipicamente a adjetivos (4), verbos (5) ou advérbios (6) que são graduáveis:

(4) «Ele é tão simpático que tem imensos amigos.»

(5) «Ele estuda tanto que é o melhor da escola.»

(6) «Ele trabalha tão silenciosamente que ninguém dá por ele.»

 

Sobre as orações coordenadas conclusivas:

(i) exprimem uma dedução relativamente ao que ficou dito no primeiro termo coordenado:

(7) «Está a chover, logo (eu concluo que) não vais à praia.»

(ii) não estão dependentes da expressão de grau no primeiro termo coordenado:

(8) «Ele já não mora na cidade, logo não pode sair connosco.» (a expressão «morar na cidade» não é graduável)

(iii) pode não expressar uma consequência/efeito resultante da causa expressa no primeiro termo coordenado:

(9) «O chão está húmido, logo deve ter chovido.» (A humidade não é uma causa que tem como consequência a chuva).

 

Relativamente às orações incluídas nas frases apresentadas pela consulente:

(10) «Ela foi muito atenciosa com os alunos, por isso será contratada novamente.» - oração coordenada conclusiva

(11) «Marcos estava muito doente, por isso não foi à escola durante toda a semana.» - oração coordenada conclusiva

(12) Eu e a minha esposa vamos mudar de cidade, por isso teremos que pedir demissão da empresa.» - oração coordenada conclusiva

Sem outro contexto, nenhuma das frases parece exprimir uma consequência do facto referido na primeira oração, na medida em que não é o grau de atenciosa ou de doente que são apresentados como causa da consequência expressa. Situação diferente estaria expressa em frases como:

(13) «Ela foi tão atenciosa que será contratada novamente.»

(14) «Marcos estava tão doente que não foi à escola durante toda a semana.»

 

A última frase apresentada pela consulente poderia ser concluída com uma oração coordenada conclusiva:

(15) «Pedimos demissão da empresa, logo já não vamos receber subsídio.»

Para incluir uma oração subordinada consecutiva, a oração teria de ser adaptada, de forma a incluir uma expressão graduável:

(16) «Pedimos demissão da empresa tão rapidamente que o gerente não teve reação.»

 

Convém acrescentar que as gramáticas modernas não consideram a coordenação conclusiva um tipo principal de coordenação2.

Noutro plano, refira-se que expressões como por conseguinte, por isso, portanto não são incluídas entre as conjunções coordenativas, sendo consideradas conectores conclusivos que explicitam o valor semântico do nexo3.

Assim sendo, a conjunção conclusiva prototípica é logo. A locução de modo que pode ser incluída entre as consecutivas. 

 Disponha sempre!

 

*sinaliza a agramaticalidade das frases.

1. Para um maior aprofundamento das características e tipos de consecutivas, cf. Joaquim Fonseca, "Pragmática e sintaxe -semântica das consecutivas" in Pragmática Linguística - Introdução, Teoria e Descrição do Português. Porto Editora, 1994, pp.133-195. 

2. cf., por exemplo, Mira Mateus, Gramática da Língua Portuguesa. Caminho, p. 565.

2.    Para aprofundamento desta questão, cf. Idem, ibidem, p. 569.

Carla Marques