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Bom dia!, bons dias!, bom-dia, etc.

Está correcta a utilização da expressão "bons dias"? Ou devemos usar "bom dia"? Se ambas estiverem correctas em que condições se usa uma ou outra?

Paulo Azevedo Portugal 14K

Há um certo desnorteamento na utilização do hífen, a todos os níveis, como resultado da excessiva regulamentação obrigatória e da relativa arbitrariedade com que é usado mesmo quando não obrigatório.
Ora no caso de se tratar da saudação bom dia! (desejo-lhe um bom dia!), o que nós temos é uma estrutura que, no sentido directo, é equivalente a dia bom! (desejo-lhe um dia bom); e, nesta forma, ninguém tem dúvidas de que o hífen é desnecessário.
Sabe-se que nas locuções (ex.: à vontade) se convencionou que não há necessidade de hífen. No entanto, uma coisa é a atitude, outra o nome que se lhe dá (ex.: ele ficou também à vontade com o à-vontade dela); uma coisa é a acção, outra a designação (ex.: `esta cola tapa buracos´; ele é um tapa-buracos). O nome (o substantivo) fica caracterizado pelo artigo que antecede o composto.
Com as saudações acontece coisa semelhante. Dum lado, temos as saudações bom dia!, boa tarde!, boa noite!, do outro temos o nome dessas saudações: o bom-dia, a boa-tarde, a boa-noite´, sempre com hífen (ex.: `quando lhe digo bom dia! [dia bom!] estou a ser sincero no meu bom-dia´). E o mesmo se passa para `boas festas!´ e `envio as boas-festas´, etc.
Sublinho que com este parecer não estou a estabelecer doutrina, pois me limito a seguir Rebelo Gonçalves.


P.S. — Esta resposta foi elaborada ante uma dúvida sobre o hífen na saudação bom dia! Só depois de colocado em linha este meu parecer, reparei que a dúvida do consulente Paulo Azevedo era outra. Respondo agora especificamente à sua questão.

1. Bons dias! — Na opinião expressa por Sá Nogueira e por Vasco Botelho de Amaral, esta forma de saudação é a vernácula e mais do uso do povo.
2. Bom dia! — Esta saudação terá vindo da língua francesa. O dicionário Aulete em 1861 fala do «contemporâneo bom dia». Passou a ser mais frequente na cidade.
3. — Presentemente, as duas formas são equivalentes (ex.: Dicionário recente Houaiss-port.e.).
4. — Para mim, pode haver alguma diferença na intenção ou na interpretação das duas expressões. Bons dias! terá o sentido de se desejar que tudo corra bem em todos os dias, ou, na generalidade, de se desejar felicidade sempre. Enquanto em bom dia! é-se mais modesto no desejo: `neste mundo de permanente mudança, já não é mau que o dia de hoje seja bom; o que também está de acordo com a sabedoria popular: «o amanhã a Deus pertence», e, se «não há mal que sempre dure», também «não há bem que nunca acabe»...

 

Nota (em 2017-06-28)

 

   Reparando agora nesta resposta que dei em 2004, verifico que já não penso da mesma maneira quanto à saudação bom-dia.

    Naquela altura, baseei-me no critério de Rebelo Gonçalves, que, no seu Vocabulário de 1976, recomendava, na entrada boas-festas, que se deveria «desejar boas festas», sem o hífen. Para RG, boas-festas com o hífen era um nome: «as boas-festas».

    Repare-se que bom dia é uma locução, pois é um sintagma AN com as palavras no sentido real, equivalente a “dia bom”. Será legítima, portanto, numa expressão do tipo “desejo que hoje (ou em outra altura) tenhas um bom dia (um dia bom), com tudo a correr pelo melhor”.

    Com hífen, temos uma palavra composta, e, no critério que presentemente sigo, um conjunto com hífen pode ser um composto, diferente de uma locução.

    Ora, a saudação durante a manhã não é uma locução: representa um desejo gentil de que tudo vá correr bem ao interlocutor, mas a sua validade não abrange todo o dia, pois que passado o meio-dia (hora) a saudação muda. Pode ter a intenção de ser para todo o dia, mas a verdade é que já não vale de tarde. Nem corresponde exatamente a metade do dia, pois que o ponto intermédio do “dia solar” é muito depois (quase duas horas no verão).

    Assim, a saudação em causa é um composto, uma convenção, com as palavras de facto não completamente no sentido real. Logo, em resumo e em rigor, deve escrever-se nas saudações: bom-dia!, boa-tarde!, boa-noite! (esta, no nosso caso, tendo implícita a ideia de um bom repouso também).

    Quando se foge ao esforço para sentir a língua, a tendência é para invocar o testemunho dos mestres, que nos precederam; mas, respeitando sempre o passado, é preciso não esquecer, nunca, que a língua (como a vida) «é o dia de hoje», naquilo que ela nos diz agora, ...e a olhar para o futuro, na nova geração que estamos a formar.  

Ao seu dispor,

D´Silvas Filho