Aver no lugar de ver - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Aver no lugar de ver

Exma. Sra. Dra. Edite Prada Vi hoje a sua resposta a uma pergunta sobre o verbo aver (ou avir-se?), a qual teve o condão de me "obrigar" a "levantar a pedra" que eu tinha colocado sobre a questão, para mim ainda mal resolvida, do «ter a ver/ter a haver com...». De facto, o verbo aver «também serve», e talvez melhor, para substituir o «indefensável» (apesar de tudo...) ver. Ouso, pois, solicitar-lhe que reveja os meus argumentos a favor do verbo haver, mas substituído este pelo aver. Se considerar que vale a pena, agradeço o seu comentário. Se não, ficarei com as minhas dúvidas reforçadas – mas não levarei a mal, em face do muito tempo e esforço que já se dignou despender com este assunto... De qualquer forma, obrigado pelos seus excelentes esclarecimentos no Ciberdúvidas.

Manuel Correia Bruxelas, Bélgica 5K

Permita-me, prezado consulente, que, antes de mais, o cumprimente pelas suas convicções, embora não concorde. Permita-me, igualmente, que recorde os pressupostos explicitados na resposta De novo o ter que ver /ter a ver/ter a haver, etc..., em Maio de 2003: « – A língua só existe porque há falantes que a usam e a interpretam e que fazem dela um organismo vivo em constante evolução; – O facto de eu não encontrar determinado sentido numa expressão não quer dizer que ele não exista, mas, tão-somente, que eu não sou sensível a determinadas variações que a língua permite; – O fa(c)to de eu não conhecer uma expressão não significa, igualmente, que ela não exista, corrobora apenas a certeza de que não conheço todas as potencialidades da língua que falo, – A alteração de uma estrutura acontece ao longo do tempo e deixa marcas que permitem identificar a sua evolução e reconstituir o seu percurso.» São estes os pressupostos que continuam subjacentes a esta resposta, como a outras que tenho elaborado. Permita-me, ainda, que lhe devolva uma crítica que, no mesmo texto que deu origem à resposta já citada, me endereçou. Dizia o consulente, e cito de novo, «… parece-me haver um vício de pensamento que presidiu a todo o excelente trabalho de justificação do verbo ver». Na altura, espero ter demonstrado o rigor do meu raciocínio. Vejamos porque recordo esta sua afirmação. Creio que o consulente sintetiza a sua tese em Março de 2003, em Ainda à volta do ter a ver/ter que ver/ter a haver..., quando diz: «… haver significa, em primeira linha, “ter”, para além de múltiplos outros sinónimos. Acontece que a expressão “isto nada tem a (ha)ver com aquilo” é sempre algo redundante, já que é um mero reforço da afirmação “isto nada tem com aquilo”, não merecendo dúvidas, neste último caso, o emprego do ver ter. Ora, na frase «isto nada tem a ter com aquilo», o verbo ter é utilizado exactamente no mesmo sentido as duas vezes, só que a frase soaria demasiado mal para ser utilizada. Ouso admitir que a justificação para a utilização do verbo haver passe por aqui, por um lado assim se evitando a desagradável repetição de ter e, por outro, alargando o sentido do verbo para “receber”, “colher”....» Ou seja, para o consulente, a expressão ter a ver com não deveria existir, porque é desprovida de sentido, sendo preferível no seu lugar ter a haver com. Por seu lado, ter a haver com é já um sucedâneo, pois a expressão ideal seria, segundo o consulente, ter a ter com, em que ter surgiria com o mesmo significado duas vezes, diz o consulente. Pergunto eu: qual é esse significado? Possuir? Como chega a «colher», «receber»? Que exemplos concretos de frases escritas ou ditas por alguém – hoje ou outrora; em Portugal ou noutra comunidade lusófona – tem para apresentar em defesa da sua posição? Note que nos pressupostos que enuncio admito a possibilidade de ocorrências da língua portuguesa que não conheço, e admito mesmo que o consulente tenha conhecimento de situações concretas que o levem a defender de forma tão convicta a sua posição. Todos ganharíamos se, no caso de as conhecer, as partilhasse connosco. Bom, mas mudando de rumo, porque lhe devolvo a crítica que me endereçou? Porque o consulente “tresleu”, ou seja, viu na resposta que cita «Tem de se avir comigo» + «em de se haver comigo» algo que lá não foi aflorado: o eventual verbo “aver”. Este verbo, no português do século XXI, não existe. Os vários milhares de páginas em que surge assim grafado na Internet ou se reportam a textos antigos e estamos perante a grafia, igualmente antiga, do verbo haver, ou são, como o contexto demonstra, meros erros ortográficos, potencialmente gralhas ao não introduzir um espaço – como é obrigatório no português – entre a preposição e a palavra que a segue ou a antecede. No caso presente, que a segue. Regista-se ainda um bom número de situações em que o referente é a povoação Aver-o-mar, que também ocorre como A-ver-o-mar. Não identifiquei uma única vez a forma aver com um sentido próprio, autónomo, que nos leve a admitir tratar-se de um vocábulo novo, correspondendo a uma acção (ou conceito) nova. Procurei, prezado consulente, rever – como solicitou – os seus argumentos. Espero tê-lo feito de forma adequada. Não tenho, porém, nada a acrescentar a tudo quanto sobre o assunto já escrevi, sobretudo porque o pretexto para retomarmos a questão não tem qualquer base concreta em que se apoie. Não posso, no entanto, terminar sem lhe pedir desculpa pela minha incapacidade em conseguir esclarecer as suas dúvidas.

Edite Prada
Áreas Linguísticas: Léxico; Semântica