Aportuguesamento de topónimos alemães - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Aportuguesamento de topónimos alemães

Uma vez mais recorro à ajuda do Ciberdúvidas, desta vez com dúvidas a respeito de como me comportar, como falante nativo de língua portuguesa, em relação a topônimos (especialmente alemães) para os quais não encontro formas aportuguesadas.

Vivo já faz certo tempo na Alemanha e não tenho dificuldades para pronunciar em alemão nomes de cidades que nunca vi nem ouvi no vernáculo brasileiro. Em contrapartida, durante a estadia dos meus pais, que não têm a mínima noção da fonética alemã, aqui, tenho-me sentido um pouco desconfortável quando me perguntam a que cidade vamos e tenho de lhes responder algo que muito provavelmente não vão poder assimilar nem reproduzir.

Há poucos dias fomos, por exemplo, a Bückeburg, e eu tomei a liberdade de passar isso ao português como "Buqueburgo", seguindo o princípio de München - Munique e Hamburg - Hamburgo. Desta forma, pude constatar que eles assimilaram o nome e ainda o podem repetir quando falam sobre o passeio. Porém, não sei o que fazer no caso de Altwarmbüchen, Isernhagen, Bad Harzburg e outros. Há também aquelas formas em português que são menos conhecidas (Lípsia, Estugarda etc.), e muitos falantes que conheço, embora não pronunciem bem ou não achem fáceis as formas alemãs Leipzig e Stuttgart, dão preferência a essas últimas.

Peço-lhes uma abordagem sobre o tema.

Como sempre, muito obrigado pelo seu precioso trabalho e pelas suas respostas tão atenciosas e esclarecedoras!

Gílson Celerino da Silva Filho Universitário Hanôver, Alemanha 3K

Não é fácil a abordagem que propõe, sobretudo por não haver uma regra explícita para o aportuguesamento das palavras tomadas de outras línguas. Antes de mais, há que ter em conta que uma dada palavra pode entrar por influência de outra língua que não a da palavra original, trazendo, assim, influências dessa língua que se vão reflectir na pronúncia.

De uma forma geral, e tendo em conta o comportamento mais recente, há palavras estrangeiras que se mantêm, durante muito tempo, como estrangeirismos, e outras que são facilmente adaptadas à língua portuguesa, transformando-se em empréstimos. Nestas situações, a tendência é adaptar quer a grafia, quer o som, aproximando-os do que é comum no léxico português. Este é, digamos assim, o comportamento face ao vocabulário comum. No caso dos topónimos, o processo poderá ser idêntico, havendo lugares cujo nome já está adaptado para o português, e outros que permanecem com pronúncia relativamente próxima da original, obedecendo, também, à grafia do país de origem. Claro que, muitas vezes, mesmo involuntariamente, o falante se distancia da pronúncia original, transmitindo-lhe algumas características prosódicas do português.

A situação concreta que descreve, por exemplo, no caso de Bückeburg/Buqueburgo ilustra uma situação de fácil resolução, digamos assim. Os restantes exemplos parecem-me mais complexos. Não lhes encontrei adaptação já elaborada, mas, se forem nomes muito pronunciados por  falantes de português, com o tempo, poder-se-á chegar a uma versão prosódica intermédia. Em Portugal, e em situações destas, optar-se-ia por indicar o nome com a pronúncia próxima, para não dizer idêntica, à original. Já no Brasil, dada a natural criatividade linguística dos brasileiros, que adaptam os vocábulos estrangeiros com mais naturalidade do que os portugueses, poderia surgir uma solução intermédia.

Em Portugal, para nomes e lugares estrangeiros recentemente entrados e ainda não aportuguesados, a recomendação é a de respeitar, o mais possível, a pronúncia e a prosódia de origem, o que, valha a verdade, nem sempre é fácil.

Edite Prada
Áreas Linguísticas: Fonética; Léxico