DÚVIDAS

Anáfora e paralelismo no "Sermão de Santo António aos Peixes"
 No contexto da análise do "Sermão de Santo António", surgiu uma dúvida, pelo que agradecia a vossa preciosa ajuda e esclarecimento. No segmento «Quantos correndo Fortuna na Nau Soberba com as velas inchadas do vento, e da mesma soberba (que também é vento) se iam desfazer nos baixos, que já rebentavam por proa, se a língua de António como Rémora não tivesse mão no leme, até que as velas se amainassem, como mandava a razão, e cessasse a tempestade de fora, e a de dentro? Quantos embarcados na Nau Vingança ..., até que composta a ira ...», a anáfora está presente, de forma evidente, em «Quantos». A dúvida remete para o facto de também poder ser considerada no segmento «até que». Ou será antes paralelismo sintático ou anafórico? Muito obrigada!
Carta de prego e tradução de La Fontaine
Estou a traduzir os contos em versos de Jean de La Fontaine. No conto "Le villageois qui cherche son veau", pode-se ler: Sans dire quoi : car c'étaient lettres closes. Em língua francesa, «(être) lettre close» é uma expressão arcaica que designa um texto ou uma coisa impenetrável, incompreensível. Gostaria de saber, por favor, se há alguma expressão em português antigo ou moderno que se refira a algo abstruso, hermético, impenetrável? Antecipadamente grata.
«De modo que» e «de forma que»
Num trabalho para a faculdade, corrigiram-me quando usei a expressão «de modo» para «de forma». Isto deixou-me incomodado, e na altura várias pessoas disseram-me que a correção não fazia sentido, pois podem ser usadas para o mesmo objetivo. Até que uma me disse que a expressão «de forma» é mais correta «do ponto de vista académico». No entanto, também já vi na Internet pessoas a dizerem o oposto, que «de modo» até é mais formal. Então decidi vir aqui perguntar: as expressões «de modo» e «de forma» são usadas como sinónimos? Se sim, há alguma mais correta/formal do que outra? Obrigado a quem tiver tempo de responder a esta questão, que é motivo de debate no meu grupo de amigos.
Barba-cara ou «barba cara» (Cabo Verde)
Não logrei encontrar a expressão “barba-cara” (com ou sem hífen) em nenhum dicionário. Contudo, a expressão aparece, no sentido de «com desfaçatez», em diversas passagens de livros e artigos. Porém, todos os textos que pude encontrar, incluindo esta expressão, são cabo-verdianos, pelo que gostaria de perguntar se tem, efetivamente, origem cabo-verdiana ou se a posso utilizar numa tradução para português europeu, nestes moldes: «Estás a dizer isso na minha barba cara?», i.e., «tens o descaramento de me dizeres isso»?
«Os que» (elipse) e «o que» (locução pronominal)
Depois de ter feito uma pesquisa no vosso site, gostaria de saber se estou a analisar corretamente, em termos oracionais e sintáticos, as seguintes frases complexas com a presença das expressões «o que» e «os que»: 1) «Estava calor, o que me transtornou.» Oração subordinante: «Estava calor.» Oração subordinada adjetiva relativa explicativa: «o que me transtornou», constituinte que exerce a função sintática de modificador apositivo da oração matriz. Quanto à análise sintática da oração subordinada: «o que» é sujeito e «me» é complemento direto. 2) «Façam o que mandei.» Oração subordinante: «Façam.» Oração subordinada substantiva relativa sem antecedente: «o que mandei», constituinte que desempenha a função sintática de complemento direto. Quanto à análise sintática da subordinada: «o que» é complemento direto do verbo mandar. 3) «Resolvam os que estão na página trinta» («Resolvam os [exercícios] que estão na página trinta»). Oração subordinante: «Resolvam os [exercícios]» Oração subordinada adjetiva relativa restritiva: «que estão na página trinta», constituinte que exerce a função sintática de modificador restritivo do nome [do nome exercícios]. Por seu turno, o constituinte «os que estão na página trinta» exerce a função sintática de complemento direto da matriz. Quanto à análise sintática da subordinada: «que» é sujeito, e «na página trinta», predicativo do sujeito. 4) «Os exercícios para resolver são os que estão na página trinta» Oração subordinante: «os exercícios são os» Oração subordinada relativa restritiva: «para resolver», com a função de modificador restritivo do nome (ou será uma completiva com função de complemento do nome?). Oração subordinada relativa restritiva: «que estão na página trinta», com a função de modificador restritivo do nome. Por seu turno, o constituinte «os que estão na página trinta» exerce a função sintática de predicativo do sujeito. Quanto à análise sintática da última oração subordinada: «que» é sujeito e «na página trinta» predicativo do sujeito A minha dúvida nas frases 3 e 4 é se o predicativo do sujeito [«os que estão na página 30»] não constituirá como um todo uma oração substantiva relativa, sendo a subordinante apenas até ao verbo ser. Isto gera certa estranheza: se a partícula os fizer parte da subordinante (pois a subordinada restritiva inicia-se apenas com que) soa estranho a subordinante ser «Resolvam os». Por outro lado, se «os que estão na página trinta» funcionar como substantiva relativa teríamos uma adjetiva restritiva («que estão na página trinta») encaixada na subordinada substantiva relativa, mas apenas com um verbo para as duas subordinadas («estão»), o que também parece estranho. Peço por isso a vossa ajuda para resolver este dilema, pois sempre tive dificuldades em classificar orações com a presença de «os que» ou de «o que». Votos de bom trabalho.
ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-Instituto Universitário de LisboaISCTE-Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa