DÚVIDAS

As variantes cetro e ceptro
No fim do período de transição comecei a usar o Acordo Ortográfico de 1990 e, até hoje, que me lembre, no que se refere a consoantes mudas, só tive uma forte discordância com o estabelecido no Acordo: foi a palavra ceptro, em que eu sempre pronunciei o pê e sempre ouvi pronunciar o pê. É claro também que a palavra ceptro é uma palavra sobretudo escrita e muito pouco dita. Ou seja, encontra-se em livros, jornais e revistas, mas usa-se pouco na oralidade. Lembro-me de que a aprendi com o Tintin em O Ceptro de Ottokar. Em 20 de dezembro, a propósito da conquista do Mundial pela Argentina, ouvi na CNN a palavra ceptro com o pê bem pronunciado em: «Messi pegou no ceptro», para significar «a taça», ou algo assim. Creio que, de acordo com as transcrições fonéticas constantes nalguns dicionários, o pê não é pronunciado mas, francamente, e de forma impressiva, acho que é. Já fiz o teste com vários amigos e a opinião largamente generalizada é a de pronúncia do pê. Num universo de umas 12 pessoas, a percentagem deve andar nos 80% a pronunciarem o pê contra 20% a não o pronunciarem. É possível também que, justamente por ser uma palavra mais escrita que dita, possa ter havido alguma corruptela oral da prolação. Podem esclarecer? Obrigado.
Sobre a sequência «tu sois» (Nordeste, Brasil)
Estava a escutar uma música da Dona Agrestina, mazuca e tudo mais, e notei que numa parte o cantor diz «tu sois preguiçosa». É possivel que no Nordeste tenha existido, seja lá por quanto tempo, o pronome vós que os estudiosos dizem já não ter vindo ao Brasil (e sim o vosmecê e variáveis)? Ou terão vindo para o Nordeste portugueses que já confundiam a conjugação da segunda pessoa do plural com a da segunda do singular? Há outros exemplos desse fenômeno ou é só esse caso do verbo ser (sois)?
Como se pronuncia apodo?
Carvalho Costa, em "Gentílicos e Apodos Tópicos de Portugal Continental", 1973, p. 275, transcreve do "Grande Dicionário de Dificuldades e Subtilezas do Idioma Português", de Vasco Botelho de Amaral: «Apodo: (...) pronuncia-se modelarmente -pó- e não -pô-, tanto no substantivo como no homónimo verbal apodo (...).» Todavia, se consultarmos, por exemplo, o "Vocabulário Ortográfico Resumido da Língua Portuguesa", da Academia das Ciências de Lisboa, 1970, vemos que grafa "apodo (ô)". Como se pronuncia, afinal, o substantivo (que não a forma verbal de apodar): "pô" ou "pó"?
A linguística é laica?
Quando nos referimos a Deus, utilizamos frequentemente maiúsculas, não só quando utilizamos um substantivo próprio ou comum, mas também nos pronomes pessoais que Lhe fazem referência. Porquê? Utilizamos Deus e não deus porque Deus é o nome próprio de Deus, ou simplesmente por respeito e temor? Se for claro que o nome próprio de Deus não é Deus mas, digamos YHWH, como afirma o Catecismo da Igreja Católica, deveremos grafar Deus ou deus? O hábito de utilizar maiúsculas quando falamos Dele, aplica-se só ao Deus judaico-cristão, ou a todas as outras divindades? Se admitirmos que o nome de Deus é YHWH, devemos escrever assim mesmo com tudo em maiúsculas, ou Yhwh? A linguística é laica? PS: Perdoem-me a provocação da última questão. Creio que as questões que coloco são reais. Mas, evidentemente, sempre se pode pôr um pouco de humor naquilo que se faz.
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