DÚVIDAS

Análise de «Soas-me na alma distante» (Fernando Pessoa)
Ontem estive a reler o belo poema de Fernando Pessoa “Sino da minha aldeia” e deparei-me com uma frase que me deixou dúvidas quanto à sua análise sintática, pelo que peço a vossa ajuda. A frase em questão é: «Soas-me na alma distante» (referindo-se o poeta ao sino) Ora, parece-me que o constituinte «distante» predica o sujeito («o sino», sujeito subentendido), sendo por isso predicativo do sujeito (embora tenha dúvidas sobre o verbo soar: será copulativo? Por exemplo, em construções como «soou-me mal», parece que mal qualifica a forma como soou, e não o próprio sujeito. mas a verdade é que no caso em apreço o constituinte distante é um adjetivo…) Quanto ao constituinte «na alma» questiono se será complemento oblíquo ou modificador do verbo. E quanto a «me», seria complemento indireto ou apenas um dativo de interesse (equivalente a «para mim»)? O verso em causa é precedido de outro verso que importaria ter em conta: «És para mim como um sonho.» Aqui penso que «como um sonho» desempenha também a função sintática de predicativo do sujeito. E este «para mim» parece afigurar-se como dativo de opinião ou ético/de interesse, como em «Ele era-nos muito querido», embora o Ciberdúvidas, neste caso, admita que numa versão simplificada seria complemento indireto. Ora, na sequência, «Soas-me distante» equivaleria a «Para mim, soas distante», o que levante essa hipótese do dativo. O mesmo poema termina com duas frases que me parecem ter também uma estrutura predicativa (neste caso transitivo-predicativa), do tipo verbo + complemento direto + predicativo do complemento direto: «Sinto mais longe o passado / Sinto a saudade mais perto.» Agradeço desde já a vossa ajuda na clarificação destas funções sintáticas. Muito obrigado e mais uma vez parabéns ao Ciberdúvidas pelo excelente trabalho.
Passiva sintética em locuções verbais com preposição intermédia
É possível a transposição da voz passiva analítica para sintética em locuções verbais com preposição intermediária? Isso pode ser feito em locuções verbais sem preposição intermedária, contanto que o verbo + se não forme um outro, em que essa partícula seja integrante dele; consequentemente, é possível rescreever «Os deveres devem ser feitos» como «Os deveres devem fazer-se», e então como «Os deveres devem-se fazer», mas não «Eles devem ser amados» como «Eles devem amar-se», uma vez que o sentido se altera. Logo, minha dúvida é se existe essa possibilidade para locuções verbais como «ter de ser feito» e «gostar de ser bonificado», exemplificadas em «Os deveres têm de ser feitos até amanhã» e «Os alunos gostam de ser bonificados», mesmo que sem merecimento; ou seja, é possível reescrever a primeira oração como «Os deveres têm de se fazer até amanhã» (ou «Os deveres têm de se fazerem até amanhã»)? e a segunda como «Os alunos gostam de se bonificar, mesmo que sem merecimento» (ou «Os alunos gostam de se bonificarem, mesmo que sem merecimento»)? Agradeço a atenção.
Contexto, enunciado e modalidade
Antes de mais, congratulo-vos por este projeto. Gostaria que me esclarecessem quanto à modalidade e ao respetivo valor das frases abaixo, uma vez que não me parecem veicular uma ideia de obrigação, mas antes de certeza e de convicção do locutor. Ainda assim, na segunda afirmação, poderá transparecer um dever de consciência cultural, isto é, uma obrigação moral de respeito pelo legado literário de Almeida Garrett. 1.ª «É como não podermos fazer terra plana ali em Belém sobre a Torre de Belém»; 2.ª «[Há assim uns marcos da chamada escrita para teatro em português] mas não podemos pôr de fora Almeida Garrett». Muito obrigada pela vossa disponibilidade.
O verbo acertar, novamente
 Li com atenção a dúvida de um consulente e a respetiva resposta do Ciberdúvidas sobre a regência do verbo acertar, quando este é utilizado no sentido de «atingir». Ora, a verdade é que fiquei pouco esclarecido. Vejamos, o consulente dá um exemplo de Camilo: «O poeta Sarmento chamava-lhe cintura à prova de fogo, porque não havia bala que lhe acertasse.» Daqui podemos inferir a seguinte estrutura da frase com o verbo acertar: «A bala acertou-lhe.» O constituinte «a bala» seria sujeito e o constituinte «lhe» provavelmente complemento oblíquo («a bala acertou no João»), pois há casos em que o pronome lhe não exerce a função de complemento indireto (como em «mexeu-lhe»). Mas na resposta é dado um exemplo em que se inverte a estrutura do verbo acertar. Diz o Ciberdúvidas: «O lutador acertou um soco no peito do rival.» Aqui assume-se «um soco» como complemento direto. Esta construção causa-me alguma estranheza. Se fosse com o verbo desferir, não se colocaria a dúvida: «O lutador desferiu um soco no peito do adversário.» Não me parece que, no caso do verbo acertar, «um soco» deva estar na posição de complemento direto, algo que se pode atestar fazendo a transposição da frase ativa para a forma passiva: «Um soco foi acertado pelo lutador (??)/ Um soco foi desferido pelo lutador.» O segundo caso é perfeitamente gramatical, o primeiro caso é no mínimo estranho. Daí que me pareça mais gramatical uma construção do tipo: «O soco [desferido pelo lutador] acertou no peito do rival.» (A bala acertou-lhe/ o soco acertou-lhe) Não me parece também fiável comparar a regência do verbo acertar com a regência do verbo atingir. Parece-me claro que o verbo atingir seleciona um complemento direto (o alvo) enquanto o verbo acertar, neste sentido de atingir, relaciona-se sintaticamente de forma diferente com o alvo (complemento oblíquo). Claro que utilizado noutro sentido o verbo acertar pode selecionar complemento direto («acertar as horas/o relógio»). Assim, vejo pelo menos três possibilidades para a regência do verbo acertar: 1) O lutador acertou com um soco no peito do rival. Nesta hipótese o verbo acertar seleciona um sujeito (o lutador - aquele que desencadeia a ação), um meio/projétil (seta/soco/bala/pedra/bola – neste caso «com um soco», a minha dúvida aqui é se seria complemento oblíquo ou modificador do grupo verbal) e um alvo («no peito do rival» – complemento oblíquo substituível por lhe). 2) A bala acertou-lhe no peito. Nesta hipótese o sujeito selecionado pelo verbo acertar é o próprio projétil/meio (bala/bola/soco), sendo este lhe um dativo de posse (acertou no peito do João) e é selecionado igualmente um alvo («o peito») como complemento oblíquo. 3) A bala acertou-lhe. Nesta hipótese o sujeito selecionado pelo verbo é igualmente o projétil/meio, sendo o alvo o complemento oblíquo (acertou no João). Resumindo, o que me causa estranheza é a gramaticalidade da frase «O lutador acertou um soco no peito do rival» ou «ele acertou um seta no alvo» ou «o jogador acertou a bola na trave». E o principal motivo de estranheza é a questionável gramaticalidade da voz passiva [«Uma seta foi acertada no alvo» (???)]. Talvez haja outros casos de verbos transitivos diretos em que ocorra a mesma estranheza na voz passiva, mas penso que sejam raros. [Por exemplo «O João pregou um susto ao Rui»/ «Um susto foi pregado pelo João ao Rui(??)»; «Ele apanhou uma bebedeira»/«Uma bebedeira foi apanhada por ele»(???)] Mais uma vez parabéns pelo vosso site e pelo serviço público que disponibilizam.
Conjugação verbal e verbos auxiliares
Vejo sempre em livros o ensino de conjugação dos tempos composto com o auxílio do verbo ter . Ex.: «Tenho estudado bastante.» Nunca vi, todavia, exemplos com o verbo vir , apenas na linguagem falada do dia a dia. Ex.: «Venho estudando bastante nos últimos dias.» Assim, gostaria de saber se esta última construção é abrangida pela norma culta ou é fruto de coloquialismo. Desde já agradeço pelo apoio de sempre!
Infinitivo pessoal e o pronome o
No que concerne ao infinitivo pessoal (ex.: para eu pô-lo..., para tu pore-lo...), a norma culta preconiza a ênclise como regra ou a colocação é facultativa quando o pronome é o acusativo "o" (e suas variantes lo/no)? Em construções como «para eu o fazer» ou «para eu fazê-lo», existe alguma preferência entre o português europeu e o brasileiro, ou alguma restrição sintática que torne uma das formas menos recomendável? Obrigado.
ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-Instituto Universitário de LisboaISCTE-Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa