Maria Regina Rocha - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
 
Textos publicados pela autora

Pergunta:

Onde se coloca o sujeito em orações com o gerúndio perfeito? Pode ficar entre, antes ou depois das formas verbais? Obedece a alguma regra?

Resposta:

O gerúndio composto ou gerúndio pretérito é formado com o gerúndio do auxiliar ter (ou haver) e o particípio passado do verbo que se pretende conjugar, ou seja, o verbo principal: «tendo cantado», «tendo vendido», «tendo partido». O gerúndio composto utiliza-se muitas vezes sem o sujeito expresso junto. Exemplos: «tendo falado com os meus pais, resolvi comprar o terreno»; «tendo ouvido aquele relato, toda a gente se assustou». Quando se pretende utilizar o sujeito do gerúndio, normalmente ele fica colocado entre o auxiliar e o verbo principal: «tendo eu feito todo o trabalho difícil, foi ela quem ficou com os louros», «tendo eles cantado tão bem, era lógico que toda a gente os aplaudisse». Pode acontecer que o sujeito seja colocado após o verbo principal, mas são casos menos frequentes, em que se pretende algum tipo de realce: «tendo feito eu tudo isto, ninguém o reconhece».

     Em declarações1 ao enviado da RTP-1 que acompanha a visita do Presidente da República português à Índia, Cavaco Silva, falando em Goa, referiu-se à flexissegurança (o conceito de mobilidade do mercado de trabalho sem desproteger os trabalhadores), tendo aquela palavra aparecido escrita em legenda da seguinte forma:fexis...

«A economia portuguesa ainda funciona de uma forma tradicional (…); são empregos de âmbito tradicional e não vão de encontro às novas licenciaturas».

Fátima Campos Ferreira, a apresentadora do programa “Prós e Contras” da RTP-1 (8 de Janeiro de 2007), ainda confunde o inconfundível: de encontro a significa «contra» («Ele foi de encontro à parede»), enquanto ao encontro de significa «em consonância com», «de acordo com» («a proposta veio ao encontro dos meus desejos (...)

No programa Dança Comigo da RTP1 de Domingo, 31 de Dezembro de 2006, a apresentadora, Catarina Furtado, referiu-se assim à dança espanhola "paso doble": «Embora os mais conhecidos "paso dobles" sejam os de temática tourina, a verdade é que também existem outros tipos de "paso doble": os marcha, os de concerto e os regionais.»

(...)

Pergunta:

Ao ouvir, há dias, o animador de serviço na Rádio Comercial (creio que era o Diogo Beja), ouvi referir qualquer coisa acerca de prendas de Natal, que logo foi corrigida com esta frase, perante a minha estupefacção: «Não, não se diz prendas; presentes.» Daí em diante só se falou em presentes. A minha dúvida é só uma: qual é a regra linguística que determina que não se diz «prendas»? Ou foi o locutor que inventou essa? Ou será uma daquelas parvoíces, tão em voga na sociedade portuguesa, que alguns supostamente bem postos e muito socialmente correctos (tipo Paula Bobone), de vez em quando resolvem lançar como moda para toda a gente ir atrás, como um rebanho, sem sequer saber porque o fazem?

Resposta:

Os termos presente e prenda usam-se indistintamente com o significado de oferta, mas há, efectivamente, uma certa diferença entre eles. Com a palavra presente queremos dizer que a nossa oferta é símbolo da nossa presença. Por meio da oferta dizemos que estamos presentes. E a verdade é que, quando nos ausentamos, o objecto que oferecemos faz com que sejamos lembrados, faz perdurar a nossa presença junto de quem o recebeu. Presente é um substantivo formado do adjectivo presente (do latim ‘praesente-‘). Com a palavra prenda queremos dizer que entregamos à pessoa algo que faz com que ela fique de algum modo mais enriquecida, possuidora de algo com valor (não forçosamente material) e ainda que nos sentimos penhorados, que aquilo que oferecemos é uma garantia do nosso carinho, da nossa amizade, ou mesmo do nosso agradecimento, ou que é uma recompensa, um prémio. Esta palavra provém do latim ‘pignora-’ (= refém).