Pergunta:
Tenho uma expressão curiosa que me tem afligido durante uns tempos e que é repetida vezes sem conta por todo o lado. Por exemplo, tenham em atenção as seguintes expressões:
«Não vem nenhum...»
«Não há nada...»
«Não fiz nada...»
Ora, estas expressões, tão vulgarizadas, querem dizer exactamente o oposto para o qual são usadas! Ou seja, são negações de negações:
«Não vem nenhum» quer dizer que vêm todos!
«Não há nada», que existe tudo!
«Não fiz nada», que fiz tudo!
As expressões correctas deveriam ser, por exemplo, «Não vem algum» ou «Não fiz algum» ou «Não fiz tudo».
O que têm para me dizer acerca disto?
Muito obrigado pela vossa atenção.
Resposta:
As expressões que refere criticamente estão correctas. Efectivamente, uma das características sintácticas da língua portuguesa é a da dupla negação quando o constituinte negado ocorre em posição pós-verbal.
Exemplos:
(1) «Isso não tem nenhum interesse.»
(2) «Não tenho nenhum disco desse cançonetista.»
(3) «Ele não fez nada para merecer tal distinção.»
(4) «Ela não quer ver ninguém.»
Acresce que no português arcaico se empregavam as construções «nem… não», «ninguém… não», «nenhum… não».
A dupla negação também existe noutras línguas românicas como, por exemplo, o espanhol e o francês.