Maria Regina Rocha - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
 
Textos publicados pela autora

Pergunta:

Tenho uma expressão curiosa que me tem afligido durante uns tempos e que é repetida vezes sem conta por todo o lado. Por exemplo, tenham em atenção as seguintes expressões:

«Não vem nenhum...»
«Não há nada...»
«Não fiz nada...»

Ora, estas expressões, tão vulgarizadas, querem dizer exactamente o oposto para o qual são usadas! Ou seja, são negações de negações:

«Não vem nenhum» quer dizer que vêm todos!
«Não há nada», que existe tudo!
«Não fiz nada», que fiz tudo!

As expressões correctas deveriam ser, por exemplo, «Não vem algum» ou «Não fiz algum» ou «Não fiz tudo».

O que têm para me dizer acerca disto?

Muito obrigado pela vossa atenção.

Resposta:

 As expressões que refere criticamente estão correctas. Efectivamente, uma das características sintácticas da língua portuguesa é a da dupla negação quando o constituinte negado ocorre em posição pós-verbal.

Exemplos:
(1) «Isso não tem nenhum interesse.»
(2) «Não tenho nenhum disco desse cançonetista.»
(3) «Ele não fez nada para merecer tal distinção.»
(4) «Ela não quer ver ninguém.»

Acresce que no português arcaico se empregavam as construções «nem… não», «ninguém… não», «nenhum… não».

A dupla negação também existe noutras línguas românicas como, por exemplo, o espanhol e o francês.

Pergunta:

Gostaria que referissem as situações em que a locução conjuncional «de modo que» está presente (locução conjuncional final ou/e consecutiva), bem como as diferenças entre «de modo que», «de tal modo que» e «de modo a (?) que». Obrigada.

Resposta:

«De modo que» é uma locução que significa «de forma que», «de sorte que», «de maneira que»; «assim», «pois», «nessa conformidade».

Exemplos:
(1) «Ele falou em voz alta, de modo que fosse ouvido por todos.»
(2) «O Francisco não veio, de modo que tive de pôr pernas a caminho para resolver a situação.»

A locução «de tal modo que» é utilizada apenas para exprimir a ideia de consequência. É formada pela conjunção consecutiva que precedida de «de tal modo».

Exemplos:

(3) «Ele falou de tal modo, que todos ficaram impressionados.»
(4) «De tal modo ela dança, que encanta toda a gente.»

Quanto à locução «de modo a que» — não aconselhada —, trata-se do cruzamento entre o galicismo "de modo a" e a locução portuguesa «de modo que». "De modo a" é uma adaptação do francês de manière à.

O recorrente tropeção em dignatários assinalado neste apontamento da professora Maria Regina Rocha, a prpósito do que se ouviu numa entrevista ao primeiro canal da televisão pública portuguesa. 

Pergunta:

 "Maudit soit qui mal y pense!" Qual o significado desta expressão francesa?

Resposta:

Esta expressão francesa significa: «Maldito seja quem pensa mal a esse respeito!»; «Maldito seja quem põe maldade nessa atitude!»

No entanto, penso que o nosso consulente talvez se queira referir à frase "Honni soit qui mal y pense!", que é a divisa da Ordem da Jarreteira e que significa: «Envergonhe-se quem pensa mal disto!»; «Seja desprezado quem pensa mal a este respeito!»; «Maldito seja quem põe maldade onde ela não existe!» Esta expressão é hoje normalmente utilizada para prevenir, muitas vezes de forma irónica, as críticas daqueles que estejam tentados a ver o mal nas propostas ou nos actos mais honestos.

Esta expressão, como acima dito, é a divisa da Ordem da Jarreteira, uma ordem militar instituída em Inglaterra no século XIV e que tem como insígnia uma liga (ou seja, uma jarreteira). É obscura a origem desta divisa, existindo, no entanto, uma lenda em que se conta que, por ocasião de um baile, caiu a liga à condessa de Salisbury, dama da corte de Eduardo III, e que o rei rapidamente se baixou para a apanhar e lha entregar, tendo isto dado motivo a riso e graças por parte dos presentes, o que terá levado o rei a exclamar: "Honni soit qui mal y pense!"

Pergunta:

Tenho uma dúvida relativamente ao plural de mapa síntese, que penso que é mapas síntese, mas preciso de uma confirmação por especialistas na matéria. Podem ajudar-me? Obrigada.

Resposta:

O plural de mapa síntese é, como bem disse, mapas síntese. Trata-se de um termo composto por dois substantivos, em que o segundo especifica o primeiro. Assim, só o primeiro é que vai para o plural.

Num termo constituído por dois substantivos, em que o segundo constituinte, dependente do primeiro, especifica ou indica a função ou o tipo do primeiro, o segundo constituinte não flexiona. É um caso idêntico, por exemplo, a homem aranha (homens aranha) ou a personagem-tipo (personagens-tipo).