Filipe Carvalho - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
Filipe Carvalho
Filipe Carvalho
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Mestre em Teoria da Literatura (2003) e licenciado em Estudos Portugueses (1993). Professor de língua portuguesa, latina, francesa e inglesa em várias escolas oficiais, profissionais e particulares dos ensinos básico, secundário e universitário. Formador de Formadores (1994), organizou e ministrou vários cursos, tanto em regime presencial, como semipresencial (B-learning) e à distância (E-learning). Supervisor de formação e responsável por plataforma contendo 80 cursos profissionais.

 
Textos publicados pelo autor

Pergunta:

Precisava saber qual o recurso expressivo presente nas seguintes frases:

1 – «Das naus as velas côncavas inchando.»

2 – «A ver os berços onde nasce o dia.»

3 – «Eternos moradores do reluzente.»

Resposta:

«Das naus as velas côncavas inchando» – trata-se de uma anástrofe, pois «a anástrofe consiste na colocação do complemento do nome antes do nome ou do complemento direto antes do verbo» [Figueiredo, Eunice Barbieri & Figueiredo, Olívia Maria (1998). Itinerário Gramatical. Porto. Porto Editora, p. 160].

«A ver os berços onde nasce o dia» – será de uma metáfora, uma vez que se compara o nascimento do dia ao nascimento de uma criança e, daí, se apresentar o termo berços [«Na metáfora, a comparação não se faz através de partícula comparativa; há como que uma associação ou sobreposição do nome de duas coisas ou de duas ideias diferentes, mas entre as quais há certas semelhanças. É, por assim dizer, uma comparação abreviada.l» In Ferreira, A. Gomes & Figueiredo, J. Nunes. (s.d.). Compêndio de Gramática Portuguesa. Porto. Porto Editora, p. 85].

«Eternos moradores do reluzente» – considera-se uma perífrase, porque se utiliza um conjunto de termos para se referir aos deuses do Olimpo [«normalmente acompanhada de outras figuras de estilo, como a metáfora e a antonomásia – que emprega várias palavras ou expressões para designar o que poderia ser nomeado por poucas ou apenas uma.» In Barros, Vítor Fernando (2011). Gramática da Língua Portuguesa. Âncora Editora, p. 288].

Pergunta:

Gostaria que alguém me ajudasse na análise da figura de estilo presente no 2.º verso do último terceto do poema Prefiro rosas, meu amor, à Pátria, de Ricardo Reis. Aqui deixo o terceto:

«Nada, salvo o desejo de indif’rença

E a confiança mole 

Na hora fugitiva.»

Agradeço desde já toda a ajuda que me puder ser dada!

Resposta:

No verso «E a confiança mole», há a junção de um adjetivo cujo significado normalmente não deveria estar associado ao substantivo apresentado. A confiança é um conceito subjetivo, pode ser interpretado de forma diversa por pessoas diferentes. Por isso é que na antiga terminologia gramatical tinha a designação de substantivo abstrato. O termo «mole» tem um significado que remete para a ideia de sentidos: sabemos que algo é mole quando lhe tocamos. O substantivo de valor abstrato, com interpretação subjetiva, aparece associado a um adjetivo que pertence ao campo semântico dos sentidos. A confiança pode ser abalada, pode não ser grande, mas se for mole, remete para o significado de «fraca», ou seja, para a falta de confiança. Assim, juntar um adjetivo qualificativo que tem um valor específico e que, normalmente, não se associa a um substantivo abstrato, pertencendo, ambos, a campos de significado diferentes, existindo uma transgressão das fronteiras semânticas, contribuindo para a polissemia semântica de expressões, para o aprofundamento da mensagem poética ou literária, para a exigência do exercício intelectual  por parte do leitor, é a função da hipálage**.

* Hipálage «consiste na transferência de características de uma realidade para outra realidade com a qual está relacionada», in Barros, Vítor Fernando. (2011). Gramática da Língua Portuguesa. Lisboa. Âncora Editora, p. 284.

** «Fumar um pensativo cigarro» é uma hipálage, pois o adjetivo «pensativo» remete para o estado de espírito da pessoa que fuma o cigarro, e não para o cigarro, assim como «mole» remete para outro contexto, e não para «confiança». Na verdade, também poderia ser uma metáfora, pois o argumento apresentado em cima pode ser sem...

Pergunta:

Na expressão «aristocrático pessimismo», qual é o valor do adjetivo?

Resposta:

O adjetivo aristocrático qualifica o substantivo pessimismo. Quererá o enunciador dizer, no contexto em que a expressão foi veiculada, que o pessimismo tem inerentes características snobs ou que há um certo pessimismo característico das pessoas que pertencem a este grupo social.

Pergunta:

Há alguma informação sobre a palavra "namorido" no tocante à sua integração oficial à língua portuguesa?

Resposta:

O termo só se encontra dicionarizado no Brasil. Em Portugal, nos dicionários consultados, não o encontrámos. No país da América do Sul, o vocábulo significa uma «relação não formalizada, mas estável, entre homem e mulher», resultando do caldeamento das palavras namorado e marido. Neste prisma, parece ser um neologismo recente e referente a uma determinada região, não podendo ser considerada, por agora, a sua integração oficial na língua portuguesa.

Pergunta:

Gostava de saber se é possível utilizar o termo reequilibrante em português, p. ex., "Gel de duche esfoliante e reequilibrante". Cumprimentos. 

Resposta:

Apesar de não se encontrar o termo nos dicionários pesquisados, é legítimo utilizar este vocábulo, uma vez que o prefixo re- significa «ação repetida» (Priberam). Assim, reequilibrar significará «voltar a equilibrar», e reequilibrante será o particípio presente deste verbo com valor adjetival. O termo surge em vários anúncios publicitários.