Filipe Carvalho - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
Filipe Carvalho
Filipe Carvalho
25K

Mestre em Teoria da Literatura (2003) e licenciado em Estudos Portugueses (1993). Professor de língua portuguesa, latina, francesa e inglesa em várias escolas oficiais, profissionais e particulares dos ensinos básico, secundário e universitário. Formador de Formadores (1994), organizou e ministrou vários cursos, tanto em regime presencial, como semipresencial (B-learning) e à distância (E-learning). Supervisor de formação e responsável por plataforma contendo 80 cursos profissionais.

 
Textos publicados pelo autor

Pergunta:

Estudo o folclore há cerca de 50 anos, e durante 35 fiz a pesquisa etnocultural da freguesia de Montargil, que por alguns especialistas é considerada uma referência na região. E o que é para nós, folcloristas e etnógrafos, o folclore? Digamos que a expressão de todas as vivências das gentes de antigamente quando ainda não eram influenciadas por diferentes maneiras de ser e de estar. Mas todos conhecemos expressões como «não ligues, que isso não passa de folclore», o que a Sociedade da Língua Portuguesa diz só se poder admitir a pessoas analfabetas ou de pouca cultura. Acontece ainda que em Portugal é marcante o desconhecimento sobre a matéria. Mas o que eu agradeço, antes que volte ao vosso contacto – os vossos esclarecimentos são importantes! –, é que me digam o que entendem como folclore.

Obrigado.

Resposta:

O que se entende por folclore, numa forma sintética e direta, pode ser observado no que está dicionarizado. É uma palavra que tem origem no inglês, significando folk, «povo», e lore, «conhecimento». Folclore será o «conjunto das tradições, lendas ou crenças populares de um país ou de uma região expressas em danças, provérbios, contos ou canções» (Priberam). Não obstante, a definição do vocábulo e do que representa é motivo de definições várias e bem mais extensas. Compreende-se que um amante do folclore, que dedicou tantos e longos anos ao seu estudo, se sinta melindrado quando ouve ou vê registada a expressão «não ligues, que isso não passa de folclore». A sabedoria popular assenta numa dupla vertente composta por experiências feitas, em que os provérbios são um exemplo bem esclarecedor e enriquecedor, e na interpretação fácil e superficial de certos aspetos ou eventos. Neste último caso, há uma interpretação à rama de uma referência cultural muito interessante e profunda como é o folclore. As observações são feitas à superfície, e as danças e cantares são assimilados como meras expressões de recreio e divertimento ruidoso. Daí a expressão utilizada querendo significar que os assuntos mais sérios são dignos de reflexão, e os outros são folclore. No entanto, a cultura de um povo é algo de inestimável riqueza, e o folclore dá um contributo importantíssimo nesse sentido.

Pergunta:

Numa sequência de advérbios de modo, em que os primeiros são abreviados, sem utilização da terminação -mente, a concordância deve ser feita com o sujeito?

«O João chegou lenta e pausadamente», ou «O João chegou lento e pausadamente»?

E no caso de sujeitos omissos?

«Trabalhámos árdua e longamente para atingir os objetivos», ou «Trabalhámos árduo e longamente para atingir os objetivos»?

Por último, no caso anterior, a palavra árdua deve ser grafada com acento, ou não, já que constitui uma abreviatura de uma palavra não acentuada (arduamente)?

Resposta:

Deve escrever-se «lenta e pausadamente» e «árdua e longamente».

A associação (coordenação) de dois advérbios de modo costuma fazer-se retirando ao primeiro advérbio coordenado o sufixo (não é uma terminação) -mente: «lenta e pausadamente». Como a base de derivação deste tipo de advérbios é geralmente a forma de feminino de um adjetivo (ávido, ávida avidamente), o primeiro advérbio de modo, ao ficar abreviado, mantém a ortografia do adjetivo donde deriva: «ávida e cruelmente». Sendo assim, o segundo exemplo em questão deverá escrever-se «árdua e longamente».

É de frisar que, por estarmos a falar de advérbios, que são palavras invariáveis, não tem sentido pensar que estes tenham de concordar com o sujeito ou com qualquer outro constituinte frásico. Outra coisa é dizer que a interação dos advérbios se faz com o verbo («trabalham árdua e longamente»), com outro advérbio («extremamente longe») ou com um adjetivo («extremamente contente»). No respeitante à sintaxe dos exemplos em questão, a interação é com o predicado. Assim, as frases devem ser as seguintes:

1 – «O João chegou lenta e pausadamente.»

2 – «Trabalhámos árdua e longamente.»

Pergunta:

Gostaria de saber se existe a locução “a fim que” ( sem o de), ou se, pelo contrário, a expressão correcta é sempre «a fim de que». Por outra, será correcta a seguinte frase: «envia-se a presente missiva a fim que Vossa Excelência dê o devido seguimento ao processo»?

Resposta:

«A fim de»  é uma locução prepositiva que significa «para», indicando propósito, finalidade, objetivo. Também em contexto espanhol, o Dicionário Pan-Hispânico de Dúvidas  assinala que tem o significado de «para ou com o objetivo» e que deve ser seguido de infinitivo.


«A fim que»  é um galicismo que não deve ser utilizado, inspirado em afin que, que, em francês, pede conjuntivo. Em Espanha, a Fundéu, entidade preocupada com a boa utilização oral e escrita da língua castelhana, chama a atenção para a utilização deste queísmo, muito em voga nas notícias divulgadas pelos meios de comunicação social do país vizinho – lendo-se e ouvido-se também muito nos media portugueses. Se se suprimir a preposição de, substituindo-a por que, estar-se-á a incorrer em erro.

Assim, a construção da frase indicada pelo consulente poderia ter duas formulações:


1 – «Envia-se a presente missiva a fim de Vossa Excelência dar o devido seguimento ao processo.»

A frase 1 apresenta a locução «a fim de» a introduzir uma oração subordinada adverbial final de infinitivo («a fim de Vossa Excelência dar o devido seguimento ao processo»). Quando a oração é finita, a locução prepositiva associa-se à conjunção, formando a locução conjuncional «a fim de que», equivalente a «para que», conforme se exemplifica na frase 2:

2 – «Envia-se a presente missiva

Pergunta:

Devo escrever «O chão cobre-se de folhas, fazendo-se um mar ocre com matizes marrom», ou «O chão cobre-se de folhas, fazendo-se um mar ocre com matizes marrons»?

Obrigado!

Resposta:

Sugerimos: «O chão cobre-se de folhas, fazendo-se um mar ocre com matizes marrons.» O termo marrom vem do francês marron e significa «castanho» (vide Priberam). É um adjetivo que pode ser utilizado para os dois géneros, seguindo a regra dos substantivos e adjetivos terminados em -om para a construção do plural: -ons. O adjetivo deve geralmente concordar com o substantivo em género e número, daí a necessidade de alterar a forma do singular para o plural, uma vez que matizes é plural. 

N. E. – Sobre a flexão de marrom, que é variável em número em português, e comparando com outras línguas românicas, observa o consultor Luciano Eduardo de Oliveira que a palavra de configuração semelhante e semanticamente correspondente em francês – marron = «castanha» – é invariável não só em género, mas também em número, por derivar de substantivo (cf. informação sobre adjetivos invariáveis em francês aqui); mesmo em italiano a questão é um pouco polémica, com gramáticos, como Aldo Gabrielli, que defendem o uso invariável de marrone (ver, em italiano, recomendação da Accademia della Crusca sobre o uso de marrone, «castanho», e arancione, «cor de laranja» ou, simplesmente, «laranja»). Lembra ainda o consultor que, em português, ma...

Pergunta:

Qual o valor expressivo da gradação das formas verbais presente no poema O que há em mim é sobretudo cansaço [de Álvaro de Campos]: «ame» (v. 14), «deseje» (v. 15) e «queira» (v. 16) e as correspondentes «amo» (v. 18), «desejo» (v. 19) e «quero» (v. 20):


«Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada 
– Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...»

Resposta:

Há subjetividade na interpretação de textos literários. Considerar a figura presente no poema uma gradação pode gerar diferentes opiniões. Como se sabe, a gradação pode ser crescente ou decrescente e, sendo assim, estes versos encerram um problema. Analisando os verbos, poder-se-á concluir que «amar» é mais expressivo, pois representa «querer muito». Na hierarquia do «querer», seguir-se-ia o verbo querer, que indica ação, todo um processo, todo um esforço para se obter algo, para se chegar a um objetivo. Por outro lado, desejar tem um  valor menos intenso, pois aquele que deseja tem uma atitude passiva. Porém, a sequência no poema é amor–desejo–querer, não se podendo afirmar que haja uma gradação decrescente, nem tão-pouco crescente. Estamos, por esse motivo, mais inclinados para considerar que o recurso estilístico em causa é a enumeração.

Gradação: a gradação consiste em encadear palavras ou expressões numa ordem progressiva (ascendente) ou regressiva (descendente) – in Figueiredo, Eunice Barbieri & Figueiredo, Olívia Maria (1998). Itinerário Gramatical. Porto. Porto Editora, p. 162.

Enumeração: «consiste na apresentação sucessiva de vários elementos, pertencendo, regra geral, à mesma classe gramatical» – in Barros, Vítor Fernando (2011). Gramática da Língua Portuguesa. Âncora Editora, p. 288.

Perífrase: «a perífrase consiste em utilizar uma expressão composta por vários elementos em vez do emprego de um só termo» – in Figueiredo, Eunice Barbieri & Figueiredo, Olívia Maria (1998). Itinerário Gramatical. Porto. Porto Editora, p. 166.