Filipe Carvalho - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
Filipe Carvalho
Filipe Carvalho
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Mestre em Teoria da Literatura (2003) e licenciado em Estudos Portugueses (1993). Professor de língua portuguesa, latina, francesa e inglesa em várias escolas oficiais, profissionais e particulares dos ensinos básico, secundário e universitário. Formador de Formadores (1994), organizou e ministrou vários cursos, tanto em regime presencial, como semipresencial (B-learning) e à distância (E-learning). Supervisor de formação e responsável por plataforma contendo 80 cursos profissionais.

 
Textos publicados pelo autor

Pergunta:

«... com os seus próprios e secretos sonhos, que os sonhos são como as pessoas» (José Saramago, Memorial do Convento, Lisboa, Editorial Caminho, 2012).

Isto é uma aliteração, ou uma assonância?

Resposta:

Trata-se de uma aliteração, pois é a repetição de um som consonântico, no caso presente, a sibilante. A assonância é a repetição intencional do mesmo som vocálico.

«A aliteração é a repetição do(s) fonema(s) inicial(ais) consonântico(s) de várias palavras dispostas de modo consecutivo» in Itinerário Gramatical. (s.d.) Eunice Barbieri de Figueiredo e Olívia Maria Figueiredo, Porto Editora, p. 159.

«A assonância é normalmente definida como a homofonia da última vogal acentuada de várias palavras que se seguem (mediata ou imediatamente), in Itinerário Gramatical. (s.d.) Eunice Barbieri de Figueiredo e Olívia Maria Figueiredo, Porto Editora, p. 161.

Pergunta:

«A praia estava como devia estar, com sol e ondas baixas» (Teolinda Gersão, "Avó e neto contra vento e areia", in A Mulher Que Prendeu a Chuva e Outras Histórias).

Nesta frase, além da comparação, podemos ter uma enumeração?

Obrigado.

Resposta:

«A praia estava como devia estar...» é uma comparação, pois comparam-se dois elementos e está presente a partícula comparativa como.

«...com sol e ondas baixas» é uma enumeração, uma vez que se enumeram elementos que caracterizam a praia naquele dia e naquela altura.

De notar que, segundo a gramática de Vítor Fernando Barros, Gramática da Língua Portuguesa (Âncora Editora, Edições Colibri, 2011, p. 279), a enumeração «[c]onsiste na apresentação sucessiva de vários elementos, pertencendo, regra geral, à mesma classe gramatical». A comparação, por outro lado, «[c]onsiste na aproximação de duas realidades com o objetivo de destacar as suas semelhanças, feitas através da conjunção como e outras locuções conjuntivas equivalentes ou de um verbo com função semelhante (parecer, lembrar, sugerir, assemelhar-se, etc.)» (p. 284).

Pergunta:

Gostaria de saber qual o significado da expressão «o tempo é luxo que a nossa vida não só desrespeita como desmerece».

Resposta:

A resposta a esta questão é subjetiva, ou seja, cada um interpreta a expressão à sua maneira, desde que a fundamentação da mesma seja credível e documentada. Por esse motivo, não poderá haver uma resposta absoluta.

A expressão «O tempo é luxo...» pode ser interpretada como «O tempo é precioso...». A metáfora presente remete para a valorização do tempo; «...que a nossa vida não só desrespeita como desmerece» aponta para o comportamento das pessoas durante a sua vida, não aproveitando o tempo que lhes é concedido. A “vida”, que aparece personificada, é a responsável por não se aproveitar o tempo e, por isso, não é merecedora do bem precioso que lhe foi dado: o tempo. 

Pergunta:

Há já bastantes anos que tenho ouvido uma conjugação verbal nova. Pelo menos não me recordo de ser assim antes, e parece que agora se tornou dominante, mas que eu me recuso a usar. Às vezes num relato de futebol era bem comum. Exemplo: «Se ele tinha marcado falta, o Ronaldo teria sido expulso do jogo.» Não deveria ser: «Se ele tivesse marcado falta, o Ronaldo teria sido expulso do jogo»? Parece-me uma hibridação de dois tipos de conjunção verbal distintos. Este tipo de conjunção, a meu ver incorreta, é absolutamente comum nos dias que correm. Outro exemplo: «Se eu tinha deixado cair as chaves, não poderia entrar no carro.» Creio que o correto é: «Se eu tivesse deixado cair as chaves (...).» Isto faz algum sentido, ou terei de me converter a algo que acreditava estar errado?

Muito obrigado.

Resposta:

A objeção do consulente faz todo o sentido. A construção das orações condicionais obedece a determinadas regras. Assim, para orações subordinadas condicionais que têm o verbo no mais-que-perfeito composto do conjuntivo, dever-se-á colocar o verbo da subordinante no condicional composto.  Na frase: «Se ele tinha marcado falta, o Ronaldo teria sido expulso do jogo», o tempo verbal da oração condicional aparece no mais-que-perfeito composto do indicativo do verbo marcar, mas deveria estar no mais-que-perfeito composto do conjuntivo («tivesse marcado»). No segundo exemplo – «Se eu tinha deixado cair as chaves, não poderia entrar no carro» –, a frase correta será: «Se eu deixasse cair as chaves, não poderia entrar no carro» ou «Se eu tivesse deixado cair as chaves, não teria podido entrar no carro». No primeiro exemplo, o verbo da oração condicional está no imperfeito do conjuntivo e, como mandam as regras, o verbo da subordinante deverá estar no condicional presente. No segundo, obedece às mesmas regras do que acima foi explicitado, ou seja, a condicional com o verbo no mais-que-perfeito composto do conjuntivo, e a subordinante com o verbo no condicional composto.

Pergunta:

Devemos escrever «o pai usou a prudência para lhe fazer ver aquilo», «o pai usou da prudência para lhe fazer ver aquilo», ou «o pai usou de prudência para lhe fazer ver aquilo»? Nunca percebi esta formulação.

Obrigado.

Resposta:

«O pai usou de prudência para lhe fazer ver aquilo» e «O pai usou a prudência para lhe fazer ver aquilo» são ambas frases pertinentes.

O Dicionário de Verbos e Regimes (Rio de Janeiro/Porto Alegre/São Paulo, Editora da Livraria do Globo, 1947), de Francisco Fernandes, ilustra  o uso da regência com frases de alguns autores literários; por exemplo:

1 – «Ao capitão pedia que lhe dê mostras das fortes armas de que usavam» (Camões, Lusíadas, I, 63).

Na mesma linha vai o Dicionário Sintático de Verbos Portugueses (Coimbra, Almedina, 1994), de  Winfried Busse, o qual, além de registar o uso transitivo do verbo (ou seja, com complemento direto), salienta a utilização do verbo usar com um complemento preposicionado. O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa também admite, a par do emprego transitivo de usar, o uso da preposição de.

A preposição de é uma escolha do sujeito enunciador no que respeita a querer determinar o que o sujeito utiliza. Se se pretender apresentar o que o sujeito usa, então, deve utilizar-se o complemento direto (acusativo) sem a partícula de. Exemplo: «Ele usa o charme para as seduzir.» Se se desejar dar ênfase ao valor instrumental daquilo que é usado, a frase ficaria da seguinte maneira: «Ele usa do charme para a seduzir.»