Filipe Carvalho - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
Filipe Carvalho
Filipe Carvalho
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Mestre em Teoria da Literatura (2003) e licenciado em Estudos Portugueses (1993). Professor de língua portuguesa, latina, francesa e inglesa em várias escolas oficiais, profissionais e particulares dos ensinos básico, secundário e universitário. Formador de Formadores (1994), organizou e ministrou vários cursos, tanto em regime presencial, como semipresencial (B-learning) e à distância (E-learning). Supervisor de formação e responsável por plataforma contendo 80 cursos profissionais.

 
Textos publicados pelo autor

Pergunta:

No verso a seguir, a divisão em sílabas métricas será como exemplifico?

«Queria neste poema a cor dos teus olhos e queria em cada verso o som da tua voz.»

Que / ria / nes / te / poe / ma a / cor / dos / teus / o / lhos E / que / ria em / ca / da/ ver / so o/ som / da / tua / voz

Resposta:

A escansão mais correta é a seguinte:

Que/ri/a/nes/te/po/e/ma a/cor/dos/teu/s o/lhos
e/que/ri/a em/ca/da/ver/so o/som/da/tu/a/voz

Observe-se que a sequência em questão é constituída não por um, mas, sim, por dois versos, que são os primeiros do poema Presente, o qual faz parte do livro O Estado dos Campos (2007), da autoria do poeta português Nuno Júdice.

Quanto à escansão, é de notar que a divisão silábica de versos é diferente da divisão silábica convencional. Aconselha a regra geral a contar as sílabas até à última sílaba tónica de cada verso. Por isso, no primeiro verso do par em questão, a contagem é feita até à sílaba tónica de olhos e, no segundo verso, abrange o monossílabo voz, que coincide com uma sílaba tónica. Os ditongos têm valor de uma só sílaba poética («teus»), e duas ou mais vogais átonas e, por vezes, tónicas podem juntar-se entre duas palavras, formando uma única sílaba, como acontece com os encontros vocálicos das sequências «… poema a cor…» (primeiro verso) e «… queria em cada…».

Estas regras não são rigorosas, mas genéricas. Há algumas liberdades poéticas, como:

– a elisão de um som: «.. queria em…» > «queri’ em…» (nos versos em questão);

– a fusão de dois sons (sinalefa): «… poema a cor…» > «… poem[à] cor…» (idem);

– e até, por vezes, se dá a separação dos sons do ditongo (o que não é muito comum, prevalecendo a regra geral): va-i-da-de, em vez de vai-da-de (cf. E. Bechara, Moderna Gramática Portuguesa

Pergunta:

Estou com dúvidas quanto à construção desta frase:

«Quase toda a estrada estava soterrada pelo lixo.»

Devemos escrever «soterrado por», «soterrado em» ou «soterrado de» – partindo do princípio de que, aqui, «soterrado» é usado como imagem, não sendo a terra a cobrir a estrada?

Muito obrigado.

Resposta:

Considerando que o verbo soterrar1 é transitivo («o lixo soterrou a estrada») e tendo em conta que a estrutura da frase apresentada é passiva e, por isso, constituída pelo auxiliar ser no pretérito imperfeito do indicativo e pelo particípio passado (soterrado) do verbo principal (soterrar), numa perspetiva sintática, parece-nos bem considerar a expressão «pelo lixo» o complemento agente da passiva. O uso da preposição por, associado ao particípio passado soterrado, está, portanto, correto, como abona o seguinte exemplo:

1 – «Não sairei de minha casa, Lúcio! Ficarei soterrado pelos escombros, para tua vergonha» (Mário de Carvalho, Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde, 1994, in Corpus Português de Mark Davies e Michael Ferreira)

É também legítimo associar a preposição de, porque esta pode introduzir agentes da passiva ou expressões com valor causal: «soterrado de lixo», tal como acontece, por exemplo, com o particípio passado de cobrir, sinónimo de soterrar – «coberto de lixo»2.

Finalmente, igualmente se aceita que soterrado ocorra com a preposição em, quando esta se usa em referência ao espaço onde alguém/alguma coisa está soterrada; por exemplo:

2 – «E indigitou-lhe um isqueiro meio soterrado no solo e oxidado pela ação do tempo» (Apolinário Porto-Alegre, O Vaqueano, 1872, in Corpus do Português).

Pergunta:

É pejorativo dizer que o comandante da polícia «foi parco em palavras»?

Resposta:

Quando se diz que «o comandante da polícia foi parco em palavras», o adjetivo significa que alguém no seu discurso utilizou poucos termos, ou seja, foi sucinto, sintético, falando só o estritamente necessário. Não há, pois, nada de pejorativo nesse qualificativo.

Segundo o dicionário Priberam, o Dicionário Aberto (versão em linha da 2.ª edição do Novo Dicionário da Língua Portuguesa de Cândido de Figueiredo), o dicionário da Porto Editora (em linha, na Infopédia) e o Dicionário Aulete (em linha), parco significa «aquele que usa ou vive com parcimónia», «frugal», «que evita os excessos», «que poupa ou economiza», «escasso», «característica do sujeito que evita os excessos» e tem a sua origem no latim clássico parcus, que tinha a mesma função adjetival e cujo significado, na altura, não diferia do atual [a este respeito, poder-se-á consultar Ferreira, António Gomes. (1987). Dicionário de Latim-Português. Porto. Porto Editora] Por este motivo, não consideramos que seja um vocábulo ofensivo, podendo ser usado num enunciado erudito ou num contexto formal. O termo pode ser utilizado ao lado de um nome, qualificando-o, ou regendo preposições com em ou de.

Alguns exemplos da utilização de parco:

«O extremo Mancini mudou-se do Inter para o rival Milan e não foi parco em críticas ao treinador José Mourinho, considerando o português como o principal responsável pelo ano horrível que teve a nível desportivo» (A Bola, 02.02.2010, in

Pergunta:

Gostaria que me esclarecessem se, neste excerto do Sermão de Santo António aos Peixes, são visíveis interrogações retóricas ou, apenas, uma sucessão de frases interrogativas curtas.

«Que faria neste caso o ânimo generoso do grande António? Sacudiria o pó dos sapatos, como Cristo aconselha em outro lugar? Mas António com os pés descalços não podia fazer esta protestação; e uns pés a que se não pegou nada da terra não tinham que sacudir. Que faria logo? Retirar-se-ia? Calar-se-ia? Dissimularia? Daria tempo ao tempo? Isso ensinaria porventura a prudência ou a covardia humana; mas o zelo da glória divina, que ardia naquele peito, não se rendeu a semelhantes partidos.»

Obrigada pela atenção.

Resposta:

Antes de mais, convém ter-se uma ideia geral do significado de retórica para daí partir para o conceito de interrogação retórica. O Dicionário Aberto (versão eletrónica da 2.ª edição do Novo Dicionário da Língua Portuguesa, de Cândido de Figueiredo) apresenta o significado de retórica como «Arte de bem falar, ou conjunto de regras relativas à eloquência». O estudioso Manuel Alexandre Júnior complementa sublinhando que a retórica é a arte de argumentar com fins persuasivos1.

Sendo a interrogação retórica ou a pergunta retórica um recurso estilístico utilizado com a finalidade de não se obter uma resposta, mas de incrementar a reflexão de uma pessoa sobre determinado assunto, sendo, também, o Padre António Vieira um dos expoentes máximos (se não o expoente máximo) da arte do discurso oratório na literatura portuguesa, perante a análise do excerto apresentado, poder-se-á inferir estar-se perante interrogações retóricas. As frases interrogativas presentes vão conformar o enunciado persuasivo e ajudam o fluir e a estruturação do pensamento lógico. A sequência das frases, interrogativas disfarçadas2, ajuda quem as profere a organizar o discurso e, perante as possibilidades apresentadas nas questões, segundo o narrador, a decisão de Santo António é perentória em negá-las de forma indireta: «mas o zelo da glória divina, que ardia naquele peito, não se rendeu a semelhantes partidos.» Esta frase declarativa não será uma resposta direta a cada pergunta veiculada, mas tão-somente o culminar do raciocínio do narrador.

Como se sabe, Vieira pretendia ser persuasivo, chamando a ...