D´Silvas Filho - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
D´Silvas Filho
D´Silvas Filho
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D´Silvas Filho, pseudónimo literário de um docente aposentado do ensino superior, com prolongada actividade pedagógica, cargos em órgãos de gestão e categoria final de professor coordenador deste mesmo ensino. Autor, entre outros livros, do Prontuário Universal — Erros Corrigidos de Português. Consultor do Ciberdúvidas da Língua Portuguesa.

 
Textos publicados pelo autor

Pergunta:

Acabei de descobrir no site do Portal da Língua Portuguesa que coa é forma do verbo coar, enquanto côa é substantivo.

Ora, eu estive sempre convencido de que as palavras que terminavam em «oa» (acentuado) não precisavam de acento gráfico (boa, coroa, doa, gamboa, Lisboa, pessoa, voa, etc.). Nos «casos particulares» que os senhores apontam aqui, parece que o acento gráfico é usado para distinguir palavras com pronúncia diferente que, sem o dito acento gráfico, ficariam ambíguas.

Se tanto coa (forma verbal) e côa (substantivo) são pronunciadas ['koɐ], poderiam os senhores explicar-me o porquê do acento gráfico?

Obrigado.

Resposta:

Deve ter feito confusão ou há uma confusão qualquer na referência que tomou.

A forma do verbo coar é côa e não "coa" (Houaiss, Rebelo Gonçalves, Porto Editora).

Existem também as formas: Côa, nome dum rio português; e côa, porção de líquido coado.

Todas as formas acima têm acento, contra as regras que muito bem indicou, porque quem fez as normas que nos regem entendeu que devia exigir esse acento diferencial nessas palavras para as distinguir da palavra coa ¦kua¦, combinação da preposição com mais o determinante a.

Ver citação na nota de rodapé 48 da 4.ª versão do Prontuário da Texto Editora.

Ao seu dispor,

Constou no Brasil que Portugal criticava o VOLP brasileiro por este país ter feito o seu vocabulário independentemente de Portugal, quando o acordo de 1990 previa um Vocabulário Comum. A Academia Brasileira de Letras (ABL) reagiu dizendo que o Art. 2.º do texto do Acordo prevê apenas a elaboração do vocabulário comum de termos da especialidade, e não um vocabulário ortográfico comum. Afirmou também que, portanto, o VOLP elaborado pela ABL é legítimo. (...)

Pergunta:

Em primeiro lugar, as minhas saudações cordiais.

Levando-se em consideração a tentativa de unificação da língua portuguesa através do Acordo Ortográfico de 1990 e a coexistência da palavra "benção" como maneira antiga e popular de proferir bênção, no VOLP da Academia Brasileira de Letras, faz ainda sentido dizer que, em português europeu, "benção" constitui um erro ortográfico? Ou será apenas mais uma dupla grafia com diferença prosódica?

O texto do AO traz o substantivo composto "benção-de-deus", que não consta no VOLP brasileiro (e muito menos no português) e, certamente, figurará uma incorreção, todavia tenho dúvidas se só "benção" será aceite também em Portugal.

Desde imediatamente, muito obrigado pela sua resposta esclarecedora.

Resposta:

Bênção, com acento, está assim atestada nos dois dicionários já publicados em Portugal sobre o novo Acordo Ortográfico (AO). A palavra é grave em Portugal, e, segundo as normas, mesmo no novo AO, precisa de acento para ter a tónica na penúltima sílaba. Benção, aguda (do português arcaico beençon), é presentemente uma forma meramente popular. O novo AO poderá aceitar esta forma popular, mas não poderá deixar de registar a forma bênção, já consagrada.

A forma "benção-de-deus" que aparece na Base XV, 3.º, é dada como exemplo de hífen obrigatório em palavras que designam espécies botânicas ou zoológicas, não como exemplo de acentuação em bênção. Aliás, o Vocabulário da Academia Brasileira de Letras tem registado bênção-de-deus, como em  Portugal. Dado que a planta é originária do Brasil, talvez se tenha reproduzido no texto do acordo de 1990 a forma popular de designar a planta, num exemplo de hífen obrigatório.

Ao seu dispor,

Pergunta:

Verificando as novas regras em relação ao hífen, surgiu uma dúvida quanto às palavras guarda-roupa e guarda-sol. Elas não deveriam ser escritas "guardarroupa" e "guardassol" como "antessala"?

Resposta:

Se analisar bem a enumeração dos prefixos e falsos prefixos da Base XVI do novo Acordo Ortográfico, verificará que guarda- não figura entre eles. Nestes dois compostos em apreço, guarda é uma forma verbal do verbo guardar.

Assim, continuará a escrever-se: guarda-roupa, guarda-sol.

E gramaticalmente continuará a distinguir-se no plural dos compostos os casos em que guarda figura como forma verbal dos casos em que figura como substantivo: guarda-roupas, mas guardas-fiscais.

Ao seu dispor,

Pergunta:

Com a Reforma Ortográfica, os c e p mudos caíram das palavras como acto ou baptismo. No entanto, ainda é aceita a dupla grafia em fato e facto; aspecto e aspeto; carácter e caráter. E também dos acentos (circunflexos e agudos): gênio e génio; acadêmico e académico. Agora, com a língua unificada, embora eu more no Brasil, posso escrever facto e génio, em vez de fato e gênio (grafia brasileira)?

Resposta:

São legítimas no Brasil as palavras que figurarem no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP) que a Academia Brasileira de Letras publicou. Penso que lá estarão, sim, as duplas grafias que indica, visto taxativamente estarem no texto do Acordo de 1990.

Mesmo assim, eu recomendo que siga a grafia usual no país de acolhimento, por uma questão de cortesia.

Esta questão das duplas grafias parece permitir uma grande liberdade na escrita, mas deve ser usada com discernimento. Saber utilizar a palavra escrita adequada na comunidade linguística a que nos dirigimos é uma prova de cultura. Chamo-lhe propriedade gráfica na comunidade.

É legítimo a qualquer um desejar escrever como escreve no seu país, mas então assume ostensivamente a sua nacionalidade no país onde está. Também ninguém é obrigado a imitar a pronúncia do país em que vive, só que na prosódia é mais difícil a adaptação, o que se desculpa. Ora, ainda assim, não nos digam que não é grato ouvir um treinador, que sabemos estrangeiro, falar fluentemente e com perfeição a língua da equipa que treina…

Sendo português, não recomendo que no Brasil seja brasileiro, mas que retribua com gentileza a inegável amizade que esse grande país do futuro tem por nós.

Ao seu dispor,