D´Silvas Filho - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
D´Silvas Filho
D´Silvas Filho
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D´Silvas Filho, pseudónimo literário de um docente aposentado do ensino superior, com prolongada actividade pedagógica, cargos em órgãos de gestão e categoria final de professor coordenador deste mesmo ensino. Autor, entre outros livros, do Prontuário Universal — Erros Corrigidos de Português. Consultor do Ciberdúvidas da Língua Portuguesa.

 
Textos publicados pelo autor
O perigo da aplicação do Acordo Ortográfico <br> sem o indispensável VOLP de Portugal

 

A partir de 19 de Março de 2009, encontra-se nas livrarias do Brasil, um monumental Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP PB), publicado pela Academia Brasileira de Letras (ABL). Este Vocabulário tem 349 737 vocá...

Pergunta:

Tenho assistido a algumas conferências sobre arqueologia e tenho ouvido duas versões para a pronúncia da palavra "megalito". Umas vezes "mégalito" e outras vezes "megálito". Qual a forma correta?

Os meus agradecimentos pelo vosso esclarecimento.

Resposta:

Segundo o Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, de José Pedro Machado, a palavra megálito (construção pré-histórica, feita de grandes pedras) é proparoxítona. Repare que *mégalito nunca poderia ser uma palavra da nossa língua, visto ter o acento gráfico a marcar a tónica antes da antepenúltima sílaba.

A palavra vem do francês mégalithes, e, nela, a pronúncia em português com e aberto é natural, mas a tendência da língua, com tónica da palavra na sílaba li, é fechar a vogal a: ¦mègâlíto¦ ~ [mεgɐlitu]. Assim, provavelmente, a forma "megalito" foi o resultado da leitura do termo francês com este a fechado.

Ora na língua francesa, embora com tónica na penúltima sílaba, a vogal a é aberta na palavra mégalithes. Então, é natural que, como na língua portuguesa a vogal i é sempre fechada, esse a aberto tenha forçado a tónica na antepenúltima sílaba na adaptação da palavra: megálito.

Também é natural que na adaptação à língua portuguesa tenham tido influência os vernaculistas que sabiam que o pospositivo –megalia (grande) podia vir do grego megále/os (etimologia Houaiss).

NOTA: As conclusões acima são meras conjecturas. Se algum dos nossos leitores conhecer bem a história destas duas palavras: megálito e megalito, agradecemos que nos escreva.

De qualquer forma, o termo que recomendamos por agora é...

Pergunta:

Antes de mais nada, quero felicitá-los pelas cuidadosas e precisas explicações às dúvidas formuladas. Destaco os comentários sobre o plural de decibel. Magnífico!

Ilustra uma polêmica freqüente nas revisões de textos técnicos. Muitos técnicos e cientistas, principalmente no Brasil, acreditam que não precisam usar as regras da gramática portuguesa nos seus escritos técnicos. Nasce assim entre eles uma linguagem distorcida e idiossincrática num hermetismo até anticientífico. O mais comum é a criação de neologismos, principalmente, mal aportuguesados do inglês, para exprimir pensamentos já representados por vocábulos da nossa língua. Este é o caso da palavra “massivo”, cada vez mais usada no jornalismo brasileiro para traduzir “massive”, quando a tradução correta é maciço. Entre muitas outras, tenho encontrado “intervencionar” para exprimir intervir, “revegetar” para substituir replantar.

Depois de procurar em vão, como já esperava, por estes neologismos nos melhores dicionários de nossa língua, deparei-me na Internet com um "Portal da Língua Portuguesa" (Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior) que até conjugava o verbo “intervencionar”.

Pergunto, pois, quais as regras e os cuidados na criação de neologismos? É aceitável usar neologismos no lugar de palavras já existentes, mesmo que já figurem como tradução de termos estrangeiros nos melhores dicionários bilíngües? Qual a orientação sobre este assunto que posso ter ao fazer revisões nos textos técnicos?

Resposta:

Muito obrigado pelas suas gentis palavras. A correcção e a protecção da nossa comum língua foram desde o início a preocupação fundamental dos fundadores de Ciberdúvidas, os jornalistas Carreira Bom e José Mário Costa, sempre acompanhados no mesmo critério pelos consultores de Ciberdúvidas.

No caso da aceitação dos neologismos, porém, não há consenso. Há quem repudie os empréstimos quando não trazem nada de novo, e há quem considere que um novo vocábulo enriquece sempre a língua.

Não comprometendo Ciberdúvidas e, como eu digo sempre, sem pretender fazer lei na língua, transcrevo notas sobre neologismos, dum livro em que estou a colaborar, para ser publicado ainda este ano:

O facto de «uma determinada palavra não se encontrar nos dicionários» não nos deve impedir de a utilizar. As condições são: que não haja nenhuma já dicionarizada que possa ser utilizada com maior propriedade, que essa nova palavra obedeça à índole da língua (sem adaptações que a adulterem) e que seja efectivamente indispensável para exprimir exactamente o conceito e sem ambiguidades. Com a reserva, sublinha-se, de que um novo valor semântico, só de pouca gente conhecido, deve ser restrito ao núcleo dos conhecedores.

A língua não é estática. É um património vivo que se enriquece com as gerações de falantes. Estes vão sempre criando os signos mais adequados ao aperfeiçoamento actualizado da comunicação.

Nalguns casos, a adaptação pode é estar incorrecta. Veja-se o caso de basebol em Portugal. A adaptação brasileira beisebol é preferível. Basebol, com pronúncia bâi, contraria a índole da língua. Se em Portugal se mudou o inglês all

Pergunta:

Levando-se em consideração a Base XVI do Acordo Ortográfico (1.º Nas formações com prefixos [...] só se emprega o hífen nos seguintes casos: [...] f) Nas formações com os prefixos tónicos/tônicos acentuados graficamente pós-, pré e pró-, quando o segundo elemento tem vida à parte [...]) como fica a escrita da palavra pré-constituída/preconstituída ou ainda pré-constituir ou preconstituir? Os sufixos, neste caso, possuem "vida à parte", como indica a Base XVI no Acordo? A propósito, qual o critério mais seguro para definir se um sufixo tem ou não "vida à parte"?

Resposta:

Quando têm acentos gráficos obrigatórios, os prefixos acima indicados são sempre seguidos de hífen (associados a outra palavra).

Pela pronúncia da palavras, em Portugal é sempre possível distinguir se o prefixo está ou não fundido com o elemento seguinte. Por exemplo, pré-ocupação (com hífen) tem prosódia diferente de preocupação (sem hífen). Penso que no Brasil também haverá alguma diferença. Veja, porém, a minha resposta «Novo acordo, casos especiais, prefixos re-, pre-, pro-».

O critério mais seguro para saber se o prefixo está ou não fundido é consultar um bom vocabulário, como o VOLP que vai ser publicado pela sua Academia Brasileira de Letras.

Penso que a grafia nestes casos não sofre alteração no novo AO.

Ao seu dispor,

Surgiram ultimamente algumas dúvidas de interpretação do Acordo Ortográfico. Indico a seguir qual a minha posição particular nesses casos especiais. Como acentuo sempre, não pretendo fazer lei com as minhas opiniões, mas transmitir um parecer, que, na dúvida, é para mim mais sensato.