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Dicionário Ilustrado de Calão do Porto

<i>Dicionário Ilustrado de Calão do Porto</i>
Autor(es) João Carlos Brito
Edição Ideias de Ler , 2026
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Um lançamento das Ideias de Ler, que assim publica em 2026 mais um livro de João Carlos Brito, incansável investigador e divulgador das tradição linguística do Porto e da sua região.

Quem folheie casualmente o livro é bem capaz de ficar surpreendido, porque as expressões listadas parecem na sua maioria comuns a todo o espaço nacional português, do Minho ao Algarve, e do Continente à Madeira e aos Açores. A impressão desta leitura apressada não é alheia ao autor que, na esclarecedora Introdução (pp. 5-8), assinala o seguinte:

«[...] temos de salvaguardar que o calão carroceiro existe, de igual forma, do Minho ao Algarve e, claro, nas Ilhas, ou seja, é igualmente proferido e com igual recorrência por todos os falantes portugueses, sendo interclassista e propriedade de todas as idades.»

Contudo, o autor defende que o falar ou dialeto portuense consegue apropriar-se de qualquer termo do calão nacional, "regionalizando-o", por assim dizer:

«[...] o registo marginal na boca do falante tripeiro assume não raras ocasiões contornos de genialidade, adaptando, recriando e até inventando palavras e expressões de enorme valor emocional e metafórico, em que, após uma breve, mas atenta análise, fica claro o génio discursivo do seu criador. Sim, o vernáculo está lá. Mas está também a expressividade, a originalidade, a intensidade metafórica de um código que os falantes do Grande Porto se habituaram a descodificar imediatamente há várias gerações.» (p. 5)

Parece, portanto, defender-se aqui a tese de que o uso do calão define a personalidade do falar do Porto, pelo que um dicionário como este espelha uma maneira de ser coletiva e muito assertiva: «... nós somos, com orgulho, o que dizemos».

Passando a uma rápida descrição do volume, diga-se que as ilustrações nada têm de chocante, ao contrário do se podia pensar de um dicionário de calão; antes figuram situações e comportamentos em que talvez muitos portuenses se revejam, entre o sarcasmo, a ironia e certo gosto pela expressão mais ou menos acintosa, lançada a interlocutores e em público quando menos se espera.

Como foi dito, grande parte das expressões compiladas são frequentemente património linguístico nacional, mas encontram-se pérolas que qualquer português terá muita dificuldade em não atribuir ao génio expressivo da Invicta. Bons exemplos são sostra e o seu derivado sostrice, que dicionários gerais como o da Porto Editora não deixam de registar, ou «levar milho», com o significado de «levar pancada»; ou ainda o termo sameira, as cápsulas (de refrigerante) que em Lisboa e noutras regiões mais a sul se chamam caricas. Acrescem as fraseologias pitorescas: «bai no Batalha», que é dita em jeito cético, quando não se leva a sério o que se ouviu, com o betacismo dos dialetos setentrionais de Portugal a ajudar a aliteração («bai... Batalha»);  «Não sejas sebadola», isto é, quando nos deparamos com alguém pouco asseado e sem modos à mesa; e a enérgica ameaça de «mando-te um carquilho qu'até te boua a placa!», dando mais um exemplo de troca do v (voa) pelo b (boua).

Em síntese, este dicionário é, sem dúvida, um livro de consulta que é também um repositório de expressões que podem proporcionar momentos divertidos entre familiares e amigos, fisicamente no próprio Porto, ou à distância, talvez preparando mais uma visita, em sintonia com esta magnífica cidade.

ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-Instituto Universitário de LisboaISCTE-Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa