Flashmob em Ceuta
Não haverá palavra em português?
A propósito da entrada ilegal de migrantes em Ceuta, um comentador da CNN Portugal descreveu esse movimento como «um flashmob»1. A palavra entende-se literalmente como «multidão instantânea», sugerindo que a concentração e a ação coletiva não teriam sido espontâneas, mas antes rápida e previamente coordenadas.
Neste contexto, o termo é usado em sentido figurado, afastando-se do significado original, associado a iniciativas lúdicas ou artísticas, e assim formulado no dicionário da Academia das Ciências de Lisboa: «aglomeração de pessoas que combinam um encontro num local público, através das redes sociais ou de mensagens eletrónicas, para realizar uma ação, dispersando rapidamente após a sua concretização».
O vocábulo provém do inglês flash mob, composto por flash («repentino», «instantâneo») e mob («multidão», «turba»). A expressão terá sido cunhada em 2003, em Nova Iorque, pelo jornalista norte-americano Bill Wasik, para designar reuniões súbitas de pessoas convocadas pela Internet ou por telemóvel para realizar uma breve ação pública – normalmente uma coreografia, uma encenação ou outra intervenção performativa – dispersando-se logo de seguida. (Wikipedia). Em português, as primeiras ocorrências da palavra datam também de 2003, sobretudo em notícias que descreviam a nova moda vinda dos Estados Unidos, e, a partir de 2004 e 2005, o termo começou a ser recorrente na imprensa portuguesa.
Pergunta-se: não haverá expressão vernácula equivalente a flashmob, capaz de abranger quer as aceções mais antifas quer a mais recente, de índole política? O dicionário da Porto Editora (na Infopédia), o da Academia das Ciências de Lisboa e o Priberam ficam-se pelas longas definições do termo e não apresentam formas capazes de sintetizar o conceito.
Mas, e se procurássemos soluções de línguas irmãs, por exemplo, em espanhol? Buscando, então, propostas de tradução castelhana, damos com "mobilización rápida", registada num documento disponível na "net", o Diccionario de Anglicismos y otros Estranjerismos , de Dámaso Suárez Iglesias. Esta expressão transpõe-se sem dificuldade para português como «mobilização rápida».
O que aqui se propõe – outras soluções haverá – será certamente discutível. Pode achar-se que tem mais sílabas que flashmob e, portanto, acaba por se revelar expressão menos económica. E é grande a tentação de luzir mais um anglicismo como signo dos tempos modernos. Mas para falar de acontecimentos bem próximos das fronteiras de Portugal, país com o qual Ceuta tem relação antiga, não ficaria mal encontrar forma portuguesa.
1 Ler "Ceuta 'foi um flashmob' e tem 'mentores': 'Basta ver as declarações do representante de Israel na ONU'", CNN, 04/08/2026. A palavra flashmob também é grafada flash mob (cf. Infopedia.pt).
