São erros, senhores... Ou serão ideias supimpas? - O nosso idioma - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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São erros, senhores... Ou serão ideias supimpas?
São erros, senhores...
Ou serão ideias supimpas?

«(...) a propósito de uma meia dúzia de livros que [publicados em Portugal], desde meados de 2015, vêm a tratar dessa coisa preciosa que é a língua portuguesa, falada ou escrita. (...)»

 

Supimpa, diz-lhe alguma coisa? Aos dicionários diz. Registada desde há muito, tem origem no Brasil (quem lia as aventuras da Turma da Mônica tropeçava nela com frequência), é um adjectivo de dois géneros e quer dizer «muito bom, excelente, óptimo». Há dicionários que se ficam por aqui e outros que acrescentam esta informação: «De origem duvidosa». Mau... Pensa-se logo em mãe perdida, pai incógnito, tragédias. Mas nada disso. É mesmo supimpa.

Ora esta conversa vem a propósito de uma meia dúzia de livros que, desde meados de 2015, vêm a tratar dessa coisa preciosa que é a língua portuguesa, falada ou escrita. Os primeiros tratavam de erros. Mas sem nenhuma ligação com os ligeirinhos «em bom português» com que a televisão regularmente nos catequisa.

O primeiro, Dicionário de Erros Frequentes da Língua, de Manuel Monteiro (Sóregra Editores, Junho de 2015), vem explicar-nos de forma clara, concisa e bem-humorada, por que devemos, por exemplo, escrever e dizer ribaldaria e não rebaldariaencapuzado e não encapuçadocartapácio e não catrapázio, salgalhada e não salganhada, mas também as diferenças entre iludir e eludir, ímpio (sem fé) e impio (sem piedade) ou a inutilidade de dizer «implementar», anglicismo que «nada acrescenta a palavras como aplicar, desenvolver, executar, efectuar, fazer, realizar, concretizar

Em Setembro de 2015, surgiram em simultâneo dois títulos com propósito idêntico ao do anterior: 500 Erros Mais Comuns da Língua Portuguesa, de Sandra Duarte Tavares (A Esfera dos Livros) e Em Português, Se Faz Favor, de Helder Guégués (Guerra & Paz). O primeiro (único deste lote a aplicar o acordo ortográfico de 1990, mas ainda assim com prefácio de Ricardo Araújo Pereira, um declarado anti-acordista) alinha de A a Z as 500 palavras ou frases incorrectas que contém, explicando depois as formas correctas (“corretas” no livro). Por exemplo: «continuam a haver», corrigido para «continua a haver»; «resplandescente» para «resplandecente»; «Há dois anos atrás» para «Há dois anos» (o “atrás” é redundante); «defenir» para «definir», «mais valia» para «mais-valia»; e «contato» para «contacto».

Já o livro de Helder Guégués, apresentado com «um guia fundamental para escrever bem», não é propriamente um dicionário mas uma obra para se ler, como se diz na gíria, de fio a pavio. Baseando-se em múltiplos exemplos concretos (jornais, revistas, televisão, internet), o autor percorre palavras, verbos, expressões, modismos, ortografia ou pontuação, para, com conhecimento e ironia, revelar erros, confusões, maus usos e sugerir soluções. Como o uso de «por que» ou «porque», «de encontro a» ou «ao encontro de», «eminente» ou «iminente». Ao lado dos anteriores, este é complemento perfeito. E ajuda a repensar tudo.

Mesmo a fechar o ano, mais um: o Novo Dicionário da Comunicação, de vários autores e coordenado por Pedro Correia (Chiado Editora, Novembro de 2015). Este é mais destinado a descodificar os termos correntes relativos aos media, dos antigos (como Galáxia Gutenberg, rigor, jornalismo de investigação, até mesmo share) aos mais recentes (gmailgoogletweet, podcastliveblogflash mobhackerupload, etc). Maioritariamente anglo-saxónicos, claro.

Este ano, foi preciso chegar a Abril para encontrar novo título: Doze Segredos da Língua Portuguesa, de Marco Neves (Guerra & Paz, Abril de 2016). Não é um dicionário e será também para ler de uma ponta à outra, como um romance. Fala de erros, sim, mas também diz que alguns não são erros. De certo modo, insistindo no bem falar e bem escrever, é como um oásis no martírio dos que, lendo os anteriores, começam a julgar-se analfabetos. «Fazer a barba?» Por que não? Se, mesmo ao «fazê-la», a cortamos, desfazendo-a? É a partir de alguns aparentes contra-sensos e alguns lugares-comuns que o autor vai desfazendo mitos sem perder de vista o essencial: a defesa da língua. O que implica ler muito. Ler mais. Errar e corrigir. Conversar. Brincar com as palavras. Falar com os filhos. Aprender outras línguas.

Por fim, para acabar onde começámos: o Dicionário de Palavras Supimpas, de José Alfredo Neto (também da Guerra & Paz, Junho de 2016), é um exercício bem-disposto sobre vocábulos que oscilam entre o erudito e o calão, mas sempre com uma explicação à medida. Começa em «abananado» e acaba em «zurzir». É mesmo um dicionário, A a Z, mas pode ser lido como um tratado de curiosidades. Lembram-se da palavra «fanico»? Pois é «coisa má que dá a alguém, da ordem do desmaio.» E remete para «badagaio», palavra que certamente muitos ouviram da boca das suas tias ou avós. Mas também descreve «morosidade», e desta maneira: «Forma particularmente pouco expedita de dizer lentidão». Leiam, divirtam-se e aprendam. Mas não «qualitativamente»: «Palavra que, quando surge num texto, praticamente assegura que o mesmo não presta para nada.» Não é o caso deste livro, como já se percebeu.

(...)

Fonte

Texto transcrito do jornal Público de 12/08/2016, com a devida vénia. Manteve-se a antiga grafia usada pelo jornal português.

Sobre o autor

Jornalista português, redator-principal do diário Público.