Cluster, um anglicismo intraduzível? - O nosso idioma - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Cluster, um anglicismo intraduzível?
Cluster, um anglicismo intraduzível?

Como termo de certas áreas especializadas, o anglicismo cluster não é nenhuma novidade: aparece há alguns anos em português, tal como sucede noutras línguas românicas (por exemplo, espanhol ou francês). Disto mesmo dão prova os dicionários monolingues em linha, que já registam a palavra, definindo-a genericamente como «aglomerado de coisas semelhantes» (ver cluster no Dicionário Priberam da Língua Portuguesa ). Estas fontes incluem ainda os usos de cluster nos âmbitos cientifico e técnico: em linguística, «grupo de duas ou mais consoantes seguidas»; em informática, «unidade de armazenamento num disco» (ibidem; ver também o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, disponível na Infopédia). Igualmente na informática, cluster pode também intrometer-se no discurso em português, com outra  aceção possível em inglês: «conglomerado de computadores» (Dicionário Inglês-Português da Porto Editora, na Infopédia)1 .

Diga-se que os estudos linguísticos já encontraram há bastante tempo equivalentes para cluster em português. Com efeito, os especialistas mais ciosos da vernaculidade dispõem da expressão «grupo consonântico», conforme regista o Dicionário de Termos Linguísticos, organizado por Maria Francisca Xavier e Maria Helena Mateus e editado entre 1990 e 1992 pela Edições Cosmos (versão em linha aqui)2. No campo da informática, a tarefa pode estar parcialmente por cumprir; mesmo assim, deve mencionar-se a proposta da versão de 2011 do Glossário da Sociedade da Informação: agrupamento corresponde a cluster, quando este quer dizer «conjunto de equipamentos de natureza idêntica que partilham os mesmos recursos e estão agrupados num mesmo local, debaixo do controlo de uma unidade central [Nota: Este termo é normalmente atribuído a um conjunto de computadores, usados em processamento paralelo, repartição de cargas e tolerância a anomalias]».

Passando ao discurso sobre economia – onde campeia o "economês" –, ouvimos atualmente vários empresários, políticos e jornalistas pronunciarem razoável cópia de clusters, para referir um modo ou uma ideia de funcionamento empresarial hoje muito em voga («rede de empresas especializadas em indústrias do mesmo ramo ou complementares», conforme definição do artigo "Clusters Marítimos", Revista da Marinha, fevereiro de 2010). Este emprego de cluster decorre da teorização do economista norte-americano Michael E. Porter, que em 1990 publicou a obra intitulada Competitive Advantages of Nations (em português, As Vantagens Competitivas das Nações). Como se sabe, o termo é recorrente na mediatização e propaganda de um sem número de medidas económicas adotadas em muitas organizações e países fora do mundo anglo-saxão, se bem que à revelia da consciência nítida do alcance do seu significado e do dever de uma tradução. Parece que a importação de palavras inglesas como cluster, sem prejuízo do seu mérito teórico e prático, tende a reduzi-las a chavões intraduzíveis com os quais depois se prometem os ares de uma "modernidade" que os cidadãos, afinal, dispensam.

Criticável ou não, a verdade é que o emprego reiterado deste vocábulo tem naturalmente suscitado, entre os falantes das línguas que o acolhem, a procura de termos mais de acordo com a índole de cada uma. Em Espanha, a Fundéu – Fundación del Español Urgente adaptou diretamente o anglicismo à ortografia do castelhano, recomendando clúster, numa hispanização fonética e gráfica sem cerimónias; mas noutras paragens de expressão castelhana, têm sido propostas outras soluções, como é o caso de «aglomeración productiva», tal como figura no título de um documento oficial mexicano. Em francês, regista-se «grappe industrielle» e «pôle de de compétitivité». Em Portugal, o termo anglo-saxão parece o delírio do discurso empreendedorista, mas aqui e ali encontram-se outras formulações, como seja, «pólo de competitividade», talvez decalcado do exemplo francês. Não será esta a única possibilidade, e rapidamente se conclui que cluster, em alusão empresarial, ainda não tem equivalente estável em português.

Dito isto, e porque o francês já não mete medo a ninguém, porque não aceitar e expandir o uso de «pólo de competitividade»? Que tal «aglomeração produtiva», adaptando a formulação da referida fonte mexicana e como, aliás, já figura em artigos de autores brasileiros (ver, por exemplo, Gláucia M. V. Vale e José Márcio de Castro, "Clusters, Arranjos Produtivos Locais, Distritos Industriais: Reflexões sobre Aglomerações Produtivas", Análise Econômica, Porto Alegre, ano 28, n. 53, p. 81-97, 2010)?4 Tudo soluções palavrosas? E, se fizéssemos como os espanhóis da Fundéu, e, «vestindo-o à portuguesa», criássemos "clâster", recorrendo ao â como transcrição do u inglês, à semelhança do verificado de rugby para râguebi?5 Há, portanto, várias opções potenciais – cabe-nos a nós agora fazer a escolha capaz de se generalizar, afirmando o conhecimento que temos da língua e dos seus recursos.

1 Este dicionário bilingue põe a palavra inglesa em equivalência com outros vocábulos e expressões do português: além da já citadas aceções de «sequência consonântica» e «conglomerado de computadores», cluster é o mesmo que «aglomeração, conjunto», «cacho», «feixe », «grupo, conjunto» e «ramo».

2 A edição brasileira do Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa (2001) regista aglomerado como o mesmo que cluster, em referência a um «grupo de duas vogais ou de duas consoantes sucessivas (p.ex.: no lat. dux, 'chefe', o x soa como aglomerado consonântico/ks/)».

3 Na Internet, em páginas brasileiras, verifica-se a utilização de cluster e «distrito industrial» ora intercambiavelmente, ora em aceções diferentes (agradeço ao consultor Luciano Eduardo de Oliveira a informação prestada).

4 Numa pesquisa pela Internet, verifico que a expressão ocorre noutros artigos disponíveis em páginas de entidades e instituições do Brasil. É de notar que «aglomeração produtiva» pode não significar exatamente o mesmo que cluster, antes se empregando como palavra de sentido genérico (hiperónimo) cuja significação abrange a do termo inglês (hipónimo). Neste caso, até surge apenas a palavra aglomeração, sem mais especificações, como termo genérico (sublinhado meu): «O termo aglomeração – produtiva, científica, tecnológica e/ou inovativa  – tem como aspecto central a proximidade territorial de agentes econômicos, políticos e sociais (empresas e outras organizações  públicas/privadas). [...] Em  uma  definição ampla, é possível incluir os diferentes tipos de aglomerados referidos na literatura – tais como distritos  e  polos  industriais, clusters,  arranjos  produtivos  e  inovativos  locais,  redes  de empresas, entre outros» (Ana Cristina de Oliveira Melo, Agenor Pereira dos Santos Neto e Valéria Sousa de Jesus, "Aglomerações produtivas e inovação, Universidade Estadual da Bahia Sudoeste).  Saliente-se que, numa obra publicada em 2013, em Portugal, pela Fundação Francisco Manuel dos Santos – Augusto Mateus (coordenador), A economia, a sociedade e os fundos estruturais – 25 anos de Portugal europeu , a palavra aglomeração aparenta aludir à conceptualização associada a cluster, portanto, como abreviação de «aglomeração produtiva (sublinhado meu)»: «O futuro das regiões portuguesas depende, em larga medida, da construção de sinergias territoriais específicas, combinando economias de aglomeração e de especialização alicerçadas em estratégias regionais não fragmentadas, mas suficientemente diferenciadas e descentralizadas..» Outras formulações também são possíveis, como se pode confirmar mais uma vez em fontes brasileiras: regista-se, por exemplo, «arranjo produtivo local», num artigo de André Luiz de Aquino e Luis Paulo Bresciani – "Arranjos produtivos locais: uma abordagem conceitual" –, cujo título corresponde, na versão em inglês, a "Clusters: a conceptual framework", fazendo, portanto, cluster equivaler a «arranjo produtivo local». Por último, encontro «polo produtivo» a par das soluções que já mencionei, em Flávio Henrique dos Santos FoguelI e Miguel Arantes Normanha Filho, "Um fator de desenvolvimento de clusters no Brasil: a educação profissional" (Cadernos EBAPE.BR vol.5 no.1 Rio de Janeiro Mar. 2007; mantive a ortografia do oriiginal): «[...] cluster, aglomeração geográfica de empresas interconectadas de segmentos específicos e/ou correlatos (também definido neste artigo como pólos produtivos e arranjos produtivos locais, entre outras definições) [...].» De qualquer modo, parece-me que o emprego de  aglomeração, sem qualificativos nem modificadores e como tradução de cluster, acaba por sobressair enquanto alternativa económica e adequada, pelo menos, num discurso menos exigente do ponto de vista teórico. [Nota acrescentada em 9/8/2015, motivada por comentários enviados pelo consultor Luciano Eduardo de Oliveira, a quem agradeço a atenção].

5 Esta solução, fixada no português de Portugal (ver comentário sobre rugby no Grande Dicionário de Dificuldades e Subtilezas do Idioma de Português, de Vasco Botelho de Amaral, e râguebi no Vocabulário da Língua Portuguesa, de F. Rebelo Gonçalves), revela-se problemática na perspetiva do português do Brasil, porque, nesta variedade, o aportuguesamento de rugby é rúgbi, e não râguebi. Considerando rúgbi, uma adaptação lógica seria "clúster", idêntica à espanhola, mas sem qualquer atestação no onjunto das variedades do português, incluindo as do Brasil. Outra opção seria escrever "cláster", grafia não atestada, tomando por modelo a forma dáblio (cf. Dicionário Hoauiss), a qual transpõe como á o ou de «double u» (ou seja, «duplo vê»), grafema associado ao mesmo segmento que é marcado por u em rugby. [Nota acrescentada em 9/08/2015, com base num comentário feito pelo consultor Luciano Eduardo de Oliveira, a quem agradeço a atenção.]

Sobre o autor

Licenciado em Estudos Portugueses pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, mestre em Linguística pela mesma faculdade e doutor em Linguística, na especialidade de Linguística Histórica, pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Foi leitor do Instituto Camões na Universidade de Oxford e no King's College de Londres. Professor do ensino secundário, coordenador executivo do Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, destacado para o efeito pelo Ministério da Educação português.