Norma linguística, desvio e erro - Controvérsias - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Norma linguística, desvio e erro

A questão da norma linguística associada à determinação do que deve ou não ser considerado erro é terreno movediço falho de um poder regulador. Alguns linguistas - quais visitantes alienígenas - fazem questão de se insurgir contra qualquer possível iniciativa reguladora, pretendendo que aqueles que tentam determinar o que é erro estão de costas voltadas para a «realidade dinâmica da língua» (que, aliás, nunca esclarecem em termos práticos), que se apropriam indevidamente de um poder que é de toda a comunidade linguística (seria o referendo a solução?), enfim, que ignoram os contributos de Saussure e de Chomsky, permanecendo agarrados a uma normatividade redutora, à boa moda dos gramáticos do século XIX.

Um reparo que parece impor-se reside na separação a fazer entre, por um lado, o carácter descritivo e explicatívo da linguística sincrónica enquanto reflexão sobre o funcionamento do sistema linguístico e, por outro, o carácter intrinsecamente normativo da língua padrão - a oral e a escrita -, sob pena de se instalar uma divergência irremediável entre a oralidade e a escrita, afinal realizações diferentes do mesmo sistema.

Não parece de todo legítimo que, pelo facto de se poder explicar que as formas "tênhamos" e "póssamos" resultam de uma tendência sentida pelo falante (independentemente até do nível cultural) para a regularização do padrão acentual do Presente do Conjuntivo ou que (tu)"dissestes" resulta de uma tendência regularizadora do padrão flexional da 2.ª Pessoa do Singular, se possa daqui concluir que tais formas, presentemente, não são claramente erros. Outro caso corrente é o do verbo «haver» impessoal que, à excepção do Presente do Indicativo, apresenta formas de singular e plural; esta tendência é de tal modo forte que até em formas perifrásticas se faz já sentir ("Vão haver reuniões sobre o assunto").

Assim, descrever e explicar desvios padronizados ou padronizáveis (tarefa da linguística enquanto reflexão sistemática sobre os processos da língua) não implica, automática e acriticamente, que a norma-padrão os aceite e os integre, exactamente porque ninguém pode prever como é que a comunidade no seu todo irá reagir a esta ou aquela inovação.

 

Sobre o autor

José António Fernandes Camelo (1942 - 1999) Era professor de Latim na Universidade Autónoma, cargo que desempenhara na Universidade de Santiago de Compostela e no Liceu de Pedro Nunes. Foi Presidente da Sociedade da Língua Portuguesa.