Tridecacampeão em hóquei
Numerais gregos a propósito de uma vitória desportiva
«Com este triunfo, após a vitória no primeiro jogo por 7-0, o tridecacampeão Benfica destacou-se ainda mais na liderança do historial da competição [...]»
"Benfica sagra-se campeão feminino de hóquei em patins pela 13.ª vez seguida", Jornal de Notícias, 27/06/20261
Prognósticos e os resultados do Mundial de Futebol de 2026 inundam os noticiários desportivos em Portugal. Mas que se passa com outros jogos de equipa e os seus campeonatos?
Falemos, então, de hóquei em patins, por exemplo. Em 27/06/2026, os jornais portugueses assinalaram a 13.ª vitória do Benfica no campeonato nacional de hóquei feminino, e leu-se, como é o caso da frase em epígrafe (sublinhado nosso), que o Benfica se tornou tridecacampeão. A palavra é, em princípio, um híbrido, pois associa trideca-, um prefixo2 adaptado do grego, e o nome comum campeão, que virá do germânico kampjo, derivado do latim campus (Dicionário Houaiss).
O termo tridecacampeão merece um breve comentário histórico e estrutural. Trideca- será uma adaptação algo indireta de um numeral do grego antigo, porque, para corresponder exatamente a treze, deveria ter a forma "trisquedeca", aportuguesamento de treiskaídeka (em carateres gregos τρεισκαίδεκα). O elemento parece antes dever-se à adjunção de tri- («três») a deca, do grego deka, que significa «dez», que ocorre em decaedro, «poliedro de dez faces», ou decágono, «polígono de dez lados». A estas palavras afixa-se tri- para formar tridecaedro («treze faces») e tridecágono («treze lados»), conforme se indica no Dicionário Houaiss, onde não se considera que, destes vocábulos, participe o elemento trideca-.
Além disso, convém referir que, além de bicampeão e tricampeão, são correntes as formas tetracampeão, «quatro vezes campeão», pentacampeão, «cinco vezes campeão», hexacampeão, «seis vezes campeão», heptacampeão, «sete vezes campeão», octocampeão ou octacampeão («oito vezes campeão»), eneacampeão («nove vezes campeão» e decacampeão («dez vezes campeão»). Estas formas figuram nos dicionários, pelo menos, no dicionário da Academia das Ciências de Lisboa, na Infopédia (Porto Editora) e no Dicionário Houaiss. Em todos eles, os prefixos têm origem nos numerais gregos (ibidem): tetra-, de téttares, es, a, «quatro»; penta-, de pénte, «cinco»; hexa-, héks «seis»; hepta-, de heptá «sete»; octo- ou octa-, oktṓ, «oito», cognato do latim octo; enea-, de ennéa, «nove»; e deca-, de deka, «dez».
A série continua, mas o registo lexicográfico vai rareando, talvez pela dificuldade de as vitórias continuarem a somar-se e motivarem referência. Assim, as fontes consultadas acolhem ainda hendecacampeão («campeão onze vezes»), formado por hendeca-, do grego héndeka, «onze». Depois param os registos de outros elemento da série, que, assim, só aparecerão um tanto episodicamente, como parece ser o caso de tridecacampião.
Acrescente-se que estes prefixos são identificados com quantificadores numerais, mas não é inequívoco o modo como correspondem a subclasses funcionais. Na verdade, apesar de poderem ser vistos como numerais cardinais, plausível é também interpretá-los como numerais multiplicativos.
Sem prejuízo do desejo que o Benfica terá certamente de colecionar vitórias nos anos vindouros, talvez seja altura de outros clubes também serem notícia, ativando também eles o uso desta série lexical.
1 Agradeço ao consultor Paulo J. S. Barata a chamada de atenção para o uso de tridecacampeão no contexto citado.
2 Embora os dicionários mencionados no presente apontamento classifiquem formas como trideca- e outras como antepositivos de significado numeral que funcionam como elementos de composição, sigo o critério de referir tais elementos como prefixos, de acordo com a Gramática Derivacional do Português (Coimbra, 2016, p. 454), de Maria da Graça Rio-Torto et al. Estes autores relacionam os prefixos em apreço quer com os numerais cardinais como com os multiplicativos (sublinhado meu): «(ii) os cardinais ambi- (ambidextro, ambiversão), bi- (bianual, bicampeão, biface, bifocal, bilateral, bimotor, bipolar), hexa- (hexapétalo, hexassílabo), mono- (monocomando, monomotor, monotónico, monovalve), penta- (pentacampeão), quadr- (quadriangular, quadrúpede), tetra- (tetracampeão), tri- (tricampeão, trifásico, trifosfato, trissulfato, trissemestral), octo- (octocórneo, octodecimal, octolingue), uni- (unicheque, unicorne, unilinear, univalve); (iii) os multiplicadores deca- (decagrama, decalitro), hecto- (hectograma, hectolitro, hectopascal), quilo- (quiloampere, quilocalorias, quilociclo, quilograma, quilohertz), e os submúltiplos deci- (decilitro, decigrama, decímetro), centi- (centigrama, centímetro), mili- (mililitro, miligrama, milímetro) [...]».
