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«Camões são Outros Quinhentos»

A concordância do verbo ser

Camões são Outros Quinhentos» é o sugestivo título de uma série da TSF, uma das iniciativas de se assinalar o 5.º centenário (quinhentos anos) do nascimento de Luís de Camões (1525-2025).

São conversas com professores e personalidades da vida pública portuguesa sobre a relação que têm com Camões, revelando o ponto de vista de quem ensinou a obra de Camões e de quem leu, de quem foi orientado ou de quem aprendeu na escola a conhecer a obra do escritor mais famoso da literatura portuguesa. Com a frase «Camões são Outros Quinhentos», é sugerida a importância de Camões.

A expressão «Outros Quinhentos» refere-se, naturalmente, aos 500 anos do nascimento do poeta, à relevância do valor atribuído ao longo destes quinhentos anos à obra de Camões, não suplantado por nenhum outro escritor português, mas, também, à continuidade desse valor por mais quinhentos anos, numa visão de uma actualidade não perecível. Com a expressão «Outros Quinhentos», sugere-se que, passados 500 anos, a obra do poeta continua a ser fundamental, propiciando sempre  novas leituras. O tempo pode passar, mas a obra de Camões vai continuar actual, vai permanecer por outros quinhentos, outros quinhentos...

Neste contexto, «Camões» é um tópico abstracto inteiro; não é uma pessoa singular: é essa pessoa e toda a sua obra  e todo o seu valor. «São Outros Quinhentos» é um recurso estilístico, é uma metáfora.

​A construção «Camões são Outros Quinhentos» está correcta: a forma verbal está a concordar com «Outros Quinhentos», o predicativo do sujeito, ou com toda a dimensão plural do nome de Camões.

Celso Cunha e Lindley Cintra, na Nova Gramática do Português Contemporâneo (2.ª edição, 1984, págs. 501 a 503), ao focarem a concordância do verbo ser com o predicativo, referem que ela ocorre em frases em que se pretende um determinado «efeito estilístico provocado pelo contraste de concordância» como neste passo de Camilo Castelo Branco:

«Há neles muita lágrima, e o que não é lágrimas são algemas.»

​A concordância do verbo ser com o termo colocado depois do verbo e que está no plural é visível em frases de diversas obras, como, por exemplo:

a) de Amor de Perdição (de  Camilo Castelo Branco):

​«A ignomínia das famílias são as más acções.»; «Espanta discrição tamanha na índole de Simão Botelho, e na presumível ignorância de Teresa em coisas materiais da vida, como são um património!»: «- Isso são sonhos, Mariana!».

b) de Os Maias (de Eça de Queirós):

«— Isso são os lisboetas — disse Craft.»; — Isso são imaginações — disse Carlos com amizade.»; «— Sintra não são pedras velhas, nem coisas góticas... Sintra é isto, uma pouca de água, um bocado de musgo...».

c) de A Sibila (de Agustina Bessa-Luís):

​«sempre lhe vou perguntar se isto são horas de deixar andarpor fora uma mulher como tu»;«Isto são modos de tratar amenina? – ralhou Francisco.»; «O crédito era o seu luxo, como nas velhas actrizes o são as suas jóias.»

d) de  Memorial do Convento (de José Saramago):

«e tudo  são rezas e murmúrios»; «Isto que aqui vês são as velas»; «e isto são roldanas»; «enfim, isto são conversas loucas»; «o pior são os espinhos»; «O melhor das viagens longas são estes filosóficos debates.»; « do nosso lado são tudo tapeçarias e cortinados de damasco carmesim com sanefas de brocado de ouro»; «o resto são atavios de diácono e emblemático corvo».

e) de Os Lusíadas:

« Mas o Mouro (...)  lhe diz (...) / Que outra Ilha tem perto, cuja gente / Eram Cristãos com Mouros juntamente.« (II, 101); «Enquanto, enfim, cuidava e quanto via / Eram tudo memórias de alegria.» (III, 121); «Com o mar um tempo andámos em porfias, / Que, como tudo nele são mudanças, / Corrente nele achámos tão possante, / Que passar não deixava por diante.» (V, 66).

​Em suma, com o título «Camões são Outros Quinhentos», pretende-se um efeito estilístico. Até hoje, a obra de Camões foi lida ao longo de quinhentos anos; foram quinhentos anos de Camões. E serão outros quinhentos anos, outros e outros quinhentos, dada a sua extraordinária dimensão: este escritor suplanta o tempo; a obra é intemporal.

Nota:  

Não se deverá dizer que o plural da forma verbal «nada tem a ver com o Predicativo do Sujeito, pois este, numa frase gramaticalmente correcta, tem de ser concordante com o Sujeito».

Efectivamente, o predicativo concorda normalmente com o sujeito se for um adjectivo e, muitas vezes, se for um nome, mas não há qualquer obrigação de concordância do predicativo com o sujeito.  Em latim, o caso do sujeito e o do predicativo do sujeito são o mesmo (o nominativo), mas isso não significa concordância em género.

Aliás, é usual considerar-se que o termo que se coloca antes do verbo é o sujeito e o que se coloca depois é o predicativo, assumindo que em frases com o verbo ser, a forma verbal ora concorda com o sujeito ora com o predicativo. No entanto, nessas frases, por vezes o sujeito está colocado depois do verbo e, efectivamente, a forma verbal está a concordar com o sujeito.

Mas, independentemente da classificação gramatical, o que importa é que, se o sujeito ou o predicativo do sujeito estiverem no plural, a forma verbal irá naturalmente para o plural, acompanhando toda a dimensão da informação.

Exemplos:

O meu tesouro são os meus filhos. Os meus filhos são o meu tesouro.
A alegria da minha tia são estes gatinhos. Estes gatinhos são a alegria da minha tia.
A nossa vida são dois dias.
Um dia não são dias.
A despesa não são só 15 euros, não!
Aquela conversa foram só elogios de parte a parte.

Fonte

Mantém-se a ortografia de 1945, seguida pela autora.

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