O género dos nomes de marcas comerciais, a diversidade linguística na lusofonia e as línguas ameaçadas - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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O género dos nomes de marcas comerciais, a diversidade linguística na lusofonia e as línguas ameaçadas
O género dos nomes de marcas comerciais,
a diversidade linguística na lusofonia e as línguas ameaçadas
Por Ciberdúvidas da Língua Portuguesa 342

 

1. Os nomes de marcas comerciais têm uma relação não motivada com o género gramatical. Por esta razão, por vezes, é difícil determinar se o nome de uma dada marca é masculino ou feminino, fenómeno que gera também dúvidas no plano da concordância. Não existindo nenhuma regra que determine, a priori, o género deste tipo de nomes, os falantes optam, não raro, por atribuir ao nome da marca o género do tipo de produto associado. Assim sendo, como determinar o género do nome Google? A diferença entre «mais bem/mal» e melhor/pior é uma das áreas que gera mais dúvidas aos falantes a par do uso do infinitivo flexionado. Na nova atualização do consultório, duas respostas abordam estas questões. Ainda uma dúvida sobre o significado da palavra configurador no âmbito do campo lexical de informática

Na primeira imagem: Carta das línguas minoritárias e suas vulnerabilidades.

2. A língua portuguesa convive, nos vários países onde é falada, com outras línguas, dialetos e crioulos. Esta convivência nem sempre tem sido equilibrada, pois em muitas situações o português tem agido como elemento aglutinador dos falantes, o que tem funcionado como uma séria ameaça às línguas mais frágeis, que arriscam extinguir-se. Refletindo sobre esta realidade, o escritor angolano José Eduardo Agualusa defende que a relação entre as diferentes línguas no espaço da lusofonia deve ser entendida como uma parceria que deve apoiar as línguas nacionais, conferindo-lhes a dignidade que merecem, pois desta forma «estamos criando um espaço de língua portuguesa em que todas as partes participam de forma livre, em situação de relativa igualdade, sem dominados nem dominadores. Uma lusofonia horizontal, que não se esgota, longe disso, na língua comum. Uma irmandade autêntica.» (crónica originalmente publicada no jornal Expresso, de 01/06/2019, transcrita, com a devida vénia, na rubrica O Nosso Idioma).  

3. Em linha com os problemas associados às línguas minoritárias encontra-se o 2.º Simpósio Internacional Línguas e Variedades Linguísticas Ameaçadas na Península Ibérica (LAPI 2019), que se realiza a 4 e 5 de julho de 2019, em Lisboa, com comunicações que visam a problemática da diversidade linguística na Península Ibérica. Este congresso é organizado pelo Centro Interdisciplinar de Documentação Linguística e Social (CIDLeS) e tem também a intenção de reunir um arquivo com dados relativos a todas as línguas ameaçadas na Europa (notícia aqui). A ação do CIDLeS tem incidido na preservação e descrição do minderico ou piação, língua falada pelos habitantes da zona de Minde, uma freguesia do concelho de Alcanena, distrito de Santarém, mas também tem apoiado estudos sobre outras línguas minoritárias, como uma língua falada no norte da Estremadura espanhola (cf. estudo desenvolvido pelo investigador checo Miroslav Vales).

4.  Os dialetos fronteiriços motivaram um projeto intitulado "Fronteira hispano-portuguesa: documentação linguística e bibliográfica" (Frontespo), cujos resultados, relacionados com as particularidades dos falares das zonas de fronteira, têm vindo a ser divulgados desde 2015 (cf. notícia aqui). Este é um projeto, com investigação ainda em curso, que pretende preservar dados linguísticos que se encontram em risco de desaparecimento em consequência da escolarização dos falantes e por ação uniformizadora dos meios de comunicação de massas. Alguma bibliografia produzida no âmbito desta investigação poderá ser consultada aqui

O Ciberdúvidas tem, desde há muito, dado destaque às questões relacionadas com a problemáticas das línguas ameaçadas, como se pode recordar  nos seguintes textos: «Línguas e línguas», «As línguas dos outros», «Multilinguismo», «Línguas (quase) mortas», «Esta língua nossa» e «Dues lhénguas».

5. Um registo final, e de pesar, sobre o falecimento da escritora portuguesa Agustina Bessa-Luís (1922 – 2019). Nascida a 15 de outubro de 1922, em Vila Meã (Amarante), deixa uma vasta e diversificada obra (cf. aquiaqui e aqui), reconhecida e aclamada no mundo inteiro. Estreou-se em 1948 com a novela Mundo Fechado, mas foi o romance A Sibila (1954) que marcou a sua maturidade enquanto escritora, que lhe trouxe o sucesso e o reconhecimento. O realizador Manuel de Oliveira, amigo pessoal da escritora, adaptou diversas das suas obras ao cinema, sendo Vale Abraão (1993) uma das produções mais conhecidas. Em 2004, o júri que a distinguiu, por unanimidade, Prémio Camões desse ano, considerou que a sua obra traduzia «a criação de um universo romanesco de riqueza incomparável, contribuindo para o enriquecimento do património literário e cultural da língua comum". 

Mais informações aqui, aquiaqui e aqui.