Houve na Terceira, demais, pseudoetimologias, nominalizações, regionalismos, pronomes e «meio-dia e meio»
1. O reacender da guerra no Médio Oriente, com a ofensiva conjunta dos Estados Unidos da América e de Israel no território do Irão em 28/02/2026, trouxe para a ribalta mediática de Portugal a Base Aérea das Lajes, situada na ilha açoriana da Terceira e utilizada como escala para reabastecimento de aviões norte-americanos. Falando-se de aeronaves no canal RTP Notícias (01/03/2026, 11h41), ouviu-se que «houveram de facto algumas movimentações», o que, além de indicar a intensificação do conflito, também motiva preocupação que não é só política, porque, como tem sido sublinhado numerosas vezes no Ciberdúvidas, o verbo haver não tem flexão no plural sempre que significa «existir». Corrija-se, portanto, a frase para exemplo de outras futuras, oxalá que em tempo de paz: «houve movimentações».
Na imagem, "Desembarque das tropas espanholas na Terceira (Julho de 1583)", Fresco de Niccolò Granello, Sala das Batalhas, Mosteiro de São Lourenço do Escorial, Madrid, Espanha (crédito: Wikimedia Commons). Entretanto, desengane-se quem julga que o fito de qualquer juízo prescritivo é apenas o de castigar erros linguísticos. Por exemplo, lendo uma peça jornalística sobre a Taça de Portugal na Rádio Renascença (04/03/2026), lê-se: «O futebolista [Luís Suárez] terá um prazo para se defender e recorrer e, caso "não seja verossímil a sua versão", acabará mesmo por ser punido.» Vale a pena recordar que verosímil, forma que será mais corrente em Portugal, igualmente se pronuncia e escreve verossímil, variante que tem a preferência de certos dicionários do Brasil (cf. dicionário da Academia das Ciências de Lisboa e Dicionário Houaiss). Por outras palavras, perante a variação, o papel da norma-padrão não tem de ser sempre o de excluir e condenar.
2. No Consultório, retoma-se uma velha questão ainda por resolver: será possível estabelecer sem hesitações a diferença entre a locução «de mais» e o advérbio demais? Mas outras dúvidas mereceram igual atenção entre 2 e 6/02/2026, as quais podem ser consultadas aqui.
3. Dois artigos em O Nosso Idioma: de Inês Gama, "Quando as palavras não contam a história que imaginamos"; e, de Roberto Gandulfo, "Nominalizações em -ção e -(s)são".
4.O que significará «ser um peganha» na região do Vale do Lis, no distrito de Leiria? O significado passa a estar acessível no Dicionário Informal e Popular do vale do Lis, nos Glossários.
5. Histórias do Mundo é uma coleção da Lidel que reúne versões de contos de todo o mundo e que se destina a estudantes de Português (Língua Estrangeira, Língua de Herança e Língua Não Materna). Em Montra de Livros, dá-se conta do lançamento do último volume.
6. A respeito das rubricas em vídeo do Ciberdúvidas, anote-se que, em "O Ciberdúvidas Vai às Escolas", levanta-se a questão de saber se «meio-dia e meia» é expressão correta (não é); e, em "Ciberdúvidas Responde", explica-se porque está errado dizer-se «dei um livro a ela».
7. Quanto aos programas de rádio Língua de Todos (RDP África) e Páginas de Português (Antena 2), disponibiliza-se toda a informação na página principal e nas Notícias.
8. Outros registos:
– a situação dos crioulos de São Tomé, em risco de se extinguirem, segundo o linguista Tjerk Hagemeijer (Observador, 01/03/2026);
– e o Prémio Formentor das Letras 2026, atribuído a Gonçalo M. Tavares (ver Notícias).
9. Regista-se com enorme tristeza a morte do escritor António Lobo Antunes em 05/03/2026, conforme também se dá conta nas Notícias. Sobre o contributo de Lobo Antunes para a inovação da língua portuguesa literária, sugere-se, por exemplo, a leitura de "António Lobo Antunes: o mundo da escrita", de Agripina Carriço Vieira (Público, 06/03/2026) e "Criou um estilo único..." (Correio da Manhã, 06/03/2026).
