Nominalizações em -ção e -(s)são
Regras ortográficas pouco conhecidas
Em geral, pouco se fala sobre regras ortográficas propriamente ditas. O que os estudantes (ao menos os brasileiros) lembram sobre isso reduz-se, talvez, à restrição de usar ‘m’ antes de ‘p’ e ‘b’. Além disso, a ortografia por vezes se mistura com a fonologia e, de fato, parece complicado prever algum tipo de padrão nesse universo. Tudo que se pode dizer sobre ortografia parece um conjunto interminável de curiosidades e estipulações nada generalizantes.
Neste texto, pretendo mostrar um exemplo de regra ortográfica relevante. Não vou contradizer integralmente o que disse anteriormente; trata-se de um esquema de regras com exceções, casos isolados, entre outros. Mas pode ser útil ao aluno que, por vezes, confunde o uso de ç e (s)s, como em exceção.
Suponhamos que você pretende escrever a nominalização de um verbo que você sabe que vai receber o sufixo -ção ou -(s)são, pela sonoridade. É possível prever com qual grafemas esse sufixo é escrito? Vejamos alguns casos particulares (que também podem ser encontrados no Megamanual de Morfologia do Português, de minha autoria).
1. Se o verbo infinitivo perde apenas o -r final para receber o afixo, esse afixo será -ção, e não -(s)são.
(1) reter > retenção
(2) curtir > curtição
(3) classificar > classificação
2. Se o verbo termina em -dar, -der, -dir, -ter, -tir e -mir e ele perde essa terminação inteira para dar lugar ao sufixo, então esse sufixo será -(s)são (com som /s/), e não -ção.
(4) obsedar > obsessão
(5) ascender > ascensão
(6) expandir > expansão
(7) submeter > submissão
(8) demitir > demissão
(9) comprimir > compressão
[*] Outros exemplos: ceder > cessão, tender > tensão, regredir > regressão, discutir > discussão, imprimir > impressão, progredir > progressão, reprimir > repressão.
3. Existem poucos casos excepcionais em que o sufixo -são tem som /z/.
(10) persuadir > persuasão
(11) evadir > evasão
(12) decidir > decisão
[*] Outros exemplos: dividir > divisão, incidir > incisão.
4. Se, para dar lugar ao sufixo, o verbo perde uma terminação diferente de uma das cinco supramencionadas, então usa-se -ção.
(13) agir > ação
(14) comover > comoção
(15) contradizer > contradição
(16) torcer > torção
(17) resolver > resolução
(18) dispor > disposição
(19) reduzir > redução
5. Existem casos em que -mir torna-se -nção, porque não perdeu a terminação -mir totalmente (o m tornou-se n), como no caso 4 anterior.
(20) redimir > redenção
[*] Outros exemplos: assumir > assunção, presumir > presunção.
6. Excepcionalmente, alguns verbos terminados em -ergir, -cluir e -pelir recebem o sufixo -são, contradizendo o caso 4.
(21) imergir > imersão
(22) expelir > expulsão
(23) excluir > exclusão
7. Verbos como flectir e conectar seguem a regra geral: independentemente de receberem -ção ou -são, formam um som /ks/, que é convertido, na ortografia, para o dífono x.
(24) flectir > (‘flecsão’) > flexão
(25) conectar > (‘conecção’) > conexão
Dois casos particularmente relevantes. Diferentemente do que se costuma pensar, atenção não deriva de atentar ou atender, mas sim de ater: «presta atenção aquele que se atém a algo.» Além disso, de excetuar deriva exceção, que se enquadra no caso 5 acima: exce-tuar > exce-ção.
É evidente que esse conjunto de regras não é absoluto, ou seja, pode haver exceções, mas certamente o esquema abrange a maior parte dos dados conhecidos com esses sufixos.
