De liquidacionismo a «tote bag», os pronomes átonos, a coexistência de línguas em Angola, o Porto falado e um livro de Emília Amor
1. Em Portugal, enquanto o Volta, o novo sistema de depósito e reembolso de embalagens, gera polémica e motiva a recuperação do verbo catar e do seu derivado catador (ler "Do 'catar piolhos' ao 'catar o lixo'"), a pressão de outro tipo de preocupações dita variadas dinâmicas lexicais. Para dar dois exemplos, o primeiro é o do anúncio do 56.º aniversário do PCTP/MRPP, no qual se detetam duas palavras curiosas: o vocábulo "consigna", na aceção de «palavra de ordem», um uso insólito em português, mas não em castelhano, que talvez reflita o discurso de certo ativismo político no país vizinho; e liquidacionismo que a Luta Popular, órgão do referido partido, define como «o abandono da Teoria da Revolução». Bem longe ideologicamente desta publicação, um outro jornal tem uma campanha de assinaturas com descontos e a oferta de um... tote bag. Em Portugal, este anglicismo traduz-se prosaicamente por «saco de pano» ou simplesmente saco, que são as expressões de sempre, de uso corrente. Reconheça-se, não obstante, que a aura de modernidade de qualquer termo anglo-saxão torna o mais miserável remendo num (lucrativo) acessório de luxo burguês.
A propósito da dinâmica do léxico e de medidas normativas que procuram contê-la, assinale-se um artigo de opinião do professor universitário Rodrigo Tavares (Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa), com o título "Milhares de palavras desapareceram no último século. Onde estavam os puristas da língua portuguesa?" (Expresso, 17/09/2026, conteúdo para assinantes).
2. Qual é a sequência correta no português de Portugal: «... que nas últimas declarações mostrou-se como o Dono Disto Tudo» ou «... que nas últimas declarações se mostrou como o Dono Disto Tudo»? A resposta, que diz respeito às regras da colocação dos pronomes átonos em orações subordinadas, encontra-se no conjunto de 14 novos esclarecimentos que atualizaram o Consultório nos últimos dias.
3. Nas demais rubricas:
– em Lusofonias, o linguista Fernando Chilumbo reflete sobre como abordar a diversidade linguística nas escolas de Angola;
– Sara Mourato dá conta, no Pelourinho, da surpreendente substituição do vernáculo mesquita pelo inglês mosque num programa de comentário político;
– e, em O Nosso Idioma, Carla Marques lembra que inclusivemente é forma incorreta e que o correto fonética e ortograficamente é inclusivamente.
4. A Montra de Livros recebe duas novas apresentações:
– Dicionário Ilustrado do Calão do Porto, de João Carlos Brito;
– Conversas Soltas na Casa das Palavras, uma coleção póstuma de textos da pedagoga Emília Amor (1943-2025).
5. A informação sobre os programas que a Associação Ciberdúvidas produz para a rádio portuguesa encontra-se, como é habitual, na página principal e nas Notícias.
