Este é um serviço gracioso e sem fins comerciais, de esclarecimento, informação e debate sobre a língua portuguesa, o idioma oficial de Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste. Sem outros apoios senão a generosidade dos seus consulentes, ajude-nos a dar-lhe continuidade: Pela viabilização do Ciberdúvidas. Os nossos agradecimentos antecipados.
A ortografia de «por que» no Brasil

Gostaria de saber o que regula o emprego do porque no Português do Brasil. Que é que regula a ortografia brasileira? Há alguma lei ou só o acordo ortográfico de 1990 é que a regula? Será que é o Vocabulário Oficial da Academia Brasileira de Letras? Se a ortografia brasileira só se rege pelo acordo ortográfico de 1990, por que é que temos necessariamente de escrever o advérbio interrogativo «por que» com os elementos despegados, uma vez que o mesmo acordo é omisso quanto ao uso dos porquês? Pode dizer-se que a ortografia brasileira, sob esse aspeto, segue a tradição das gramáticas portuguesas ou se pauta no português velho não revisado que os lusitanos trouxeram consigo para o Brasil, visto que em Portugal o advérbio interrogativo também se escrevia com os elementos despegados?

José de Vasconcelos Saraiva Fortaleza, Brasil 1K

O que regula a ortografia usada no Brasil é o Acordo Ortográfico de 1990 (AO 90), conforme a interpretação que lhe dá a Academia Brasileira de Letras mediante o seu Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa. Quanto a «por que», classificado como uma locução adverbial interrogativa («Por que pergunta isso?»), é assim que se mantém no Brasil; em Portugal continuará a escrever-se porque, como advérbio de interrogação («Porque perguntas isso?»).* Note-se que com a aplicação do AO 90 se tem pretendido mais coordenar a escrita do que unificá-la nos diferentes países de língua portuguesa (cf. Vocabulário Ortográfico Comum da Língua Portuguesa e os vocabulários nacionais associados já disponíveis no Instituto Internacional da Língua Portuguesa)**. Não se pense, portanto, que vamos todos – do Brasil a Timor – escrever todas as palavras da mesma maneira. Na maioria dos casos escrevemos igual, mas vai continuar a haver algumas diferenças.

Não é seguro que no «português velho não revisado que os lusitanos trouxeram consigo para o Brasil [...], o advérbio interrogativo também se escrevia com os elementos despegados». Em Portugal, os vocabulários ortográficos e os dicionários produzidos desde a Reforma Ortográfica de 1911 têm registado porque sob forma aglutinada, como advérbio interrogativo (ver Gonçalves Viana, Vocabulário Ortográfico e Remissivo da Língua Portuguesa, 1913; Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, publicado em 1940, pela Academia das Ciências de Lisboa). Mas quem consulte o Vocabulário Portuguez e Latino (1709) de Rafael Bluteau (1638-1734) verá que o lexicógrafo registava porque, sem separar, conforme a abonação incluída no respetivo verbete: «Porque não callais a boca, que manifesta a vossa tolice.» Em 1789, António de Morais Silva (1755-1824) também não separava a forma porque no seu célebre Diccionario da Lingua Portugueza, classificando-a como «frase adverbial, em que por ellipse faltão os nomes causa, razão; usa-se interrogando». Décadas mais tarde, em 1871, Domingos Vieira, no Tesouro da Língua Portugueza, grafa porque novamente sem separar e, como que fazendo eco de Morais, diz que esta entrada corresponde a uma «locução conjunctiva» que se usa «muitas vezes interrogando».: Vide, ainda, as diversas respostas sobre as formas porquepor que  e porquê referidos nos Textos Relacionados, ao lado. E, ainda, este registo brasileiros: Porque, porquê, por que ou porquê + Por que/por quê/porque ou porquê? + Por que, por quê, porque, porquê.

 

**N. E. (25/2/2017) Sobre os objetivos do Acordo Ortográfico de 1990, leia-se na rubrica dedicada ao tema o que especifica  um dos autores deste normativo, João Malaca Casteleiro,  na entrevista que concedeu ao jornal Observador em 13/2/2017. Nomeadamente nesta passagem: «Fundamentalmente porque havia duas ortografias oficiais para a língua portuguesa, a brasileira e a portuguesa. Do ponto de vista da promoção internacional da língua, era prejudicial. Numa universidade ou instituição estrangeira onde se ensine o português, qual era a ortografia que se ia ensinar? A de Portugal? A do Brasil? E depois houve outra razão fundamental: em 1975, as colónias portuguesas tornaram-se independentes e adotaram a língua portuguesa como língua oficial. Corríamos o risco, porventura, de se caminhar para sete, oito ortografias diferentes.»

Carlos Rocha