«Para a Lúcia»: complemento oblíquo - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
«Para a Lúcia»: complemento oblíquo

Gostaria de ver esclarecida uma dúvida sobre a presença dos complementos indireto e oblíquo.

Na frase «Fiz um desenho para a Lúcia», o constituinte «para a Lúcia» desempenha a função de complemento oblíquo, ou de complemento indireto?

Não está correta a substituição «Fiz-lhe um desenho»? O complemento indireto é sempre introduzido pela preposição a? A preposição para não pode introduzir esta função?

Obrigada pela vossa disponibilidade.

Palmira Garcia Professora Maia, Portugal 2K

O constituinte «para a Lúcia» é um complemento oblíquo que marca o beneficiário da ação.

Não é consensual a análise dos grupos preposicionais introduzidos por para, que marcam o beneficiário de uma ação. No entanto,  a consulta da Gramática do Português (Fundação Calouste Gulbenkian, 2013, p. 1176-1180) permite apurar que:

– o grupo preposicional introduzido por para não tem o mesmo comportamento sintático e nem sempre tem a mesma interpretação que o grupo preposicional introduzido por a (substituição por lhe; além do valor semântico de beneficiário, também pode ter associados os de origem – «ele comprou um carro [ao vizinho] para o filho» – e destinatário – «ele entregou os documentos [ao contínuo] para a professora»);

– a preposição para introduz um complemento oblíquo com o valor de beneficiário (papel temático), porque é argumento verbal, embora este não seja de realização obrigatória, conforme explica a GP (p. 1176):

«Tal como os complemento indiretos com o papel temático de origem ou de destinatário, os sintagmas preposicionais com o papel temático de beneficiário são argumentos opcionais dos verbos com os quais ocorrem, podendo ser omitidos sem prejuízo da gramaticalidade das frases. Nesse caso, a interpretação mais natural é aquela em que o beneficiário é semanticamente indefinido (alguém), podendo, em certos casos, corresponder ao sujeito da oração (como em o Pedro construiu uma casa, frase da qual se infere, num contexto neutro, que a casa é para benefício do próprio Pedro).»

Assim, esta passagem permite perceber que o complemento oblíquo em questão pode confundir-se com um modificador do grupo verbal, embora não seja isso, pela razão de se tratar de um argumento verbal. Também não é um complemento indireto, porque este tipo de constituinte é sempre introduzido pela preposição a, e não pela preposição para.

Em relação a «fiz-lhe um desenho», verifica-se a ocorrência de um complemento indireto, ao qual se pode associar o valor de beneficiário. Do facto de este papel se associar quer a lhe quer a «para a Lúcia» ou «para ela» não decorre que estes grupos preposicionais sejam complementos indiretos.

Resta acrescentar que, dada a sua complexidade, a análise de exemplos com grupos preposicionais introduzidos por para com o papel temático de beneficiário pode revelar-se pouco adequada no contexto do ensino básico, e, mesmo no ensino secundário, deverá ter-se em atenção a maturidade dos alunos.

Carlos Rocha