Escolheste vs. escolhes-te - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Escolheste vs. escolhes-te

É absolutamente claro que na frase «...gostava de saber porque escolheste uma fotografia a preto e branco» o pretérito perfeito do indicativo do verbo escolher, na segunda pessoa do singular se escreve escolheste. A minha dúvida está na outra grafia, apenas aplicável em outros contextos diferentes e na conjugação pronominal reflexa: a forma escolhes-te, que, embora pouco usada e de aparência um tanto "pantanosa",  me parece, apesar de tudo gramaticalmente correcta e aceitável.

Na verdade, escolhes-te é de uso extremamente raro, quase ninguém usa e refere-se a uma determinada pessoa escolher-se a si mesma. Por exemplo, diremos a um certo Carlos: «quando fazes a equipa de futebol, escolhes o Joaquim, escolhes o Alberto, escolhes o João e escolhes-te (a ti mesmo); escolhes-te, porque achas que jogas bem.»

Caso diferente  é a forma verbal escolheste, que se refere ao passado (pretérito perfeito do indicativo do verbo escolher). Por exemplo, nesta frase: «Ontem, quando fomos ao restaurante, escolheste bife, a Isabel  escolheu dourada assada e eu escolhi bacalhau.»

Procurei no Ciberdúvidas mas não encontrei o caso explicado com este verbo. Formas parecidas como lavas-te, vestes-te, cuidas-te, maquilhas-te, por serem de uso muito mais banal e definitivamente aceite, não  me pareceram adequadas ao esclarecimento deste caso pontual. Em suma, a forma verbal escolhes-te,  no contexto acima exemplificado, apesar do seu ar invulgar é – segundo me parece – correcta. Concorda[m], ou estarei errado?

[...] [A] minha dúvida não está  na identificação  das duas formas de uso (e  dos respectivos contextos), mas sim na aceitabilidade da forma pouco usada da conjugação reflexa no caso deste verbo em particular. Os casos de uso mais corrente ( v.g., penteias-te, consideras-te, realizas-te), por serem usados frequentemente, não suscitam tantas interrogações. Por isso lhe peço o favor de incluir expressamente um exemplo com o verbo escolher. 

O meu muito obrigado.
Guilherme de Oliveira Professor Lisboa, Portugal 1K

Com verbos regulares da 1.ª e 2.ª conjugações, é frequente haver confusão na escrita entre o pretérito perfeito simples do indicativo (PPI) e o presente do indicativo (PI) da conjugação pronominal, na 2.ª pessoa. Trata-se de formas diferentes, com pronúncia e grafia diferentes:

1. enganaste (PPI) vs. enganas-te (PI)

2. vendeste (PPI) vs. vendes-te (PI)

As formas corretas acima indicadas têm diferentes contextos de ocorrência; p. ex.:

3. «Enganaste quem confiava em ti.» vs. «Enganas-te ao dizeres isso.»

4. «Vendeste a casa?» vs. «Vendes-te por um prato de lentilhas.»

O erro está em escrever uma forma no contexto da outra (o * indica erro ortográfico):

5. *Enganas-te quem confiava em ti.

6. *Vendes-te a casa?

O erro pode chegar a afetar a grafia dos verbos irregulares:

7. Fizeste uma asneira. / *Fizes-te uma asneira.

Outra confusão recorrente – já aqui abordada – é a do imperfeito do conjuntivo (IC) com a forma pronominal do presente do indicativo (PI), na 3.ª pessoa: lavasse vs. lava-se.

Muitas vezes, em contexto pedagógico, a estratégia para evitar a incorreção em apreço é pedir aos alunos a aplicação de um teste que consiste em juntar não ao verbo da frase que pretendem escrever. Retomando os exemplos 4 e 6, aplica-se o teste para obter as seguintes frases:

8. Não vendeste a casa.

9. Não TE vendes por um prato de lentilhas.

O exemplo 9 indica que só o -te pronominal hifenizado é móvel, deslocando-se para posição pré-nominal e na escrita perdendo o hífen. No exemplo 8,apesar do advérbio de negação, a sequência te não muda de posição, o que significa que constitui uma terminação e, portanto, não se separa da forma verbal de que é parte.

A questão levantada a respeito de escolhes-te tem, portanto, igual tratamento. Pode a forma escolhes-te parecer insólita? Pode, porque, do ponto de vista extralinguístico, sabemos que quem escolhe e quem (ou o que) é escolhido costumam ser entidades diferentes, tornando-se menos frequente que o agente da escolha seja o alvo ou o paciente de tal escolha. Mesmo assim, é sempre possível que alguém se escolha a si próprio, no sentido, por exemplo, de defender o seu próprio interesse, sem considerar o dos outros; outra situação é a da seleção de jogadores, como se propõe na pergunta. Num ou noutro cenário, o exemplo facultado pela pergunta –«tu escolhes-te a ti próprio» – tem toda a adequação.
Carlos Rocha
Tema: Uso e norma Classe de Palavras: verbo