O gerúndio e a colocação do pronome do complemento directo - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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O gerúndio e a colocação do pronome do complemento directo

Eu li várias respostas sobre o gerúndio e sobre a colocação do pronome do complemento directo. Mas não consegui deduzir o seguinte:

Quando um verbo, que não é auxiliar, mas é acompanhado com um pronome de complemento directo e depois um gerúndio de outro verbo, qual é o sujeito do segundo verbo?

Seja o mesmo sujeito do primeiro verbo, ou o qual do complemento?

Por exemplo, examinando as próximas frases 1, 2 e 3, qual é a significação de cada uma delas, dentre A, B, C:

1) O professor me viu andando na rua.
2) O professor viu-me andando na rua.
3) O professor viu eu andando na rua.
A) O professor me viu quando ele estava andando na rua.
B) O professor me viu quando eu estava andando na rua.
C) Gramática errada – não tem significação.

E mais, se for "eu" o sujeito, e "ele" o complemento, teria qualquer diferença?

1) Eu o vi andando na rua.
2) Eu vi-o andando na rua.
3) Eu vi ele andando na rua.
A) Eu o vi quando eu estava andando na rua.
B) Eu o vi quando ele estava andando na rua.
C) Gramática errada – não tem significação.

E se for outro verbo em vez de "vir", por exemplo "deixar"?

1) O professor me deixou andando na rua.
2) O professor deixou-me andando na rua.
3) O professor deixou eu andando na rua.
A) O professor me deixou quando ele estava andando na rua.
B) O professor me deixou quando eu estava andando na rua.
C) Gramática errada – não tem significação.

Muito obrigado.

Itaj Sherman Matemático Telavive, Israel 3K

Estamos perante um verbo perceptivo (ver) que associada a uma oração de gerúndio (andando) ou infinitivo gerundivo (a andar, que é usado em Portugal). A particularidade desta construção é a de ser ambígua quanto à identificação o sujeito do gerúndio:

(1) «O professor viu-me andando/a andar na rua.»

Esta frase pode ser parafraseada como:

(2) «O professor viu-me quando ele/eu andava na rua.»

O mesmo se pode dizer quando o sujeito de ver em (1) e (2) for «eu», e o complemento dire{#c|}to, «o professor» ou «ele», como em (3) e (4):

(3) «Eu vi-o andando/a andar na rua.»

(4) «Eu vi-o quando eu/ele andava na rua.»

Note que a colocação do pronome em relação ao verbo ver identifica a variedade de português:

(5) «Ele me viu» (português brasileiro).
(6) «Ele viu-me» (português europeu).

Acresce que não há ambig{#u|ü}idade quando se usa o infinitivo em português europeu sem a preposição a:

(7) «O professor viu-me andar na rua» = «O professor viu-me quando eu andava na rua».

Em relação ao verbo deixar, que é causativo, as propriedades verificadas nas frases anteriores são as mesmas.

Por fim, as estruturas «Eu vi ele andando/a andar/andar» existem no português em geral, mas não são aceites pelas normas-padrão. O caso torna-se mesmo de agramaticalidade, quando se constrói «O professor viu eu andando/a andar/andar», que é mesmo de rejeitar.

Carlos Rocha
Tema: Uso e norma
Áreas Linguísticas: Semântica; Sintaxe